Os grandes desafios do século XXI para o voluntariado

Por Kelly Alves do Carmo, cientista Social, mestra em Gestão para a Sustentabilidade, possui MBA em Recursos Humanos e é especialista em responsabilidade social, projetos sociais e Terceiro Setor.

O conceito que utilizamos para definir trabalho voluntário na Pesquisa Voluntariado no Brasil é de influência mais humanista e atual: ’Serviço ou atividade voluntária é doar tempo e trabalho de maneira espontânea e sem remuneração para a comunidade, para projetos sociais, para programas assistenciais, para causas, para eventos e situações emergenciais. Pode ser individual, organizada por grupos ou por empresas”. Porém, no Brasil o voluntariado nasce como uma forma de lidar com os primeiros desafios sociais, que vão surgindo com a convivência entre os nativos da terra, os europeus e, posteriormente, com os negros escravizados.

De fato, o voluntariado brasileiro expressa o impacto da Igreja Católica no processo de colonização, na benemerência cristã, na imposição de dogmas religiosos aos povos originários e também nos primeiros serviços de saúde neste território. Era uma ação para lidar com a dor imediata dos primeiros conflitos e desigualdades sociais nessa relação. E, conforme o Brasil vai se desenvolvendo, as desigualdades sociais vão se ampliando, bem como as ações voluntárias e, assim, mantém ao longo da sua história os resquícios da influência cristã, de forte teor católico.

Depois de cinco séculos, a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 traz um número surpreendente: 54 milhões de brasileiros são voluntários, 20 milhões de forma regular. Aquelas ’obras‘ que surgiram como a ação de alguém que estava em uma situação de magnanimidade cristã ou generosidade gratuita, com o objetivo de abrandar a fome, diminuir as desigualdades de acessos à saúde ou educação, evoluiu para a organização de grupos, movimentos sociais, se fortalecendo e construindo programas de voluntariado cheios de motivações, causas e propósitos. A pesquisa aponta que mais de 97% das pessoas acreditam que o trabalho voluntário é um exercício de cidadania e um processo transformador da realidade.

A pesquisa elucida que 74% dos brasileiros que praticam o voluntariado apontam que a principal motivação de sua atuação é a solidariedade e 88% afirmam que o voluntariado contribui para a cultura de paz e colaboração para o bem comum; 35% dizem que a sensação de ajudar ao próximo e 25% a percepção de estar fazendo algo relevante são os principais causadores de satisfação do trabalhador voluntário.

Ser voluntário é reconhecer que há um problema, um desafio e, com seu tempo, com seu trabalho e conhecimento, ser parte dessa solução. É acreditar que sua atuação faz a diferença e isso gera e retroalimenta a motivação, a paixão por causas e propósito. O engajamento é o reconhecimento que você está conectado a algo ou alguma coisa. Essa conexão pode ser racional ou emocional, pode ser individual ou coletiva, pode ser entre pessoas, uma causa comum ou institucional, mas o mais importante é que ela deve gerar valor compartilhado e resultados positivos. Por vezes, o voluntário nem tem tanta consciência deste valor na sua atuação, por vezes é uma bandeira de luta, de ativismo, militância que realmente motiva o seu viver.

O grande desafio do século XXI, com tantas pautas, tantos problemas e desigualdades, é gerar engajamento nos programas de voluntariado, bem como a permanência dos voluntários. Umas das principais dicas dos especialistas é estimular o ativismo, demonstrar o quanto a sua ação e o seu trabalho voluntário impactam naquela realidade e, consequentemente, na vida de outras pessoas. Um ponto de atenção apontado pela pesquisa é a necessidade de motivar as pessoas, demonstrar que elas fazem a diferença e apoiar a continuidade das ações.

Em 2021, na sua terceira edição, a pesquisa marca que as principais causas dos voluntários brasileiros são: público em geral (36%), famílias e comunidade (35%), crianças, adolescentes e pessoas em situação de rua (25%), um aumento significativo para as causas da pessoa com deficiência (9%), causas dos animais (9%) e meio ambiente (6%). 

Muitos programas romantizam a ação do voluntário e os impactos do voluntariado, porém há um chamamento da sociedade para promover dinâmicas de escuta, analisar a realidade que a pessoa e/ou a instituição estão inseridas, ouvir as expectativas da comunidade e construir coletivamente esses programas e projetos. Impactar positivamente no local que está inserido, mas fazendo correlações com o macro, que pode ser a cidade, o estado, o país ou o mundo. Um dos exemplos disso são os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, demonstrando de forma clara e objetiva quais são os maiores problemas do planeta e que todos nós somos responsáveis e devemos contribuir com a solução.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Tutela e emancipação: dois caminhos para o Voluntariado

Por Bruno Barcelos, consultor em projetos nas áreas de ESG – Environmental, Social and Governance (em português Ambiental, Social e Governança), Sustentabilidade, Investimento Social Privado e Voluntariado para iniciativas privadas e públicas do Brasil e Portugal.

