A essência da filantropia se ancora nos territórios

18 de setembro de 2026

Por Isadora Pagy, coordenadora de projetos no IDIS 

Na sessãoA força dos territórios: quando a essência guia a reinvenção, realizada durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026, o território foi apresentado não apenas como contexto da ação social, mas como bússola para orientar sua essência. Diante de inúmeras mudanças sociais, políticas, tecnológicas e climáticas, a conversa mostrou que a reinvenção da filantropia não precisa partir de soluções externas ou modelos prontos. Ela pode, e deve, nascer da escuta, dos vínculos, dos saberes e das capacidades já existentes nas comunidades.

Painel ‘A força dos territórios: quando a essência guia a reinvenção’

Mediado por Emanuelle Marques de Moraes, Gerente de Cidadania e Sustentabilidade do Centro Cooperativo Sicoob, o painel reuniu Andrelissa Ruiz, Coordenadora da Prática Local e estratégia territorial da Fundação Tide Setubal; Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes da Maré; e Felipe Amaral, Diretor de Educação do Instituto Caldeira.

A conversa partiu da ideia central de que o território não é apenas um espaço geográfico. É lugar de vínculos, memórias, relações, saberes, desafios e soluções. Na abertura, Emanuelle destacou a importância de olhar para os territórios a partir do que eles possuem, e não apenas do que lhes falta. Essa mudança de perspectiva desloca a atuação social de uma lógica de intervenção externa para uma prática construída com as pessoas que vivem e transformam esses espaços todos os dias. 

Ao longo do debate, uma mensagem se repetiu em diferentes experiências: é preciso fazer menos para o território e mais com o território. Isso exige escuta, presença, confiança e reconhecimento dos ativos locais. Também exige compreender que nenhum território é vazio ou estático. Ao contrário, comunidades se adaptam, criam respostas e reinventam caminhos diante de desafios complexos.

Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Redes da Maré

A partir da experiência da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva trouxe a produção de conhecimento como parte do enfrentamento das desigualdades. Para ela, conhecer profundamente o território é condição para qualquer ação social consistente. Na Maré, a construção de evidências sobre violações de direitos, segurança pública, acesso à justiça e negligências do poder público contribui para embasar políticas públicas, fortalecer reivindicações e disputar narrativas sobre a favela. 

Sua fala também reforçou que projetos não podem ser um fim em si mesmos. A atuação territorial precisa estar vinculada a uma leitura crítica sobre as estruturas que produzem desigualdades e violências. No caso da Maré, isso inclui reconhecer a segurança pública como direito básico e como dimensão inseparável de qualquer agenda de desenvolvimento. A produção de conhecimento, nesse sentido, deve circular para fora do território, influenciando políticas e decisões, mas também permanecer na comunidade, fortalecendo autonomia e protagonismo local. 

Felipe Amaral, do Instituto Caldeira, levou ao debate a relação entre território, educação e inovação. A partir da experiência de um hub de inovação na região metropolitana de Porto Alegre, destacou a importância de construir pontes entre jovens de escolas públicas e o mundo da tecnologia. Em sua perspectiva, falar de futuro com as juventudes exige sensibilização, repertório e oportunidades concretas de inserção. 

A experiência apresentada por Felipe mostrou que inovação não deve ser tratada como fim, mas como meio para ampliar possibilidades. Para isso, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e poder público precisam atuar de forma articulada. A conexão entre esses atores pode fortalecer ecossistemas locais e abrir caminhos para reduzir desigualdades, especialmente quando cada jovem é reconhecido em sua trajetória, potência e contexto. 

Já Andrelissa Ruiz apresentou a experiência da Fundação Tide Setubal no Jardim Lapena, em São Miguel Paulista, e o processo de construção de uma Teoria da Mudança (TdM) orientada pelo território. A iniciativa parte da compreensão de que não é uma única organização que resolverá, sozinha, problemas complexos. Por isso, o papel de uma fundação financiadora passa também por conectar e fortalecer organizações locais, apoiar redes, produzir metodologias e contribuir para o debate público sobre desigualdades urbanas. 

Em sua fala, Andrelissa ressaltou que territórios não são estáticos. Eles mudam, reagem e produzem novas demandas. Por isso, monitoramento, avaliação e indicadores precisam ser instrumentos de aprendizagem e adaptação, não mecanismos que reduzam a complexidade da vida local. A reinvenção, nesse caso, está em apoiar sem capturar, estruturar sem engessar e medir sem perder de vista as dimensões humanas, políticas e comunitárias envolvidas. 

Outro fio transversal da sessão foi a capacidade de ler o território para adaptar estratégias. Na Redes da Maré, isso passa pela sistematização de evidências sobre violações de direitos, segurança pública e acesso à justiça, fortalecendo a reivindicação de políticas públicas e a autonomia comunitária. Na Fundação Tide Setubal, aparece na construção da Teoria da Mudança orientada por escuta, monitoramento e aprendizagem contínua. No Instituto Caldeira, a adaptação nasce diante das transformações tecnológicas e da necessidade de aproximar jovens de escolas públicas de novas perspectivas de futuro.  

Felipe Amaral, Diretor de Educação do Instituto Caldeira

Para além de registrar experiências, o painel convidou o ecossistema da filantropia e do Investimento Social Privado (ISP) a refletir sobre sua forma de atuação. Reconhecer a força dos territórios implica rever posições, compartilhar poder e assumir que soluções duradouras nascem da combinação entre recursos, escuta qualificada, conhecimento local e ação coletiva. 

Entre essência e reinvenção, a sessão apontou um caminho: preservar o compromisso ético com a transformação social, mas reinventar as formas de construir essa transformação. Quando o território deixa de ser visto como destinatário e passa a ser reconhecido como sujeito, a filantropia se aproxima de sua essência mais potente: fortalecer pessoas, redes e comunidades para que sejam protagonistas dos futuros que desejam construir.

 

Assista a gravação do painel: