O que os dados nos contam sobre o impacto da pandemia no voluntariado?

Por Pamela Ribeiro, coordenadora de projetos especiais no GIFE e integrante do comitê coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação. 

Durante a pandemia do coronavírus, vimos aparecer diversas  pesquisas e estudos no setor social, todos atentos aos impactos da Covid-19, no engajamento cívico de empresas e pessoas em resposta à emergência. E o que esse conjunto de dados nos conta sobre os efeitos da pandemia no engajamento cívico no Brasil? Isso é o que este artigo pretende, pelo menos em partes, responder.

A pesquisa “Brasil Giving Report 2021”, realizada pela Charities Aid Foundation (CAF) e pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, mostrou uma pequena redução do engajamento cívico em geral do brasileiro durante o primeiro ano de pandemia: as atividades de doação e voluntariado caíram de 78% em 2019 para 72% em 2020. O engajamento com o voluntariado em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que vinha estável no patamar de 43% desde 2017, caiu para 41% em 2020. Já o voluntariado para igrejas ou outras organizações religiosas registrou uma oscilação ainda maior, de 44% em 2019 para 40% em 2020. 

Quando olhamos para o voluntariado corporativo, o cenário não foi muito diferente. Dados da pesquisa “Benchmarking do Investimento Social Corporativo” (BISC 2020)”, da Comunitas, mostram que houve uma queda de 35% no número de colaboradores voluntários em 2020 em relação a 2019. O crescimento no engajamento das empresas observado tanto no Censo GIFE 2020 quanto no BISC 2020, por meio de um aumento expressivo no volume dos investimentos sociais, não foi observado no voluntariado.

Portanto, o primeiro ano de pandemia parece ter sido marcado por uma redução no engajamento dos brasileiros em atividades voluntárias, o que pode ser explicado, de acordo com o BISC 2020, pelo impacto natural que o isolamento social teve em atividades presenciais.

Porém, os dados apontam também para uma ressignificação do engajamento cívico dos brasileiros durante a pandemia. Os dados do BISC 2020 mostram um crescimento na formação de redes de colaboração entre voluntários (de 65% em 2019 para 82% em 2020), no estímulo ao voluntariado digital (de 55% em 2019 para 82% em 2020) e na doação casada funcionário-empresa (de 18% em 2019 para 36% em 2020). A pesquisa “Voluntariado na Educação”, realizada pelo Itaú Social em parceria com o Instituto Datafolha e divulgada em dezembro de 2021, aponta uma tendência semelhante quando mostra que 47% dos respondentes disseram que houve um aumento de doação de alimentos neste período. Aqueles que foram impedidos de se dedicar ao trabalho voluntário presencial, aderiram ao voluntariado digital ou outras formas de doação, como a doação de dinheiro e de bens, como mostram as pesquisas.

O mais recente estudo sobre o tema – Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 – realizado pelo Instituto Datafolha e pelo IDIS, retrata um cenário um pouco diferente do observado no primeiro ano de pandemia. Segundo a pesquisa, o percentual de pessoas que declararam ter aumentado suas atividades voluntárias (47%) durante a pandemia foi superior ao percentual dos que declararam uma redução (34%). Destes, a maioria (61%) se engajou na distribuição de alimentos, roupas, medicamentos, cestas básicas, livros e brinquedos.

Portanto, o que os dados nos contam é que, apesar de uma retração inicial, os números de voluntariado parecem ter voltado a crescer, mostrando uma tendência de reacomodação da prática, que se concentrou em ambientes virtuais e no enfrentamento aos efeitos mais imediatos da pandemia. Nesse sentido, a pandemia parece ter impulsionado novas formas de engajamento cívico e novas experiências de doação, ampliando as possibilidades e o potencial do voluntariado no Brasil.


Referências:

Brasil Giving Report 2021
Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC) 2020
Voluntariado na Educação

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, em sua terceira edição, legitima o trabalho de milhares de voluntários na construção de um Brasil melhor, tanto no presente, quanto para as gerações futuras.

Este artigo integra uma série de conteúdos escritos à convite dos realizadores da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, com intuito de analisar e enriquecer os achados do estudo. Não nos responsabilizamos pelas opiniões e conclusões aqui expressadas.