O voluntariado cruza-se com vários conceitos, dentre eles a caridade, a assistência, as doações e outros cuja relação aprofundei na minha dissertação de mestrado. Contudo, das palavras que cercam o voluntariado, apenas uma não pode estar de fora: ação. Depois disso, há que se cuidar na relação do voluntariado para fins de tutela ou emancipação dos envolvidos, com a atenção de que a tutela pode ter mais a ver com a manutenção das desigualdades estruturais do que com a sua resolução. 

As bases coloniais influenciaram a constituição conceitual e prática da caridade institucional no Brasil. A revisão historiográfica permite identificar a chegada das ordens religiosas com a finalidade colonial, portando consigo os valores a serem implantados, com ou sem consentimento das populações originais, que de protagonistas do seu território precisaram estabelecer novas relações sociais junto aos viajantes, e identificadas como pessoas assistidas, analfabetas, com necessidade de ensino e catequese, e pobres em moral e cultura, sob o discurso dos que invadiam. 

A pauta civilizadora era tal que, ao buscar fincar no novo mundo uma réplica dos seus modelos de gestão monárquica, eclesiástica e comercial, foi necessário também trazer consigo as irmandades que cuidariam dos efeitos colaterais da sua própria ação: os modelos urbanos e sociais que implementavam à maneira da metrópole, carregavam a pobreza, doenças, a peste, e sistemas desiguais que demandavam a assistência aos vulneráveis e doentes, executadas principalmente pelas Santas Casas de Misericórdia. 

A partir daí, o modelo de assistência social varia conforme os padrões de gestão do Estado, influenciado pelas variações na relação do governo com a igreja. Basicamente, tornava o doador um cidadão virtuoso perante as instituições que integrava, e isso carregou o conceito de voluntariado com características que até hoje vigoram. Sendo a caridade mais ligada à benevolência da igreja e a filantropia à sociedade civil. 

Portanto, o termo caridade, apesar de originalmente significar ’amor‘, cresceu ligado à noção de ’desvalido‘. Ou seja, os atos de caridade, seriam destinados a aqueles que são desprotegidos por ’paternidade‘ – ou paternalismo. E podemos reparar até hoje que a figura do coitado desvalido é tão desempoderada e, ao mesmo tempo, utilitária, que, nessa lógica, aos ricos pedir esmola em sua função ’era‘ considerado virtuoso. Dito isso, a figura utilitária do pobre para salvação dos ricos é uma equação comum na concepção de caridade, e é importante ter isso no radar ao aplicar esse termo: a ação de voluntariado que se pratica coloca doador e recebedor em posição de igualdade ou é um exercício enobrecedor do doador? 

Remetendo a Dilene Nascimento: “a filantropia pode ser explicada, grosso modo, como a laicização da caridade cristã, ocorrida a partir do século XVIII, e que teve nos filósofos das luzes seus maiores propagandistas.” Provavelmente, uma diferença entre esses dois conceitos seja que a filantropia pode conceder ao doador maior protagonismo do seu ato, em relação ao donatário, conferindo utilidade a publicitação das suas obras, para fins de destaque social e intercâmbio de ideias. Felizmente, no Brasil, a Filantropia junto ao Investimento Social Privado evolui para práticas estruturantes que buscam a emancipação e o impacto. 

Por fim, uma palavra transversal aí tem sido a doação, e mais profícuo que problematizá-la é enquadrá-la como ação necessária, pontualmente, como uma ferramenta das relações de voluntariado de continuidade. Com a doação é possível alcançar grandes números de engajamento e benefício, e ela é, muitas vezes, uma porta de entrada para o voluntariado transformador. 

O consenso é que: doação, filantropia, caridade e voluntariado, são termos que coexistem e farão muito se apontarem para uma dinâmica social libertadora. 

Referências:
NASCIMENTO, Dilene Raimundo. Liga Brasileira contra a Tuberculose: um século de luta. Fundação Ataulpho de Paiva — Rio de Janeiro, Quadratim/FAPERJ, 2001, 156p.

O Programa Brasil Voluntário da Copa das Confederações e da Copa do Mundo (2013-2014)

Por Thérèse Hofmann Gatti Rodrigues da Costa, doutora em Desenvolvimento Sustentável pelo CDS/UnB, coordenou a etapa de capacitação do Programa Brasil Voluntário do Ministério de Esportes na Copa do Mundo 2014.

