Workshop IDIS e PYXERA | Como engajar seus colaboradores em ações solidárias?

‘Solidariedade’ e ‘doação’ foram palavras muito citadas nos momentos do auge da pandemia de Covid-19, pois foram esses dois conceitos, somados às diversas iniciativas do Terceiro Setor, que garantiram a sobrevivência de milhares de pessoas, vítimas, diretas ou não, do Coronavírus.

Mas, na medida em que o sentimento de emergência arrefeceu, essas expressões começaram a minguar junto com o número de casos. Sabemos que sem uma boa dose de impulso, a tendência é que tudo volte ao que era antes, e que a ‘solidariedade’ e a ‘doação’ fiquem, cada vez mais, anestesiadas.

Portanto, estamos em um instante propício, senão necessário, para que as empresas usem a influência que têm sobre seus colaboradores para prolongar, ou talvez até perenizar, o hábito da doação.

Na segunda semana de novembro, o IDIS e a PYXERA Global promoveram um workshop sobre iniciativas solidárias envolvendo colaboradores, reunindo uma audiência online de cerca de 60 representantes de empresas e interessados no assunto. Confira a apresentação completa:

Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS, falou sobre Cultura de Doação e o papel das empresas, trazendo dados sobre hábitos de doação individual, investimento social privado e mostrando a potência de quando esses dois universos se encontram no desenvolvimento de ações solidárias com colaboradores.

Fernanda Scur, Partnership Strategist for Collective Impact da PYXERA Global, destacou sobre como é possível quebrar silos e engajar colaboradores em ações de impacto. A representante reforçou: “as empresas podem contribuir para o bem da sociedade ao mesmo tempo que atendem objetivos de negócio, gerando impacto triplo com foco nos colaboradores, nos negócios e na comunidade”.

Histórias que inspiram

O workshop também contou com a participação de Carlos Pignatari, head de Impacto Social da Cervejaria Ambev, Liliane Moura, supervisora de Projetos Sociais do Instituto 3M, e Tomás Carmona, superintendente de Sustentabilidade da SulAmérica, que compartilharam suas experiências no evento.

O workshop foi acompanhado pela artista gráfica Mila Santoro, da Regência Criativa, que registrou todas conversas. Os aprendizados foram sistematizados em uma publicação, que inclui um passo-a-passo para orientar os interessados em engajar o público interno em atividades de solidariedade, mas que não sabem exatamente por onde começar.

Conheça a publicação | “Como engajar seus colaboradores em ações solidárias” 

 

Engajando colaboradores em ações solidárias

Engajar os colaboradores em ações solidárias é uma iniciativa que traz benefícios para muitos. Os resultados possíveis dessa união são diversos, indo além do impacto social gerado. Melhoria do clima organizacional, aumento do sentimento de pertencimento, oportunidade de desenvolvimento de competências, fortalecimento de laços entre colaboradores, aprofundamento do relacionamento com a comunidade da empresa, contribuição à estratégia de impacto e investimento social privado da empresa, contribuição à atração talentos e contribuição à reputação da marca junto a clientes são alguns dos benefícios de ações solidárias envolvendo os colaboradores. Tudo isso sem mencionar a melhora da imagem junto aos clientes. E as pesquisas mostram que consumidores esperam, cada vez mais, que as empresas desempenhem um papel social relevante. O consumidor demanda ações concretas da iniciativa privada, recompensando as marcas que admira e punindo aquelas que não correspondem às expectativas.

O workshop também inspirou a publicação de um artigo, disponível aqui.

Dicas para engajar colaboradores em ações solidárias e de impacto

O brasileiro é solidário. Doar dinheiro, fazer um trabalho voluntário ou simplesmente ajudar um desconhecido são atitudes que fazem parte de nosso dia a dia . A pandemia que estamos vivendo em 2020 nos mostrou, mais do que nunca, a relevância desse tipo de ação e como precisam ser ampliadas ainda mais.

A experiência do IDIS e da PYXERA Global indica que o setor privado tem um papel fundamental no estímulo e facilitação dessas ações de solidariedade junto a colaboradores, que podem ser realizadas por meio de programas de engajamento desenhados estrategicamente. Essas iniciativas podem ir muito além do engajamento, criando alinhamento interno entre as estratégias de impacto e de negócio, já que as empresas têm também um papel social relevante.

Quando unimos o investimento social empresarial com os anseios individuais, encontramos um campo fértil para ações solidárias de empresas junto ao seu público interno, porque pessoas são movidas por propósitos. Os resultados possíveis dessa união são muitos, indo além do impacto social gerado. Melhoria do clima organizacional, aumento do sentimento de pertencimento, oportunidade de desenvolvimento de competências, fortalecimento de laços entre colaboradores, aprofundamento do relacionamento com a comunidade da empresa, contribuição à estratégia de impacto e investimento social privado da empresa, contribuição à atração talentos e contribuição à reputação da marca junto a clientes são alguns dos benefícios de ações solidárias envolvendo os colaboradores.

As pesquisas mostram que consumidores esperam, cada vez mais, que as empresas desempenhem seu papel social, demandando ações concretas, recompensando as marcas que admiram e punindo aquelas que não correspondem às expectativas . Ou seja, estamos falando do impacto triplo das ações de engajamento: Impacto nos Colaboradores, Impacto no Negócio, e Impacto na Comunidade.

Neste artigo, trazemos recomendações àqueles que desejam estruturar programas, integrando impacto social e engajamento, com dicas que podem ser seguidas por empresas de todos os portes e segmentos de atuação, organizadas em quatro estágios: diagnóstico; ideação e planejamento; execução; e amplificação e aprendizado.

DIAGNÓSTICO

1. Escolha um foco de atuação e descubra sua causa

Os desafios socioambientais no Brasil são inúmeros e complexos. Como decidir, então, qual será o foco de sua atuação? Em geral, é mais proveitoso investir tempo e recursos em um único foco de atuação do que distribuir para vários projetos de diferentes causas, pois o impacto gerado tende a ser maior.
A escolha da causa deve vir de dentro para fora. A causa deve ser coerente com as práticas organizacionais da empresa e com os interesses do público interno. Quanto mais o investimento social privado (ISP) for uma extensão do comportamento gerencial e uma extensão dos negócios, dos valores e dos princípios da empresa, melhor. Para conhecer os desejos dos colaboradores, faça uma pesquisa. Um jeito legal e divertido de fazer este mapeamento é aplicar o teste Descubra sua Causa. E se houver recursos, estender esse mapeamento a fornecedores e clientes permitirá entender ainda com mais detalhes os interesses daqueles que fazem parte de seu ecossistema.
Engajar os colaboradores em ações solidárias pode contribuir para o clima organizacional, para o envolvimento dos colaboradores com a empresa e até para o desenvolvimento de competências. Se estes são objetivos, vale a pena fazer uma pesquisa para definir uma linha de base.