Acesse o site da Pesquisa Voluntariado no Brasil

O Brasil conta com 57 milhões de voluntários ativos, segundo Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021

Representados nos mais diversos segmentos, desde organizações educacionais a instituições que atuam em causas emergenciais humanitárias, eles coordenam campanhas de distribuição de alimentos, resgatam animais, contribuem para mobilizações ligadas à saúde, compartilham seus conhecimentos. Os voluntários doam seu tempo, energia e talento em prol de causas em que acreditam. São essenciais para que organizações da sociedade civil atinjam suas missões e, durante a pandemia, fizeram a diferença e impactaram positivamente a vida de milhares de pessoas.

Qual o perfil do voluntário no Brasil? Em quais atividades atuam? Como a pandemia realmente influenciou a atuação dessas pessoas? Quais as causas que mais recebem atenção do trabalho voluntário? São essas questões que a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 procurou responder. Em sua terceira edição, os achados apontam resultados positivos: 56% da população adulta diz fazer ou já ter feito alguma atividade voluntária na vida. Em 2011, esse número representava 25% da população e, em 2001, apenas 18%. Chama atenção também o número de voluntários ativos no momento da pesquisa – 34% dos entrevistados, o que representa cerca de 57 milhões de brasileiros comprometidos com atividades voluntárias.

Tanto a quantidade de pessoas envolvidas com o voluntariado aumentou, quanto as horas dedicadas à atividade. Se a quantidade média de dedicação por pessoa era de 5 horas mensais em 2011, a pesquisa de 2021 aponta a média de 18 horas mensais. Assim, cada voluntário brasileiro contribuiu, em média, por mês, o equivalente a 12 partidas de futebol inteiras. “Acompanho de perto a evolução do voluntariado no país nas últimas décadas, quando foi realizada uma pesquisa pioneira em 2001, Ano Internacional do Voluntário e, dez anos depois, na comemoração da Década do Voluntariado. A pesquisa 2021 confirma a valorização da atividade, com um salto para mais da metade da população brasileira já tendo praticado o serviço voluntário”, comenta Silvia Naccache, coordenadora do projeto em 2021 e que participou das edições anteriores.

Públicos da ação voluntária | Pesquisa Voluntariado

Destacou-se também o aumento da atenção dada a alguns públicos beneficiados pela atividade voluntária. Tiveram forte crescimento em 2021 famílias e comunidades, de 12% em 2011 para 35% em 2021, e pessoas em situação de rua, com um aumento de 20 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. Além disso, a pesquisa mostra a valorização da causa animal, de 1% em 2011 para 9% em 2021, e de pessoas com deficiência, de 3% para 9%.

A pesquisa 2021 é um retrato da última década de atuação voluntária no Brasil, com destaque para avanços do voluntariado empresarial, os megaeventos realizados no país, como a Copa do Mundo, em 2014, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, em 2016, e o impacto da pandemia”, avalia Felipe Pimenta, consultor da Pesquisa 2021. Em relação à pandemia, mesmo com o isolamento social, 47% dos voluntários passaram a praticar mais o voluntariado, tendo como atividade mais comum a distribuição de recursos (61%). No período, 21% passaram a fazer atividades voluntárias online, sendo as mais comuns as atividades de apoio psicológico e de educação.

Ao serem questionados sobre a satisfação com a atividade realizada, a nota média atribuída pelos voluntários foi de 9,1, de um total de 10. A motivação para a realização de uma atividade voluntária também ganhou contornos melhor definidos na última década. Solidariedade ainda é a palavra que melhor a descreve, passando de 67% para 74%. Nesta linha, a pesquisa também mostra que além de doar tempo, os voluntários têm o hábito de contribuir de outras formas:  95% também doam bens, como alimentos, roupas ou brinquedos, e 50% declaram também doar dinheiro para causas e organizações. Para Luisa Lima, Gerente de Comunicação do IDIS, “esses comportamentos refletem o fortalecimento da cultura de doação no Brasil. As pessoas estão cada vez mais cientes sobre as formas que têm à disposição para contribuir às causas em que acreditam”.  