Ser voluntário é um ato de mão dupla, pois você doa e recebe na mesma proporção. A pessoa doa o próprio tempo, o conhecimento que tem, a experiência em determinado assunto. E, ao ser voluntário, há ganhos na oportunidade de interagir com outras pessoas, de receber outros conhecimentos e de ter como retorno a vivência de uma nova experiência. Mais do que tudo, ao ser voluntário, cada um tem a satisfação de simplesmente fazer o bem.

Em 2013 e 2014, o Brasil recebeu dois grandes eventos mundiais de futebol, que foram a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Para fazer frente ao grande número de visitantes que o País estimava receber, o governo federal da época organizou ações de voluntariado público para atuar em áreas externas aos estádios de futebol e com ações mais diversificadas, do que se estabeleceu ser o programa de voluntários da FIFA no Brasil. Estando à frente do Decanato de Extensão da Universidade de Brasília, naquele momento recebemos a proposta de ser parceiros do Ministério do Esporte no desafio de organizar a capacitação do programa Brasil Voluntário. 

Apresentamos ao Ministério do Esporte, em conjunto com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, um projeto integrado de ensino, pesquisa e extensão para a capacitação dos voluntários. As metodologias desenvolvidas, tanto para a ensino a distância (EAD) quanto para a capacitação presencial, foram inovadoras e inéditas à época. Os projetos propiciaram várias inovações em termos de capacitações em grande escala: ensino a distância, capacitações presenciais simultâneas, logística de organização das atuações, desenvolvimento de material didático sobre o tema, metodologia inovadora e a certificação digital inédita, nos moldes estabelecidos pelo Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), que foi disponibilizada pela Universidade de Brasília.

O desafio que tivemos ao coordenar a capacitação, primeiro nas seis cidades-sede (Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza) da Copa das Confederações e depois nas 12 cidades-sede (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo) da Copa do Mundo, foi de uma complexidade ímpar. A experiência adquirida com estes dois eventos nos habilitou a encarar outros desafios posteriores de forma muito mais serena. 

Tivemos grandes aprendizados e contamos com parcerias inestimáveis das universidades públicas, estaduais e federais de cada uma das cidades-sede. Foram sete universidades parceiras na Copa das Confederações e 17 na Copa do Mundo. Grupos de voluntários ligados a movimentos religiosos somaram-se a nós, sendo também parceiros fundamentais para o sucesso dos eventos. 

Inestimável, e super acertada também, foi a parceria que fizemos com o Corpo de Bombeiros de cada cidade sede. Capitaneados pelos oficiais do Corpo de Bombeiros de Brasília, a atuação na capacitação em primeiros socorros e segurança realizada presencialmente em cada cidade – e que contou com a atuação direta dos oficiais das corporações locais – foi um sucesso total. As capacitações de Ensino a Distância, realizadas no portal Brasil Voluntário em plataforma moodle especialmente, customizada para os eventos e depois as capacitações presenciais, permitiram aos cidadãos uma formação não só para atuar nas Copas, mas para a vida. Nas palavras de vários voluntários, registradas em vídeos ao longo das capacitações, toda a experiência adquirida naquele momento já vislumbrava que poderia ser utilizada para outros momentos da vida deles. 

A idade mínima para participar nos eventos da Copa foi de 18 anos. Tivemos cidadãos das mais diferentes idades, engajados nos eventos. Famílias inteiras se disponibilizando para atuar, pais e filhos fazendo a capacitação em conjunto, foram momentos realmente indescritíveis.

Creio que como um dos legados temos o sentimento de um momento de cidadania plena. Quem foi capacitado para ser voluntário e atuou nas Copas vivenciou uma grande satisfação de poder fazer o bem, de ajudar turistas, de conhecer pessoas diversas nos eventos, de poder mostrar para o mundo que o brasileiro é acolhedor, cordial, honesto, profissional e que ama o país. 

Percebo que houve uma grande e positiva exposição da Lei do Serviço Voluntário. Cito a lei 9.608 de 1998, vigente à época e desconhecida de muitos até aquele momento, que abriu caminho para outras atuações posteriores e para o aprimoramento da legislação sobre o tema.

Apesar de várias tentativas de estigmatizar o voluntário à época, por conta de questões políticas daquele momento, tentando associar o voluntário a um ’otário‘, o que vimos foram milhares de cidadãos conscientes do seu papel e com autoestima muito elevada, rechaçando qualquer pecha que pudesse menosprezar a importância do papel que estavam desempenhando.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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O Voluntariado nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016

Por Any Bittar, consultora na área de sustentabilidade e sistema agroflorestal. Foi gerente de parcerias de voluntários do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.