3. Engaje as lideranças

As informações já foram coletadas. É preciso organizá-las e discuti-las com as lideranças da empresa, para que se tome uma decisão de política corporativa em relação ao ISP e sobre como colaboradores podem ser envolvidos. Os objetivos e práticas devem estar alinhados com as políticas de sustentabilidade e responsabilidade social da empresa e o mapeamento interno e externo permitirão uma tomada de decisão consciente e coerente com o negócio, não apenas baseada na intuição ou na opinião pessoal de alguma dessas lideranças.
Nesse âmbito será possível definir também as questões de governança do projeto. Quem será responsável pela implementação? Que outras áreas devem ser envolvidas e de onde virá o orçamento?

IDEAÇÃO E PLANEJAMENTO

4. Planeje sua intervenção

Qual o público beneficiário e quais os influenciadores? Qual será a estratégia para implementá-la e quais os resultados que se espera alcançar para a causa e para a empresa?

A área responsável por conduzir o projeto deverá responder a essas perguntas, desenhando com detalhes a iniciativa. Deve considerar o orçamento disponível, assim como a infraestrutura e recursos humanos da própria empresa que podem ser aproveitados em prol da causa.

O processo de desenho do programa e planejamento de impacto inclui compartilhar sua visão com a equipe, tomar decisões sobre os principais aspectos do programa e desenvolver estratégia de programa e materiais básicos.

Aqui também será definida a forma como o público interno poderá participar. Ele contribuirá com dinheiro, bens ou tempo? Haverá algum tipo de ‘matching’ da empresa? Em caso de voluntariado, os profissionais serão estimulados a usar conhecimentos técnicos ou gerais? Poderão atuar durante o período de trabalho ou farão as atividades em seu tempo livre?

Exemplos de ações de engajamento:

  • Programas de voluntariado profissional (pro bono)
  • Programas de mentorias
  • Mutirão ou programa contínuo
  • Estímulo a doações com potencial matching
  • Payroll giving, quando a doação é descontada diretamente da folha de pagamento

5. Defina indicadores de impacto

A estrutura de mensuração de impacto deve ser definida nesta fase. Para acompanhar os resultados do investimento social e de seu programa de engajamento de colaboradores, defina os indicadores que irão refletir sua efetividade e monitore o projeto desde o início, verificando se os resultados parciais estão indicando a direção certa.

EXECUÇÃO

6. Comunique o mobilize

Trace um plano de comunicação para disseminar a iniciativa entre todos os públicos da empresa – sejam internos ou externos.
Para conscientizar e mobilizar o público interno, uma estratégia interessante é criar um comitê com representantes de diferentes áreas da organização. Você pode também definir ‘sponsors’ de projeto, pessoas com algum nível de influência dentro da empresa que se disponham a fazer esse papel de divulgação. Costuma ser eficiente utilizar os canais de comunicação usuais da empresa, mantendo o fluxo de comunicação constante sobre o programa, em seus diferentes estágios (ex. período de inscrição; divulgação de projetos selecionados; divulgação do andamento; divulgação dos resultados).

7. Implemente a ação

Agora é a hora de botar a mão na massa! Itens a serem executados nessa fase, vão desde a seleção de participantes, desenvolvimento dos projetos em si (seleção de organizações de sociedade civil, apoio aos participantes do programa durante o processo, ações de preparação e reflexão, etc.)
Não deixe de estabelecer maneiras de reconhecer o trabalho voluntário dos participantes do programa. Seja criativo. Os participantes podem receber, por exemplo, camisetas ou sinalizadores de mesa que permitam ser identificados pelos colegas. É recomendável também planejar homenagens em eventos especiais, materiais institucionais, certificados, além de divulgar as atividades, conquistas e resultados em murais internos ou na intranet da empresa. Um bom programa necessita de seus HERÓIS!

8. Monitore e avalie

A partir da estratégia de mensuração definida na fase de diagnóstico, é possível identificar o marco zero, isto é, a situação inicial antes da intervenção. É preciso avaliar o benefício social resultante do investimento em termos qualitativos e quantitativos. Acompanhe também, por exemplo, número de colaboradores envolvidos, horas de trabalho dedicadas ou volume doado, atividades realizadas, número de pessoas beneficiadas, recursos arrecadados e doados.

9. Compartilhe os resultados

Contar as conquistas de um programa, além de ser muito prazeroso, é uma boa prática de transparência e contribui para fortalecer a confiança em ações de impacto.

Lideranças, todos os colaboradores da empresa, profissionais que se engajaram diretamente e organizações impactadas pela ação, acionistas, consumidores, o poder público, a comunidade são alguns dos públicos que podem ter interesse em conhecer o que foi alcançado por meio de sua intervenção. Planeje a comunicação considerando cada um de seus públicos de interesse e fazendo as adaptações necessárias para cada um deles. Essa fase é fundamental para criar uma cultura dentro da empresa sobre o impacto positivo de tais programas e qualificar o processo de tomada de decisão.

Por último: Ouça todos que participaram do processo e prepare-se para o próximo ciclo a partir de lições aprendidas!

 

Artigo escrito por Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS, e Fernanda Scur, Partnership Strategist for Collective Impact da PYXERA Global, Latin America

Cultura de doação começa na infância! Saiba o que nossas crianças querem transformar no mundo.

Fortalecer a cultura de doação no Brasil tem sido um dos focos prioritários de atuação do IDIS. É algo que deve ser estimulado desde a infância e saber o que pensam nossas crianças é um importante passo. Por isso, apoiamos a pesquisa realizada pelo Dia de Doar Kids em parceria com o Jornal Joca. A pergunta foi simples: quais as 3 coisas que você quer mudar no mundo? Os resultados foram revelados neste outubro, mês das crianças.

Participaram do projeto 450 crianças, de todo o Brasil, ainda que prioritariamente da região Sudeste (75,4%). A coleta das respostas foi online e houve consentimento dos responsáveis. As questões levantadas por eles foram diversas e bastante pulverizadas, e ocuparam o topo do ranking nacional ‘Acabar com a violência’ (7,3%), ‘Mais saúde para todos’ (6,8%) e ‘Melhorar a educação e o direito de estudar’ (6,8%). Em geral, foi identificada uma consciência social muito grande entre os jovens entrevistados, mesmo entre crianças de idade bastante reduzida (5 a 10 anos, 48% da amostra). O relatório destaca que os resultados reforçam uma potente sensibilidade dessa geração mais jovem ao que é da ordem do comum, do coletivo.