Um ponto de atenção, porém, vem da porcentagem de voluntários que têm conhecimento sobre a Lei do Serviço Voluntário (Lei n° 9.608), que regulariza a atividade no país. 55% dizem não conhecer a Lei e 81% nunca assinaram nenhum Termo de Adesão ao Serviço Voluntário. “A formalização do vínculo é importante para as organizações e para os voluntários. O desconhecimento sobre a legislação do voluntariado no Brasil aponta o potencial de ação para organizações que fomentam a atividade” comenta Kelly do Carmo, consultora da pesquisa 2021.  

Outros achados da pesquisa

  • Não há diferença significativa em relação ao gênero dos voluntários: 51% feminino, 48% masculino e 1% declarou outras respostas. A pesquisa revelou que 40% dos voluntários se encaixam na faixa etária entre 30 e 49 anos; em relação à escolaridade, 50% detêm o ensino médio completo / superior incompleto; e a renda familiar mensal de 39% dos respondentes é de até 2 salários mínimos.
  • Em relação aos brasileiros que realizam alguma atividade voluntária atualmente (34% da população), 12% afirmam fazer as atividades com frequência definida; enquanto 22% realizam sem frequência definida.  
  • 15% dos voluntários realizam atividades ligadas a programas de voluntariado empresarial e dedicam, em média, 21,5 horas por mês.
  • 70% dos respondentes não conhecem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela Organização das Nações Unidades (ONU), que compreendem os alicerces da Agenda 2030 para combater a pobreza, melhorar a educação, promover práticas ambientalmente sustentáveis, entre outras. O índice de conhecimento cresce conforme aumenta o grau de instrução e a renda familiar mensal do entrevistado.
  • 49% concordam que os grandes eventos realizados na última década, como a Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Paralímpicos, Visita do Papa etc., contribuíram para aumentar o engajamento dos brasileiros no trabalho voluntário. 

Sobre a Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021

A pesquisa foi elaborada e coordenada por Silvia Naccache, com apoio dos consultores Kelly Alves do Carmo e Felipe Pimenta de Souza. Sua viabilização teve o suporte de organizações que acreditam na importância do avanço do voluntariado no Brasil e participam dessa rede de apoiadores, Ambev, Bradesco, Fundação Itaú Social, Fundação Telefônica Vivo, Raízen, Sabesp, Sicoob e Suzano. IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – e Instituto Datafolha assinam a realização. Os resultados completos estão disponíveis em www.pesquisavoluntariado.org.br.

Metodologia

A Pesquisa Voluntariado no Brasil 2021 foi conduzida pelo Instituto Datafolha e compreendeu etapas quantitativas e qualitativas como descrito a seguir. 

Pesquisas quantitativas: possuem o objetivo de identificar o perfil dos voluntários e dos não voluntários no Brasil:  

1. Entrevistas pessoais e individuais, com pessoas de 16 anos ou mais que fazem ou não atividades voluntárias, realizadas em pontos de fluxo populacional de abrangência nacional.  (2.086 pessoas, a margem de erro máxima para o total das amostras é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%). 

2. Entrevistas pessoais, individuais e específicas com voluntários – pessoas que fazem ou já fizeram alguma atividade voluntária, com 16 anos ou mais, realizadas em pontos de fluxo populacional, distribuídos em oito capitais brasileiras: Brasília, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. (1.556 voluntários, a margem de erro máxima para o total das amostras é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%). 

Pesquisas qualitativas: são exploratórias, possuem o objetivo de investigar em profundidade os aspectos comportamentais, opiniões, captar informações e obter uma análise profunda e detalhada sobre as percepções de voluntários, de especialistas e interessados no tema:

1. Entrevistas e conversas online em grupo (Grupos Focais), com pessoas que praticam trabalho voluntário no mínimo uma vez a cada 15 dias, desde antes da pandemia, de três capitais representativas de regiões distintas: Porto Alegre, Recife e São Paulo. 

2. Entrevistas online individuais em profundidade sobre voluntariado com oito formadores de opinião, diversificados por tipo de atuação e regiões do Brasil. 

OBS: Embora o planejamento da pesquisa tenha sido feito ao longo de 2021, em razão da pandemia e problemas decorrentes, as pesquisas quantitativas aconteceram entre o final de 2021 e o início de 2022.