Quando falamos de voluntários, sempre procuramos uma definição, uma forma de sintetizar essa atividade tão multifacetada. Tem uma frase que usei inúmeras vezes em apresentações pelo Brasil do Programa de Voluntários Rio 2016 que acredito evidenciar o espírito do voluntário: “Ser voluntário é deixar de acompanhar para participar, é deixar de ver para viver, é deixar de assistir para construir” – Rafael Alves de Lima (voluntário Rio 2016)

Considerando o tema voluntariado em grandes eventos, encontramos algumas características diferentes de outros programas, pois logo de início é apresentada a jornada do voluntário, uma série de procedimentos para as diversas etapas a serem realizadas até o evento. Costumo fazer um paralelo com a jornada do herói, onde o protagonista precisa sair de sua zona de conforto e superar vários desafios até alcançar o seu objetivo final. 

Dada a complexidade dos grandes eventos, etapas como: divulgação, inscrição, seleção, engajamento e retenção dos voluntários se tornam atividades desafiadoras. Nelas, a interação das informações do banco de dados para melhor adequação de perfil dos voluntários e das atividades propostas é um trabalho árduo e complexo, com necessário suporte de tecnologia e comunicação, que, ao final, se mostra extremamente recompensador. 

Lidar com essa experiência na dimensão dos últimos grandes eventos que aconteceram no país, como os esportivos: Pan 2007, Copa 2014 e Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016 deixaram um legado de transformação no movimento de voluntariado no Brasil, pois com o número expressivo de participantes, e estamos lidando na casa dos milhares, estes se tornaram multiplicadores do conceito da jornada do voluntário, quer seja na organização em diversas instituições ou pela atuação individual. 

É muito comum encontrar pessoas em atividades distintas de voluntariado com itens dos grandes eventos, como pins, bonés, casacos, mochilas, etc., comentando com entusiasmo e saudosismo a sua experiência, sensibilizando outros participantes. É uma situação contagiante de alegria e expectativa para todos, na qual não só a atividade realizada é descrita, como também as fases de engajamento. Foram inúmeras vezes que vivi esse contentamento!

O que sinto falta no Brasil é do apoio institucional para a criação de organizações que mantenham esse círculo virtuoso vivo. A partir das experiências e dos vultosos bancos de dados criados, poder-se-ia customizar as informações e interagir no desenvolvimento da jornada do voluntário de acordo com o porte, localização e perfil dos eventos.  

Outro ponto que gostaria de salientar desses grandes eventos foi a participação de pessoas com deficiência no voluntariado. Se no início foi um desafio, tanto na comunicação quanto na alocação da atividade, paulatinamente as imagens dos voluntários em atuação foram mostrando o sucesso da iniciativa e inspirando novas participações. Nos Jogos Rio 2016, tivemos o primeiro Programa de Voluntários Pessoas com Deficiência Intelectual com atuação no Parque Olímpico, que contou com uma jornada exclusiva estruturada em parceria com instituições e empresas e ainda um programa de Voluntariado Empresarial, estruturado e muito bem-organizado, mostrando que é possível, por meio do voluntariado promover a inclusão e o respeito à diversidade.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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Voluntariado nas respostas às crises de emergência

Por Monica Exelrud Villarindo, especialista em gestão de voluntários e voluntariado em desastres. Foi diretora do Programa de Voluntários da Cruz Vermelha Americana e coordenadora do Programa de Voluntariado da ONU-Organização das Nações Unidas no Brasil. 

Os voluntários são indivíduos que desejam participar e colaborar com o bem-estar da sua comunidade local e global. Atualmente, não existem fronteiras para o voluntariado. Os voluntários são pessoas que têm empatia e sentem o dever de ajudar aqueles que estão em situação de risco, desigualdade, emergência ou simplesmente desejam ser úteis à sociedade. Os voluntários de desastres, sejam os que respondem a emergências naturais ou causadas pela humanidade, são pessoas que estão prontas, em um piscar de olhos, a enfrentar situações de risco e a dar o seu máximo para salvar ou aliviar o sofrimento de outras vidas. Os voluntários são a espinha dorsal das respostas emergenciais e tem a capacidade de mobilizar grandes números de pessoas rapidamente.