O recorte regional da pesquisa mostra diferenças quanto à percepção das crianças. No Sul do Brasil, o maior registro foi relacionado à poluição (8,9%). No Sudeste, Educação ocupou o primeiro lugar (7,5%). O ponto de atenção na região Nordeste foi a violência (11,4%), com o maior gap em relação ao segundo lugar. ‘Acabar com a fome’ foi o destaque no Centro-Oeste, citado por 10% dos respondentes. No Norte, houve um empate entre 4 causas, todas elas com 9,3% – ‘Acabar com a violência’, ‘Acabar com o racismo’, ‘Mais respeito aos direitos dos animais’ e ‘Menos poluição’.

Os achados serão a base para a criação de materiais para escolas e professores e para a realização de iniciativas para crianças e jovens.

Conheça aqui a pesquisa completa.

Descubra Sua Causa

Em 2018 o IDIS lançou o ‘Descubra Sua Causa’, um projeto com o objetivo de fortalecer a cultura de doação junto ao público jovem, de 18 a 24 anos. Por meio de um quiz, com perguntas relacionados a questões do dia a dia e ao universo cultural dos jovens, os respondentes são apresentados a um resultado que revela as causas que são mais importantes para si e mostra oportunidades de ação. Se a causa é educação, por exemplo, há uma indicações de ONGs às quais ele pode fazer uma doação ou um trabalho voluntário e também uma série de matérias se quiser se informar mais.

Como podemos aumentar a participação cívica?

Por Andréa Wolffenbüttel, diretora de Comunicação do IDIS

De vez em quando, mais raramente do que eu gostaria, aparecem algumas pessoas trazendo informações interessantes. Uma dessas ocasiões aconteceu no final de julho, quando recebi, aqui no IDIS, o Rubens Sanghikian, que elaborou sua dissertação no mestrado de economia pelo Insper.

O rapaz entrou em contato pelo e-mail do nosso site, oferecendo-se para apresentar os resultados da sua tese, uma pesquisa sobre o que leva as pessoas a desenvolverem algum tipo de participação cívica.

Quando o estudante chegou, trouxe consigo um relatório de mais de quarenta páginas com muitas, mas muitas informações valiosas. Ao final da apresentação, aconselhei-o a escrever um artigo com os principais dados da pesquisa para ser divulgado no universo do terceiro setor e evitar que todo o trabalho ficasse ‘escondido’ no meio da produção acadêmica em geral.

Ele fez uma contraproposta, sugerindo não um, mas uma série de quatro artigos discutindo o perfil de indivíduos que apoiam organizações e fatores que influenciam a decisão de doar dinheiro e fazer trabalho voluntário.

Aqui está o primeiro artigo.

1ª Artigo da série
‘O que leva as pessoas a apoiarem organizações da sociedade civil? ’

Por Rubens Sanghikian, mestre em economia pelo Insper

A fonte dos dados desse artigo é a minha tese de mestrado em Economia, elaborada sob a orientação da professora Drª Regina Madalozzo.

Antes de entrar no tema do artigo propriamente dito, vale a pena falar um pouco sobre sociedade civil. Apesar da expressão ser muito usada, nem sempre existe um consenso sobre seu significado. Sociedade civil é o conjunto das organizações voluntárias que servem como mecanismo de articulação de uma sociedade. E a principal característica dessas organizações é não estarem apoiadas na força do Estado (governo) ou do mercado.

Portanto, quando falamos de participação cívica, estamos nos referindo a qualquer tipo de ação ligada às organizações da sociedade civil, tal como associação, doação de recursos financeiros ou realização de trabalho voluntário.

Para as organizações da sociedade civil, um dos principais desafios, se não o maior, é a dificuldade em captar recursos financeiros e humanos para completar seus objetivos. Esta foi uma das razões que me levaram a estudar o tema.

Qual o perfil de uma pessoa que apoia organizações da sociedade civil?

Com o objetivo de responder esta pergunta, utilizei o extenso e rico trabalho de Bekkers e Wiepking (2011, 2012) que realizaram um levantamento da literatura para verificar o perfil de quem faz doações.  Com base nesta ideia, fiz uma revisão de literatura para selecionar as principais características individuais que poderiam indicar o perfil de alguém que ajuda organizações. Utilizando a pesquisa World Values Survey, realizada de 2010 a 2014, obtive informações de aproximadamente 80 mil pessoas de 55 países.

Através da revisão bibliográfica e de modelos econométricos, consegui identificar os principais fatores que afetam a probabilidade de um indivíduo apoiar diferentes organizações: religiosas, ligadas ao esporte, partidos, ligadas à educação, sindicatos, profissionais, instituições de caridade, causas do consumidor, grupos de auto ajuda e ambientais. Os resultados dizem respeito à população desses diversos países, mas tudo indica que se aplicam bastante bem à sociedade brasileira.

Principais resultados

1) Ter confiança nas outras pessoas:
Fundamental para o estabelecimento de vínculos, a confiança se mostra bastante relevante para todas as participações cívicas. Um indivíduo que acredita que se pode confiar nas outras pessoas tem maior probabilidade de se associar a uma organização,.

2) Ter interesse por política:Os debates e a busca por resolver um conflito, elementos presentes na política, estão presentes nas organizações da sociedade civil. Um indivíduo que declara que possui alto interesse por política tem maior probabilidade de se aproximar de entidades, independente da natureza da organização.

3) Classe Social à qual pertence:
O modelo aponta que quanto mais alta a classe social, maior a probabilidade de apoio. Indivíduos em situação financeira mais frágil possuem menos tempo e capacidade de ampliar a participação na sociedade. Organizações também buscam indivíduos com maior status social, devido a maior influência que eles possuem dentro da sociedade. Porém, devemos realizar ressalvas sobre a relação classe social e participação cívica. Por exemplo, a Pesquisa Doação Brasil indica uma queda participação da doação para indivíduos que ganham mais de 15 salários mínimos no Brasil. Já o Country Giving Report mostra que em termos de proporção da renda, pessoas de classe mais baixa contribuem mais.