O voluntariado brasileiro vem crescendo a cada ano e demonstrando sua capacidade de se mobilizar rapidamente mediante às inúmeras emergências que ocorreram nos últimos anos. Os voluntários são a chave para trazer alívio e conforto para as vítimas de desastres e emergências humanitárias. Eles se mobilizam para ajudar a resgatar vítimas, alimentar as vítimas e os socorristas, coletar e trazer doações, dar assistência médica e psicológica, etc. São inúmeras as áreas de colaboração dos voluntários e, muitas vezes, eles até abrem suas casas para abrigar as vítimas. 

O voluntariado tem sido essencial nas respostas das crises de emergência no Brasil, mas ainda existe uma grande desorganização nesse modelo de assistência. A maioria das pessoas sente a necessidade de ajudar, quer ajudar, mas não sabe como e aonde ir para colaborar de uma forma estruturada: simplesmente se jogam para fazer o que acham ser o necessário e muitas vezes isso traz duplicidade de trabalho, tumulto e pode atrapalhar o trabalho dos socorristas. 

Não existe metodologia e rede estruturada de voluntariado para responder a emergências e desastres humanitários, e não existe uma coordenação por parte dos governos locais. As emergências e desastres, mesmo de forma organizada, são um caos e difíceis de responder; o sofrimento se torna ainda maior quando esta assistência é desordenada.

Na última década, houve certo avanço do voluntariado para situação de emergência no Brasil, pois a cultura do voluntariado se expandiu na sociedade brasileira e várias organizações da sociedade civil estão mais aptas a agir rapidamente e tem sido essencial para a assistência imediata das vítimas. Já há uma sensação de que as consequências da crise climática e do aquecimento global estão no nosso dia a dia e as pessoas estão mais alertas a ajudar em casos de emergência, mas isso não quer dizer que estejam mais preparadas. Pode-se e deve-se preparar as comunidades para estarem organizadas a responderem prontamente e adequadamente a desastres.

As doações também são essenciais nas emergências e, muitas pessoas, encontram nas doações a melhor forma de ajudar, mas isso também demanda coordenação, espaço correto de armazenamento, triagem, local e organização da distribuição e, inclusive, o diagnóstico correto das demandas e necessidades. Doações descoordenadas também podem causar mais caos. Foi o que aconteceu nas enchentes de 2022, na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Muitas roupas doadas foram deixadas em um local inadequado, tornaram-se um risco à saúde pública e foram queimadas por ordem judicial. Acabou sendo um desperdício de logística e de trabalho voluntário. 

Em emergências, as doações são extremamente necessárias e, assim como o voluntariado, é necessário ter planejamento para o recebimento desta ajuda, para que assim não seja desperdiçada. Muitas vezes o próprio voluntariado pode organizar as doações financeiras, elas são eficientes, pois ajudam a comprar o que realmente é necessário para as vítimas, evitam grandes despesas de logística e, principalmente, ajudam a economia local a se restabelecer após o desastre. 

Os voluntários são vitais para as respostas a emergências de qualquer natureza. Precisamos estar conscientes do valor imensurável dessa ajuda e priorizar a organização, a orientação, a valorização e o apoio a estes fantásticos colaboradores.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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Os valores humanos da década do voluntariado

Por Maria Elena Pereira Johannpeter, empreendedora social, inovadora e reconhecida por diversas premiações nacionais e internacionais, fundadora da Parceiros Voluntários Rio Grande do Sul e uma das coordenadoras da Década do Voluntariado. 

“Quando estamos conectados com os valores humanos e espirituais, começa uma verdadeira aventura, a satisfação de sermos nós mesmos e de podermos usar nossas aptidões para ajudar outras pessoas. São experiências gratificantes. É isso que nós, os voluntários, fazemos: disponibilizamos nossa energia e aptidões pessoais como um pequeno presente para o mundo e o que recebemos como retorno vai além das palavras.” Flávio Lopes Ribeiro, brasileiro, coordenador do Projeto do Voluntariado da Organização das Nações Unidas (ONU) em El Salvador. 

As celebrações pelo décimo aniversário do Ano Internacional dos Voluntários (AIV+10) culminaram, na Assembleia Geral das Nações Unidas, com o lançamento do primeiro exemplar do Relatório Mundial do Voluntário.

Asha-Rose Migiro, vice-secretária-geral da ONU, em nome do secretário-geral Ban Ki-moon, reconheceu a dedicação dos voluntários e seus esforços para cumprir os objetivos da ONU. “Como a população mundial já ultrapassou os sete bilhões”, declarou, “precisamos estimular o potencial de todas as pessoas para que colaborem com as questões voluntárias”. 

Enfatizando a contribuição do voluntariado para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e requerendo pessoas concentradas em uma abordagem holística, na Resolução A/RES/66/67, a Assembleia Geral da ONU estabeleceu o caminho para o futuro do voluntariado. A resolução ressalta a importância da participação de pessoas e de empresas para a obtenção do desenvolvimento sustentável. 

A coordenadora executiva, Flávia Pansieri, declarou que o objetivo principal das celebrações de 2011 foi promover uma mudança: o voluntariado deixou de ser considerado como fator secundário e passou a ser reconhecido como caminho principal.

Na Assembleia Geral da ONU, foi lançado o primeiro documento sobre a situação do voluntariado global, o “Relatório sobre a Situação do Trabalho Voluntário – Universal Values for Global Well-being (Valores Universais para o Bem-estar Global)”. Helen Clark, administradora do Programa de Desenvolvimento da ONU (United Nations Development Program – UNDP), observou que há elos muito fortes entre o voluntariado, a paz e o desenvolvimento humano, os quais ainda não foram amplamente reconhecidos pelos Governos.

Nessa década, é criada a Rede Brasil Voluntário. Os Centros de Voluntariado integrantes da Rede Brasil Voluntário (RBV) eram: Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo.  A Rede Brasil Voluntário e a Rede Paulista de Centros de Voluntariado se uniram, em 2011, e organizaram, além da Pesquisa, a Conferência Internacional do Voluntariado, tendo como parceiro o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Programa de Voluntariado das Nações Unidas (VNU). A Conferência ocorreu em paralelo à feira ONG Brasil 2011 e proporcionou um ambiente de diálogo e articulação intersetorial. Mais de 500 organizações de todos os estados brasileiros e redes de apoio ao voluntariado da Argentina, Colômbia, Peru, Panamá, Chile e Uruguai marcaram presença no evento das comemorações da Década do Voluntariado, em São Paulo.

Certamente, o maior legado foi a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2001+10, organizada pela Rede Brasil Voluntário. Realizada pelo IBOPE Inteligência, a pesquisa mostrou que um em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos já fez ou faz trabalho voluntário, ou seja, eram cerca de 35 milhões de pessoas em ação. 

As entrevistas foram realizadas com 1.550 voluntários, nas regiões Nordeste, Norte/Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país e apontaram que:

  • 25% da população faz ou fez serviço voluntário;
  • A maioria (67%) dos que fazem serviço voluntário trabalha;
  • A dedicação ao serviço voluntário é de 4,6 horas/mês, em média;
  • 39% realizam o serviço voluntário com crianças e adolescentes;
  • 62% dos voluntários usam a internet e 53% participam de redes sociais.

Atualmente, em 2022, o Voluntariado já está implantado na cultura brasileira, tanto no comportamento quanto nas leis brasileiras. Além da Lei 9608/98, que reconhece o Serviço Voluntário, em 2014, a Lei 13.019, criou os instrumentos jurídicos: o Termo de Fomento, o Termo de Colaboração e o Acordo de Colaboração. O Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) veio aperfeiçoar o ambiente jurídico e institucional das OSCs e suas relações e parcerias com o Estado.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

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Pesquisa Voluntariado no Brasil 2011: uma década de voluntariado

O voluntariado faz parte da história do Brasil e tem suas raízes em 1543, na fundação da Santa Casa de Santos. Desde então, vem se transformando. As organizações se multiplicaram, a atividade foi regulamentada, empresas passaram a promover programas de voluntariado, a tecnologia permitiu a atuação dos voluntários à distância.

As pesquisas sobre voluntariado realizadas em 2001 e 2011 mostraram como o brasileiro é sensível ao tema do voluntariado e como tem o desejo de colaborar com causas comunitárias, faltando apenas as organizações se prepararem para recebê-los e aproveitarem todo o potencial que eles oferecem.

Certamente, o maior legado foi a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2001+10, organizada pela Rede Brasil Voluntário. Realizada pelo IBOPE Inteligência, a pesquisa mostrou que um em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos já fez ou faz trabalho voluntário, ou seja, eram cerca de 35 milhões de pessoas em ação. 

Baixe aqui os resultados da edição 2011 

 

Assista ao vídeo realizado em 2011, na comemoração da Década do Voluntariado.

 

Assista também ao evento de lançamento da pesquisa 2021:

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 é uma realização do IDIS e do Instituto Datafolha. Foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil, e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano.

 

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 | Artigos

Para olhar mais de perto para os resultados da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, convidamos integrantes e especialistas do terceiro setor para contribuir expandindo e enriquecendo esse conhecimento através de artigos sobre a temática.