4) Nível de educação:
Quanto maior o nível educacional maior a probabilidade de uma pessoa apoiar uma organização. A educação aumenta a percepção de problemas que existem no mundo, além de dar ideias de como solucioná-los, motivando as pessoas a ajudar.

5) Frequência com que assiste TV:
Um estudo realizado por Putnam (1995) afirma que a participação cívica poderia estar caindo devido ao fato das pessoas passarem mais tempo assistindo TV. Não consegui confirmar esta relação.

6) Frequência com que acessa à internet:
Um indivíduo que acessa diariamente a internet tem maior probabilidade de apoiar uma instituição. A internet e redes sociais são uma importante ferramenta de comunicação para as organizações, aumentando o número de solicitações a potenciais apoiadores.

7) Idade:
O estudo sugere que quanto maior a idade, maior a probabilidade de apoio para muitos tipos de organizações, menos para as ligadas ao esporte.

8) Ter religião:
O fato de uma pessoa ser religiosa se mostrou importante, indicando que é mais provável uma pessoa religiosa se aproximar de muitos tipos de organizações, tanto de ajuda a terceiros, quanto de autoajuda.

9) Ser estudante:
Quando comparamos estudantes em relação às pessoas que trabalham, vemos que eles tendem a participar mais em organizações educacionais, desportistas e religiosas. Porém, são menos ativos em sindicatos e organizações profissionais.

10) Ser do sexo feminino:
Este é um quesito onde a determinação biológica sofre alterações de acordo com as normas e convivência social. Percebe-se uma diferença significativa no tipo de organização que homens e mulheres escolhem para contribuir. É menos provável que mulheres estejam ligadas a organizações não religiosas, como partidos, desportistas e sindicatos. O estudo aponta que as mulheres sofrem com a desigualdade em relação aos homens até no terceiro setor, sendo menos representadas em certas atividades. Na mesma linha, os estudiosos Rotolo e Wilson (2007) destacam que mulheres em organizações têm maior probabilidade de realizarem trabalhos relacionados à alimentação, levantamento de recursos e eventos, enquanto homens têm maior probabilidade de participação em comitês de decisão, ensino e manutenção.

Tabela resumo

As tabelas abaixo mostram como as características das pessoas ou as atividades que elas praticam exercem influência sobre a probabilidade de ela vir atuar junto a determinado tipo de organização.

 

 

 

 

 

Conclusão

A importância deste estudo é que ele ajuda a identificar variáveis características que aumentam ou diminuem a probabilidade de pessoas apoiarem organizações, podendo auxiliar no direcionamento de recursos e escolha de público alvo durante captação de recursos e recrutamento de voluntários, por exemplo.

O perfil de um apoiador seria o de uma pessoa que confia nos indivíduos, com alta instrução e alta classe social, que gosta de política, tem religião e com alto acesso à informação.

No próximo artigo da série, apresentarei características de países com grande participação em doações, trabalho voluntário e ajuda a desconhecidos.

Referências

BEKKERS, R.; WIEPKING P. Who gives? A literature review of predictors of charitable giving. Part One: Religion, education, age and socialization. Voluntary Sector Review, v. 2, n. 3, p.337-365, 2011.
BEKKERS, R.; WIEPKING P. Who gives? A literature review of predictors of charitable giving. Part Two: Gender, family composition and income. Voluntary Sector Review, v. 3, n. 2, p.217-245, 2012.
PUTNAM, R. D. Bowling Alone: America’s Declining Social Capital. Journal of Democracy, v. 6, n.1, p. 65-78, 1995.

ROTOLO , Thomas; WILSON, John. Sex segregation in Volunteer Work. The Sociological Quartely, v. 48, n. 3, p. 559-585, 2007.
SANGHIKIAN, Rubens. Participação cívica: associação, doação e trabalho voluntário. 2017. 44 f. Dissertação (Mestrado profissional em economia) – Instituto de Ensino e Pesquisa – INSPER, São Paulo, 2017.

WVS WAVE 6. Madrid: World Values Survey, 2010-2014. Disponível em: <http://www.worldvaluessurvey.org/WVSDocumentationWV6.jsp>. Acesso em: 18 de jun. 2017.
Country Giving Report 2017 – Brasil. São Paulo: Charities Aid Foudation e Instituto para o

Desenvolvimento do Investimento Social, 2017. Disponível em: https://www.idis.org.br/wp-content/uploads/2017/11/country-giving-report-2017-brasil.pdf .Acesso: 30 de julho de 2018.
Pesquisa Doação Brasil. São Paulo: Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, 2016.

Disponível em: http://idis.org.br/pesquisadoacaobrasil/wp-content/uploads/2016/10/PBD_IDIS_Sumario_2016.pdf. Acesso: 30 de julho de 2018.

World Giving Index 2017: voluntariado no Brasil bate recorde

Um em cada cinco brasileiros fez algum tipo de trabalho voluntário de acordo com o World Giving Index 2017, estudo feito pela Charities Aid Foundation (CAF), instituição com sede no Reino Unido e que no Brasil é representada pelo IDIS. O WGI, conhecido como ranking global de solidariedade, registra o número de pessoas que doaram dinheiro para uma organização da sociedade civil, ajudaram um estranho no mês anterior ao levantamento ou fizeram trabalho voluntário. Este ano, foram entrevistadas 146 mil pessoas em 139 países. O estudo foi divulgado no dia 5 de setembro em um evento no Centro Ruth Cardoso, em São Paulo, que reuniu representantes de organizações sociais e especialistas no tema da Cultura de Doação.

No levantamento anterior, 18% dos entrevistados diziam ter feito algum tipo de trabalho voluntário, percentual que chegou agora aos 20%, marca recorde para o Brasil desde que o levantamento começou a ser feito em 2009.
Mais da metade, 54% das pessoas ouvidas, disseram ter ajudado um estranho, número que se manteve estável em relação ao ano passado. O único comportamento que mostrou piora em 2017 foi o número de pessoas que doaram dinheiro. Depois de bater 30% em 2016, o índice agora caiu para 21%.

No geral, a pontuação do Brasil no World Giving Index caiu de 34% para 32%, o que levou o país a perder 7 lugares no ranking, ficando em 75º lugar. A pontuação do país caiu ligeiramente esse ano, mas ainda se mantém maior que em anos anteriores. É a segunda melhor colocação desde que o WGI foi criado.

“Apesar da queda do indicador geral, o voluntariado atingiu seu maior índice e nosso desafio é transformar essa tendência em uma pratica rotineira, independente de grandes eventos como foram os jogos olímpicos, reforça a diretora-presidente do IDIS, Paula Fabiani.

Mundo
O WGI 2017 mostrou uma mudança no quadro mundial da generosidade. Enquanto a maioria dos grandes países do top 20, como as nações da Europa, Ásia e os Estados Unidos caíram no ranking, vários países da África subiram na tabela. A África foi o único continente que registrou crescimento nos 3 comportamentos de solidariedade.

Vinte por cento dos top 20 deste ano foram ocupados pelos países africanos (Quênia, Serra Leoa, Libéria, Zâmbia) e oito nações (Gana, Zâmbia, Serra Leoa, Libéria, Quênia, Zimbábue, África do Sul, Tunísia) viram sua pontuação aumentar mais de 5 pontos percentuais, ou seja, a África foi o continente que teve melhor desempenho.

Campeões
No geral, Myanmar foi o país mais generoso do mundo pelo quarto ano consecutivo, mas registrou queda na pontuação geral de 70% para 65%. A Indonésia foi o segundo, seguida pelo Quênia, Nova Zelândia e Estados Unidos.

Alguns destaques
Este ano, o índice global teve uma piora em relação ao de 2016: doar dinheiro e ajudar um estranho recuaram 1,8 pontos percentuais, enquanto voluntariado caiu 0,8 pontos percentuais. O relatório sugere um declínio geral nos índices de solidariedade, especialmente entre as nações desenvolvidas. Apenas seis dos países do G20 aparecem no top 20.

O Quênia foi um dos destaques do WGI 2017 ao passar do 12º para o posto de terceira nação mais generosa.
Serra Leoa foi o país que teve a maior pontuação no quesito ajudar um estranho: 81% dos entrevistados relataram ter tido esse comportamento no mês anterior à pesquisa. O Camboja ficou na outra ponta, com apenas 18% de pessoas relatando ajudar um estranho.
O estudo na íntegra pode ser baixado em www.idis.org.br/world-giving-index-2017

1º de dezembro é o Dia de Doar

Cartaz Dia de Doar

 

O primeiro dia do mês de dezembro deste ano será o Dia de Doar. Um dia especialmente dedicado para que as pessoas prestem atenção a todas as possibilidades existentes para se fazer uma doação a alguém ou a alguma organização necessitada. Pode ser doação em dinheiro, pode ser doação de tempo, de atenção, de carinho. O importante é doar algo para transformar a vida do outro e para transformar o entorno em um lugar mais acolhedor para todos.

O site www.diadedoar.org.br tem sugestões de ações para indivíduos, empresas, governo e organizações não governamentais. O IDIS produziu material de divulgação do Dia de Doar e doou boa parte para a Associação Brasileira de Captadores de Recursos, que visitou várias cidades brasileiros convidando todos a aderir à data.

Não deixe o Dia de Doar passar em branco! Ainda dá tempo!

 

 

Brasil perde 15 posições no ranking mundial de solidariedade

O estudo anual World Giving Index, da Charities Aid Foundation (CAF), mostra que cada vez menos brasileiros doam dinheiro ou tempo de voluntariado para ajudar boas causas, apesar da quantidade de brasileiros que ajudam pessoas desconhecidas ter registrado um discreto crescimento em 2014, subindo de 40% em 2013 para 41% no ano passado, o que representa um acréscimo de cerca de 2,5 milhões de pessoas.

O World Giving Index, divulgado no Brasil pelo IDIS, é um estudo anual sobre o comportamento global de solidariedade baseado em pesquisas realizadas em 145 países, analisando três indicadores de doação: a porcentagem de pessoas que fizeram doações em dinheiro, dedicaram tempo de voluntariado e ajudaram um desconhecido no último mês anterior à pesquisa. O Brasil caiu 15 posições no índice, saindo da 90ª para a 105ª posição.

Gráfico WGI 2015 Brasil

Para a presidente do IDIS, Paula Fabiani, ainda há um longo caminho a percorrer até que a doação no Brasil alcance níveis de países similares ao nosso. “Em virtude da situação econômica, é provável que as pessoas sintam que têm menos tempo e dinheiro para doar”, diz Paula.

Em 2014, uma em cada cinco pessoas (20%) afirmou ter doado dinheiro no Brasil. Isso é menos do que os 22% de 2013 e é a porcentagem mais baixa registrada nos últimos seis anos. Os brasileiros com 50 anos ou mais continuam sendo os mais propensos a doar, apesar do segmento ter registrado queda no ano passado. Já entre os mais jovens, que são o grupo menos propenso a doar, o percentual de doadores está aumentando.

Clique aqui para acessar a íntegra do relatório World Giving Index 2014-15.

Voluntariado é bom para a sociedade e para a empresa; aprenda a fazer

Uma empresa é naturalmente um agregado de pessoas que trabalham por um retorno econômico. Mas por que não mobilizar os trabalhadores também para a busca de um retorno social? A iniciativa privada é um espaço especialmente privilegiado para a criação de projetos de voluntariado.

A principal pesquisa de solidariedade no mundo, o World Giving Index, da organização britânica Charities Aid Foundation, aponta o Brasil como oitavo país em número absoluto de voluntários – um ambiente propício, portanto, para programas corporativos nessa área.

As companhias colhem os frutos do envolvimento dos funcionários em ações sociais, segundo uma monografia apresentada no curso Administração para Organizações do Terceiro Setor, da FGV-SP. A pesquisa analisou as iniciativas de diversos grupos, como Itaú e Philips, e concluiu que “os ganhos indiretos do programa superam os investimentos, pois um funcionário que compreende as ações da empresa passa a respeitá-la pela transparência e se sente parte integrante da companhia e tende a produzir mais e melhor”.

Para ajudar a criação de projetos que consigam efetivamente atuar nos grandes temas nacionais, o IDIS publicou um manual  com um passo a passo. O texto defende que iniciativas desse tipo são mais bem-sucedidas quando envolvem todos os escalões da instituição.

Uma sugestão é começar com a formação de um comitê que mapeie ações já existentes, pesquisar os temas que mais interessam aos funcionários e mobilizar aqueles que queiram se tornar voluntários. Num segundo momento, o alto escalão deve ser envolvido, pois é a ele que cabe a decisão de alinhar o programa às diretrizes corporativas e de sustentabilidade do negócio.

O IDIS tem grande experiência em assessorar tanto empresas que querem montar seus planos de voluntariado quanto aquelas que pretendem dar mais efetividade a ações já existentes. Está interessado? Venha conversar conosco (http://idis.org.br/contato/).