A série de conteúdos escritos busca analisar e compreender os achados do estudo. Confira:

*Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Tenha acesso a pesquisa completa, acesse o site: www.pesquisavoluntariado.org.br

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza

Para dúvidas relacionadas à pesquisa entrar em contato via pesquisavoluntariado2021@gmail.com

O voluntariado é inerente ao desejo humano de ajudar os outros sem benefícios pessoais

2001: o Ano Internacional do Voluntário

Por Heloisa Coelho, foi fundadora e diretora do Rio Voluntário, central de voluntários do Rio de Janeiro e coordenadora do Ano Internacional do Voluntário.

¨Houve um incêndio na floresta e, enquanto os bichos corriam apavorados, um beija-flor ia do rio para o incêndio levando uma gotinha de água no bico. O leão perguntou: ¨Ô beija flor, você acha que vai conseguir apagar o incêndio sozinho? E o beija – flor respondeu:¨Não sei se vou conseguir, mas estou fazendo a minha parte¨.

Essa fábula contada pelo sociólogo Herbert de Souza, o inesquecível Betinho, como metáfora da solidariedade é muito inspiradora e nos mostra que em momentos de crise humanitária as pessoas percebem a importância de contribuir e o Voluntariado ganha mais força, valor e visibilidade. Ao sair de sua zona de conforto e lidar com pessoas que têm problemas distintos dos seus, quebram-se paradigmas e preconceitos, a sociedade se oxigena e tem início o verdadeiro jogo do ganha-ganha social. 

O exercício do voluntariado é inerente ao desejo humano de ajudar outras pessoas sem exigência de benefícios pessoais. 

As Igrejas, de modo geral, foram fundamentais nesse processo de fomento à generosidade e à solidariedade, ao criarem instituições filantrópicas, que durante séculos lideraram ações voluntárias em prol dos mais necessitados. No Brasil damos como marco inicial do Voluntariado a fundação da primeira Santa Casa da Misericórdia, no ano de 1543, na Capitania de São Vicente, em São Paulo.

Em meados dos anos 80, um novo Voluntariado originário dos movimentos sociais e Organizações Não Governamentais (ONGs) surge no cenário nacional, culminando com o Programa de Voluntariado liderado pela Comunidade Solidária, organização do terceiro setor,  presidida pela Dra. Ruth Cardoso, que possibilitou a criação de Centros de Voluntariado (Centro de Voluntariado de São Paulo, Parceiros Voluntários, RIOVOLUNTÁRIO, dentre outros) em busca da melhoria da qualidade dos processos de gestão e promoção do voluntariado. Em 1998, é promulgada a Lei do Serviço Voluntário, Lei 9.608, garantindo a não vinculação empregatícia dos voluntários com as instituições sociais onde prestavam serviço. 

Em Resolução da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada por 126 Estados-Membros, 2001 foi declarado Ano Internacional do Voluntário, dando o impulso definitivo para que o Voluntariado emergisse forte e organizado em todo o mundo.  O voluntariado é e sempre será unanimidade em tempos de polarização.

Com o surgimento de novas tecnologias e da internet, novas formas de participação cidadã foram oferecidas à população, ocasionando um aumento considerável do público masculino em ações voluntárias, que nos séculos anteriores haviam sido desempenhadas majoritariamente por mulheres. 

Temos testemunhado também o empenho de Empresas em enfrentar o desafio que os novos conceitos de Responsabilidade Social Empresarial (RSE) lhes impõem e demandam. O Voluntariado Empresarial nasce nesse ambiente comprometido com o diagnóstico e soluções para os graves problemas sociais brasileiros.

Regimes democráticos têm como premissa fortalecer a sociedade civil e motivá-la a participar das micro e macro decisões a serem tomadas no país. A igualdade de gênero, etnia, ao lado do respeito à liberdade de expressão, a opção sexual, política, entre outras, só prosperam por meio de uma participação ativa dos cidadãos, baseada na tolerância e na reciprocidade. 

O momento presente, pós-pandemia da covid-19, vem sendo considerado como favorável à retomada de um voluntariado comprometido e consciente, baseado nas iniciativas de sucesso das últimas décadas, que certamente permitirão à população brasileira colaborar mais efetivamente, por meio de ações voluntárias,  para a superação da pobreza e das desigualdades, crescentes, no Brasil, potencializando e integrando essa gigantesca força voluntária, num projeto de construção de uma nação mais justa e igualitária.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Voluntariado: uma escolha que transforma

Por Carola Matarazzo, diretora-executiva do Movimento Bem Maior. 

A palavra “voluntário” veio do latim e já tinha em sua origem o significado de “agir por vontade própria”. Agora, penso ser mais do que justo também associarmos esse termo à “escolha de estar no mundo”, quando falamos de alguém que decide destinar, sem remuneração, parte do seu tempo, do seu conhecimento e do seu amor para, simplesmente, servir a uma causa importante. 