Solidariedade é a Principal Característica do Voluntário, Aponta Pesquisa

Levantamento realizado pelo Ibope Inteligência para a Rede Brasil Voluntário revela que 25% da população brasileira já fizeram algum tipo de serviço voluntário, sendo que 11% exercem esse tipo de atividade no momento.
O estudo permitiu conhecer o perfil dos voluntários do País e compreender o que os motiva a doar parte de seu tempo a um trabalho não remunerado. “Ser solidário e ajudar as pessoas” é a motivação mais citada, com 67%, seguida por “fazer a diferença e mudar o mundo”, com 32%,  e “motivações religiosas”, com 22%.

O grau de satisfação de quem desempenha alguma atividade voluntária é alto: 77% dos entrevistados afirmaram que estão totalmente motivados em continuar o trabalho que exercem.

A captação de recursos é uma das principais atividades realizadas no serviço voluntário. Cinquenta e cinco por cento dos entrevistados responderam que captam doações em dinheiro, roupas, brinquedos, alimentos e livros, entre outros, para organizações em que desempenham suas atividades.

Perfil do voluntário

Outra constatação da pesquisa foi que a maioria das pessoas que doa parte de seu tempo ao voluntariado trabalha – em período integral (51%) ou em meio período (14%).

A escolaridade dos voluntários foi outro item analisado na pesquisa: 38% dos entrevistados têm o Ensino Médio completo ou Superior incompleto, 20% possuem o Ensino Superior completo, 18% pararam os estudos entre a 4ª e a 7ª série do Ensino Fundamental, 16% têm o Ensino Fundamental completo ou o Ensino Médio incompleto e 10% têm no máximo até a 3ª série do Ensino Fundamental.

As mulheres realizam mais serviços voluntários do que os homens – 53% e 47%,  respectivamente. A classe C é a que mais se dedica ao trabalho voluntário (43%), seguida das classes AB, com 40%, e das classes DE, com 17%.

A primeira fase da pesquisa, realizada em junho de 2011,  consistia em conhecer a participação da população brasileira em ações de voluntariado. Foram ouvidas 2.002 pessoas. Já a segunda etapa do estudo, feita em novembro de 2011, traçou o perfil dos voluntários brasileiros. Nessa etapa, foram entrevistadas 1.550 pessoas maiores de 16 anos que realizam algum tipo de serviço voluntário.

Para acessar o estudo, clique aqui.

A Rede Brasil Voluntário, criada pelos centros de voluntariado de Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, tem como objetivo reconhecer e expandir o voluntariado no Brasil. Ela apoia cerca de 50 centros de voluntários e incentiva a criação de movimentos organizados e novos centros.

 

 

Investimento Social Estratégico: Integrando o Processo e a Visão

Stephen P. Johnson é vice-presidente da The Philanthropic Initiative, uma organização sem fins lucrativos que, há duas décadas, orienta ações em filantropia estratégica. No artigo escrito exclusivamente para o IDIS, Johnson analisa as bases para doar bem.

Stephen Johnson, TPIInvestimento social estratégico – ou, como é mais conhecida nos Estados Unidos, “filantropia estratégica” – tem diversos significados. No The Philanthropic Initiative, Inc. (TPI) nós acreditamos que o investimento social estratégico tenha os seguintes componentes principais:

  • Doação e voluntariado que combinam “cabeça e coração”
  • Doação e voluntariado que é focado, impulsionador e “mão na massa”
  • Doação e voluntariado que tem o objetivo transformações a longo prazo e sistemáticas

Investidores sociais estratégicos tendem a ser exatamente o que o nome se propõe: que se comportam como investidores de qualquer mercado. Estes investidores são direcionados por uma visão e por valores. Eles conhecem suas metas e objetivos. Eles possuem um processo de validação das organizações em que investem. Eles estão interessados em análise de riscos, mas também estão dispostos a assumir riscos para atingir suas metas. Eles estão interessados em medir o retorno de seus investimentos. E eles estão dispostos a assumir diversos papéis além de financiadores para atingir seus objetivos.

TPI é um organização da sociedade civil que presta serviço de consultoria para indivíduos, famílias, fundações e corporações que queiram fazer investimento social. Fundada em 1989, nossa missão é ampliar o impacto do investimento social na sociedade. Nós temos o compromisso de assessorar nossos clientes a desenvolver e implementar abordagens estratégicas de alto impacto para a filantropia. Como apresentado com mais detalhes no site do TPI, os serviços oferecidos para os doadores incluem planejamento estratégico, facilitação, pesquisa e design programático, e implementação e avaliação de iniciativas estratégicas. Durante os últimos 20 anos, nós trabalhamos com mais de 350 clientes, incluindo um número crescente de doadores que possuem interesses internacionais.

Iniciando o Investimento Social

Os doadores com quem o TPI tem trabalhado ao longo dos anos são sérios com relação ao investimento social estratégico. Nós temos um cliente que freqüentemente nos conta que ganhar dinheiro foi fácil – a conseqüência natural de se fazer algo em que ele é bom. Entretanto, doar “bem” era menos intuitivo e mais difícil. Apoiar a sua universidade, a campanha capital do hospital da região, eram escolhas óbvias para destinar suas doações. E escolhas importantes, mas descobrir maneiras de fazer a diferença na sociedade; de como alinhar seus valores e suas paixões com as suas ações de filantropia; e de como criar estratégias que alavancavam suas doações; de como determinar o impacto de seu investimento; e de como e quando envolver a sua família; estas eram desafios muito mais difíceis para ele.

Por que aqueles que doam tão bem, que buscam mudar o mundo ou suas comunidades, decidem se tornar “investidores inovadores”? Como e com quem eles aprendem a como fazer uma boa doação? Quão importante é um missão filantrópica? Metas e estratégias? Quais são os riscos e oportunidades ao envolver esposa e filhos em sua iniciativa? Qual é a forma de atuação correta para as doações? E onde é possível buscar e encontrar conselho suporte necessário para criar e avançar os programas de doação que satisfazem os interesses e são efetivos?

Muito tem sido escrito sobre essas questões, mas assim como muitos assuntos na Era da Informação, o desafio para adquirir conhecimento e habilidades para se tornar um doador de alto-impacto não é a ausência de informação, mas sim o excesso. O que muitos doadores que estão embarcando na odisséia de doações efetivas realmente precisam são dados – ou ao menos um bom norte – para guiá-los no oceano de uma filantropia e investimento inovadores. Esse artigo tem a intenção de proporcionar aos investidores ferramentas básicas de navegação para aventurar no oceano do investimento social estratégico.

Por que doar?

A pergunta “Por que doar?” parece óbvia até que ela venha a ser aparentemente não óbvia. A resposta é única para cada e todo doador. Algumas vezes o cálculo é muito simples – “Minha esposa faleceu de câncer de mama e eu quero ajudar a encontrar a cura e imortalizar a sua vida extraordinária”. Mas com maior freqüência isto tem se tornado complexo, uma rica mistura de motivações, sonhos e objetivos.

Nos vinte anos de trabalho do TPI com indivíduos e famílias de alto poder aquisitivo,  nós já nos deparamos com temos quase todos os motivos para doar, como a quantidade de nossos doadores. Algumas das motivações mais freqüentes incluem:

  • Legado – Entre alguns doadores, o desejo de criar um legado espiritual como uma forma de equilíbrio ou um complemento para o legado material é forte
  • Comunidade – Muitos doadores se sentem abençoados por sua inteligência, educação, cuidado da família, suporte da comunidade, trabalho árduo, sucesso e sorte. Alguns devem se sentir privilegiados por serem capazes de apoiar suas comunidades com uma parte de sua riqueza. Outros devem se sentir moralmente obrigados a “dar um retorno”. Alguns devem sentir ambas as coisas.
  • Cura – Em hebraico há uma bela frase “tikkun olan,” que significa “para curar o mundo em pedaços”. Há muito a ser curado – fome, moradores sem lar, doenças, negligência infantil, degradação do meio ambiente, e infelizmente, a lista não tem fim.
  • Desafios – Entre os empreendedores, o desafio de resolver um vergonhoso e, aparentemente, problema social sem solução, pode ser a motivação para a filantropia criativa.
  • Família – Agora que o negócio da família foi vendido, quais são as oportunidades para se trabalhar com a família? Para muitos, a filantropia pode funcionar como essa plataforma.
  • Honra – Aqueles que patrocinaram uma sinfonia e bibliotecas e laboratórios de pesquisa em memória da família e amigos, assim o fazem para honrar aqueles que amam.
    Reconhecimento – Para alguns, o desejo se ter o reconhecimento da sociedade, ou estar com as “pessoas certas” é uma importante motivação para doar.
  • Tradição – Em algumas famílias, é uma tradição de muitos anos.
  • Satisfação – Talvez a principal motivação para doar seja somente “sentir-se bem”. Doar faz as pessoas se sentirem bem. Satisfaz superar um desafio, causar impacto, mudar o mundo (e, às vezes, a si mesmo) para o melhor.
    Compreender as motivações para doar é importante. A ausência do entendimento do eu motiva as doações, de que forma atuar, em que foco, e decidir a estratégia; nada mais que uma caminhada aleatória onde todos os caminhos são possíveis.

Algumas questões preliminares

Trabalhando com clientes individuais e familiares que pretende melhorar suas doações ou considerando um novo nível de filantropia, TPI geralmente entrevista o doador e faz as seguintes perguntas:

  • Por que doar?
  • Por que você está interessado em filantropia?
  • Quais são seus valores? Seus objetivos filantrópicos? Suas paixões sobre a sociedade e o mundo em que você vive?
  • O que você espera alcançar com a sua doação?
  • É importante que sua família esteja envolvida com a sua filantropia? Por quê? Como você gostaria que eles se envolvessem?

Considerações Financeiras

  • Quanto você pode doar?
  • Quanto você quer doar agora? Quanto mais tarde? Quanto ao morrer?
  • A decisão de como doar é sensível ao tempo?
  • Você precisa de renda no momento, mas gostaria de beneficiar uma organização filantrópica na sua morte?

Quanto tempo você pode investir em suas ações filantrópicas?

  • Você imagina que sua filantropia será principalmente e exclusivamente a doação de dinheiro, ou você imagina investir quantidade significativa de tempo também?
  • Você se encontra em um momento da vida quando pode investir uma considerável quantidade de tempo em suas ações?
  • Se você fosse criar uma fundação privada você teria a disponibilidade para realizar visitas de campo, participar e gerenciar encontros regulares com o conselho?
  • Você acredita no modelo da “filantropia engajda” trazendo seus conhecimentos profissionais assim como seus ativos financeiros para a governança e operação de uma organização.

Quanto “mão na massa” você pretende ser?

  • Você pretende doar para organizações não-governamentais e ser capaz de dirigir os programas contemplados pela sua doação?
  • Você gostaria de conhecer as pessoas que trabalham com a organização para as quais você pretende destinar suas doações? Encontrá-los em suas bases de trabalho?
  • Você é intolerante com relação às funções administrativas e burocracias? Você prefere delegar essas funções para os outros?

Doando Bem – Qualidades de um Investimento Social Efetivo

No decorrer do trabalho com mais de centenas de clientes ao longo dos anos, TPI descobrir que os doadores que provocam maior impacto e que a partir de suas práticas filantrópicas obtém suas maiores realizações e que são caracterizados por alguns – e raramente, por todos – pelas qualidades a seguir. (Aqui, agradeço a meus colegas Leslie Pine, Melinda Marble e Joe Breiteneicher, que prepararam uma versão preliminar da lista abaixo).

Valores-Direcionadores

O investimento social é geralmente dirigida por fortes valores familiares e pessoais, crenças sobre o que é importante para a vida. Estes valores, e paixões pessoais e familiares que geralmente os acompanham, necessitam de uma orientação para doar. Ao trabalhar com famílias e tentar ajudá-las a identificar seus valores nós geralmente fazemos perguntas como:

  • Quais são os seus valores pessoais/ familiares? O que você e/ou a sua família defende?
  • Quais são os valores que guiam as escolhas que você faz na vida?
  • Como os seus valores estão coerentes com o tipo de doador que você gostaria de ser?
  • Quais são as histórias que você conta em sua família sobre a sua família e seus ancestrais? Que valores eles representam?
  • Quais foram os exemplos de valores que basearam suas decisões sobre as doações passadas?

Pró-atividade

Doadores eficazes são freqüentemente doadores pró-ativos. Suas doações são destinadas de acordo com suas visões e paixões, e não a partir de pedidos dos outros. Esses filantropos decidem o que eles têm interesse em investir, quais as questões e causas a serem combatidas, e depois desenhar estruturas para direcionar esses objetivos.