Quem faz essa escolha vai além de ser empático. Depois de se identificar com a necessidade do outro, dá um passo adiante e age de maneira simpática, com afinidade e com muita disposição para prestar o apoio. Costumo dizer que um sentimento especial surge como se fosse um “fogo sagrado” no peito que te move a querer ajudar mais.

Além de auxiliar quem precisa, os voluntários percebem que a prática altruísta faz muito bem a eles próprios. Não há nenhum exagero em dizer que dádivas aparecem pelo caminho. Durante os trabalhos, há uma enorme troca de aprendizados, com cada encontro trazendo experiências novas, provocando emoções diversas e gerando estímulos para seguir adiante.

Um doador, quando contribui destinando dinheiro (e é fundamental que isso vire uma rotina!) para alguma causa, está ajudando a mudar o mundo. Mas, talvez, ele não consiga ver de perto o impacto que a sua contribuição faz na vida dos outros. Já, ao se envolver diretamente nas atividades, é possível ter a chance de olhar nos olhos de quem está sendo ajudado e, por exemplo, receber um sorriso como agradecimento. O simples ato de fazer algo que possa ser maior que você e pensar no coletivo é transformador.

Em um país como o Brasil, principalmente, as ações emergenciais são extremamente necessárias e auxiliam muito a minimizar o sofrimento. Quando há, por exemplo, fortes chuvas que provocam deslizamento de terras, é preciso mobilização para levar o apoio o mais rápido possível. Ficamos todos consternados. Agora, não podemos parar por aí. 

Sem ações estruturais, o deslizamento de terras pode se repetir no próximo verão. Além disso, também devemos ficar consternados todos os dias com as tragédias persistentes em nossa sociedade, como a injustiça social. Não podemos encará-la com normalidade.

Os voluntários podem se envolver em filantropia ou em caridade – ambas estão relacionadas à generosidade, ao desejo de fazer o bem ao próximo, mas elas têm proporções e significados diferentes, apesar de muitas pessoas confundirem os conceitos. 

A filantropia exerce um importante papel em uma sociedade democrática, que é o de buscar cortar as raízes dos problemas e resolver questões mais sistêmicas. Já as iniciativas de caridade miram em eliminar os sofrimentos causados por esses problemas, de forma pontual.

Por quase 20 anos, trabalhei como voluntária na Liga Solidária e posso dizer, com clareza, que aprendi muito mais do que eu servi nesse período. Ao longo da minha trajetória, vejo que a solidariedade está muito ligada à questão cultural. Eu nasci em uma casa onde o trabalho voluntário era altamente enaltecido. Quando criança, eu me lembro de estar ao lado da minha mãe vendendo cartelas de bingo para a Fundação Dorina Nowill para Cegos. Iniciativas assim sempre foram naturais em minha vida. 

Esse foi um legado que recebi e procuro passar adiante. Sei que voluntariado não é uma questão de se mostrar mais ou menos bondoso ou de ter mais ou menos horas livres (claro, cada um atua dentro das suas possibilidades). Mas é, sim, uma decisão feita por quem escolheu servir como uma condição, como uma forma de viver. Espero que o comportamento solidário seja enraizado na cultura brasileira para construirmos um país mais justo.

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 é destaque no JN

Representados nos mais diversos segmentos, desde organizações educacionais a instituições que atuam em causas emergenciais humanitárias, eles coordenam campanhas de distribuição de alimentos, resgatam animais, contribuem para mobilizações ligadas à saúde, compartilham seus conhecimentos.

Os voluntários doam seu tempo, energia e talento em prol de causas em que acreditam. São essenciais para que organizações da sociedade civil atinjam suas missões e, durante a pandemia, fizeram a diferença e impactaram positivamente a vida de milhares de pessoas.

No dia 27 de abril, foi lançada a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, a terceira edição desse estudo que apresenta um retrato brasileiro do tema, indica tendências e analisa  mudanças. O lançamento contou com a participação ao vivo de mais de 400 pessoas.

No mesmo dia, o estudo foi destaque no Jornal Nacional que chamou a atenção, principalmente aos números e significados do voluntariado empresarial. A coordenadora da pesquisa, Silvia Naccache, entrevistada pelo veículo, comentou, ainda, sobre os dados da pandemia: mesmo com o isolamento social, 47% dos voluntários passaram a fazer mais atividades solidárias.

A pesquisa foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano. IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e Instituto Datafolha assinam a realização.

Os resultados completos estão disponíveis em www.pesquisavoluntariado.org.br.