Focado

TPI uma vez foi descrito pelos membros do seus próprio conselho como os “propagandistas para o foco”. Se é ou não uma “propaganda”, trata-se de um credo. O foco para o investimento social cria a capacidade de concentrar recursos. Ajuda a definir e clarear objetivos filantrópicos. Ter foco possibilita ao doador adquirir conhecimento e inteligência sobre uma questão particular e a avaliar e para avaliar oportunidades de financiamento tendo como pano de fundo este conhecimento. Além disso, foco também ajuda o doador a dizer “não” para os pedidos que não do seu interesse.

O foco vem de diversas maneiras. Pode ser:

  • Programático. Exemplo: erradicando doenças; ajudar os moradores de rua; preservação das florestas
  • Geográfica. Exemplo: a comunidade que foi base para os negócios da família durante gerações
  • Minorias. Exemplo: mulheres, mães solteiras
  • Valores específicos. Exemplo: organizações comprometidas com a preservação das famílias
  • Estratégica. Exemplo: construindo infra-estrutura e capacidade das não-governamentais

Orientado por Meta/ Resultado

Muitos doadores eficazes têm clareza sobre suas metas e resultados esperados, e pedem aos seus parceiros o mesmo. Quando possível, o filantropo desenvolve indicadores concretos e mensuráveis de sucesso para a sua filantropia. Por exemplo, um financiador interessado em promover oportunidades econômicas para a população local deve medir o impacto do financiamento a partir de informações como criação de novas oportunidades de trabalho, crescimento salarial, ou, menos tangível, mas ainda mensurável, desenvolvimento de novos conhecimentos entre os residentes da comunidade.

Baseado em Pesquisa e  Contexto Social

A filantropia mais eficaz envolve uma combinação da “cabeça com o coração”. Enquanto as questões sobre as áreas e objetivos podem ser direcionadas de acordo com a visão e valores, a filantropia estratégica envolve uma pesquisa rigorosa e a análise, por exemplo, das lacunas dos serviços, necessidades, oportunidades, melhores práticas, abordagens eficazes. Equipado com essas ferramentas, os doadores podem determinar a maneira mais eficaz de direcionar os seus recursos para fazer a diferença.

Estratégias e Papéis claramente definidos

Uma vez que a visão está clara e que o foco e os objetivos estão definidos, o próximo passo é selecionar as estratégias que contribuirão para alcançar os objetivos do doador. Ainda, que papéis que o doador gostaria de ter em suas ações filantrópicas? Alguns papéis incluem:

  • Melhoria da Capacidade e infra-estrutura (de organizações, vizinhança, ou até mesmo de campos de interesse)
  • Inovador/ incubador (de novas idéias, programas ou organizações)
  • Disseminador/ replicador (de modelos efetivos e melhores práticas)
  • Agente transformador (da estrutura cultural, social e legal, ou de expectativas, direcionando causas subjacentes e sistemas)
  • Desenvolvimento Comunitário (desenvolver capital humano, social ou físico na área)
  • Crítico ou advogado (de políticas públicas ou sociais)
  • “Venture philanthropist” (apoiar empresários sociais que estão começando ou construindo organizações, ou tentando novas abordagens)
  • Desenvolvimento de líderes (de organizações, escolas ou comunidades)

Os papéis que os financiadores escolhem influenciam a forma que eles vão ativar e que ferramentas vão utilizar: financiamento a projetos, capacitação técnica, articulação de doadores que pensam da mesma maneira, empréstimo para organizações sociais, e/ou mobilização da mídia.

Processo de Validação

Assim como um investidor financeiro, o investidor social prudente condiciona o financiamento de projetos significativos a um processo de validação apropriado, por exemplo, acessar as habilidades da organização para qual a doação será destinada assim como o projeto específico a ser financiado. O processo de validação deve incluir, por exemplo, revisão cuidadosa da proposta, visita de campo, e conferir referências.

Conclusão

Tomar boas decisões sobre as doações é como tomar boas decisões sobre qualquer outro investimento – parte arte, parte ciência. Não existe um processo mágico que garantirá o sucesso de todas as doações ou financiamentos. Mas para aqueles doadores que obtém sucesso no casamento de sua visão e valores com um pensamento provocativo, pesquisa, e processo de validação; o impacto de suas doações pode ser virtualmente ilimitado.

Tornar-se um sábio doador pode levar tempos. Demanda um trabalho árduo, persistência, paciência, disponibilidade para experimentar e, algumas vezes, para falhar. Mas também deve e pode ser divertido – “divertido” não no sentido leviano, mas “divertido” como proveitoso e capaz de trazer alegria. A filantropia, enquanto trabalho sério, não deveria ser tão séria a ponto de se tornar um peso. Se o trabalho parecer opressivo em alguns momentos, não hesite em buscar pares ou parceiros, e ajuda externa.

Talvez o mais importante de tudo, lembre-se: os investidores sociais têm a permissão para sonhar grande sobre o que é importante para o futuro que buscamos para nossos filhos e os filhos de nossos filhos. Estes sonhos, seguidos de maneira ponderada e criativa, são oportunidades reais de filantropia, e eventualmente sua essência. Dinheiro bem investido pode transformar o mundo, e algumas vezes, apenas uma vida por vez.

2002: Relatório Sobre Doação e Voluntariado no Vale do Silício

Pesquisa da Community Foundation Silicon Valley mostra como a implantação de empresas de alta tecnologia transformou uma região tradicionalmente agrícola dos EUA (Califórnia), gerando aumento da população jovem e da riqueza local, e como essa riqueza passou a ser investida socialmente na própria região, em outras áreas dos EUA, e em outros países, pois muitos dos trabalhadores preferiam doar para suas comunidades natais.

Entre os dados interessantes da pesquisa, destaca-se o fato de que o vale do silício está se tornando uma comunidade que abraça a filantropia. 96% dos residentes dizem se engajar em alguma forma de doação e 81% afirmam participar de atividades voluntárias. 87% dos doadores locais doam para duas ou mais causas ou organizações sem fins lucrativos.

Ao contrário do estereótipo difundido de que trabalhadores da área da alta tecnologia não doam – ao menos no Vale do Silício -, eles doam mais do que os que não trabalham nesse setor (84% versus 78%). Também costumam usar mais a internet para conhecer um grupo ou organização não governamental (39% versus 26%), para fazer doações a uma organização sem fins lucrativos (25% versus 12%) e para saber sobre oportunidades de voluntariado (26% versus 19%). Mais da metade dos moradores da região doa dinheiro para ajudar as vítimas de ataques terroristas.

Clique aqui para obter a íntegra do Relatório.