Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum

Por Carla Irrazabal, analista de projetos do IDIS

A identidade latino-americana parece estar cada vez mais em evidência. E isso não se deve somente ao sucesso das músicas latinas no Spotify e no mundo. Existe algo que nos conecta e que nos define, e que não pode ser ignorado. Talvez a incerteza de um mundo em conflitos e a necessidade de afirmar identidades tenham contribuído para trazer essas características comuns para o centro da conversa. 

Painel “Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum”

Temos muito em comum, tanto em características que podem se tornar tendências e pontos fortes a serem valorizados, quanto nas coisas que sentimos que precisamos mudar. Ao mesmo tempo em que somos uma das regiões mais desiguais do mundo, vemos a generosidade presente em muitas ações cotidianas que constituem os nossos povos. 

Nossa herança histórica, marcada pela colonização, pelos povos originários e pela influência da diáspora africana trazida à força para a região pela escravidão no período colonial, influencia muitas dessas características. Da Terra do Fogo a Monterrey, compartilhamos histórias, desafios, formas de solidariedade e uma diversidade que não pode ser deixada de lado quando falamos em América Latina. 

Trazendo essa perspectiva para a filantropia, a mesa “Filantropia latino-americana: caminhos para um futuro comum”, realizada no Fórum Brasileiro de Filantropia 2026, nos convidou a refletir sobre o que nos une, o que há de comum entre os países latino-americanos e quais características da nossa região podem contribuir para construir um campo filantrópico mais forte, autônomo e conectado. 

O moderador, Guillermo Correa, Diretor Executivo da Red Argentina para la Cooperación Internacional, abriu a conversa justamente provocando os participantes a pensar sobre como fortalecer a filantropia latino-americana sem simplesmente importar modelos externos. A pergunta atravessou toda a mesa: como ampliar a colaboração entre os países, fortalecer nossas próprias capacidades e, ao mesmo tempo, preservar a diversidade e a essência que caracterizam nossas formas de gerar impacto social e ambiental? 

Cassio França, Secretário-Geral do GIFE, trouxe a experiência brasileira como ponto de partida para pensar também características mais amplas da região. Falou sobre o peso da filantropia empresarial: entre os associados do GIFE, 60% são empresas e 20% são famílias.  

Essa lógica é invertida no campo filantrópico estadunidense, lá há uma predominância da filantropia familiar. Ele fez uma provocação sobre qual é o papel da filantropia familiar na América Latina. Na sua visão, ela pode trazer algo diferente para o campo e abrir espaço para temas e causas que talvez não estejam tão presentes na filantropia empresarial. A ideia não é escolher entre uma forma ou outra, mas reconhecer a contribuição de diferentes atores para a construção de um ecossistema mais diverso. 

Sua fala também trouxe um ponto importante sobre o ambiente necessário para esse campo se fortalecer: a necessidade de um marco legal mais favorável à doação. Em uma região marcada pela concentração de recursos e por profundas desigualdades, fortalecer a cultura de doação também passa por discutir os instrumentos e as políticas que incentivam ou dificultam que recursos privados sejam direcionados para o bem público. 

João Paulo Vergueiro (JP), Diretor do Hub da GivingTuesday para a América Latina e Caribe, trouxe para a conversa uma reflexão sobre os diferentes sentidos da filantropia. Não apenas seu significado literal de “amor à humanidade”, relacionado à generosidade, mas também a filantropia entendida como doação e como um campo da sociedade civil. A partir de sua experiência na GivingTuesday, JP destacou que a generosidade já está presente no cotidiano dos países latino-americanos. A solidariedade e a disposição para fazer o bem ao próximo não são algo que precisamos necessariamente criar. O desafio está em reconhecer, estruturar e fortalecer essas práticas para que elas possam contribuir de maneira mais consistente para o campo filantrópico. 

Mas, para isso, ainda conhecemos pouco sobre o próprio campo. Uma pergunta aparentemente simples “quantas organizações da sociedade civil existem no país?” já evidencia a ausência de dados e pesquisas em muitos lugares da região. Para JP, conhecer melhor o campo é fundamental para que seja possível tomar decisões mais estratégicas e fortalecer a sociedade civil. 

A falta de dados também se conecta a uma questão trazida por Carolina Suárez, CEO da Latimpacto: a necessidade de construir mais confiança no campo social latino-americano. Ela reforçou a importância das evidências, mas chamou atenção para o equilíbrio necessário. Muitas organizações não têm as mesmas condições de produzir relatórios, indicadores e prestações de contas nos formatos demandados por financiadores. Sem considerar essa realidade, o excesso de exigências pode afastar recursos justamente de quem está mais próximo dos territórios. 

Carolina Suárez, CEO da Latimpacto

Para Carolina, pensar um modelo próprio para a América Latina é fundamental. Os exemplos e soluções não estão necessariamente nos modelos importados dos Estados Unidos ou de outros contextos. Muitos deles já existem aqui, nas práticas locais, nas redes da sociedade civil, nas formas de solidariedade comunitária e na capacidade de articulação dos territórios. 

Carolina trouxe também a importância de construir uma identidade latina. Comentou que pessoas de países africanos quando chegam em conferências internacionais falam “sou africano” e não de seu país de origem, precisamos pegar esse exemplo e afirmar com orgulho que somos latino-americanos.  

Numa segunda rodada de perguntas, mais objetivas e mais direcionadas para a prática, Guillermo direcionou perguntas diretas de como fazer e de quais são esses exemplos.  

Cássio retomou o tema do marco legal e reforçou a importância de instrumentos capazes de incentivar a cultura de doação e fortalecer a mobilização de recursos internos. Uma das referências citadas foi a experiência da Índia, onde a legislação de responsabilidade social corporativa prevê que empresas enquadradas em determinados critérios financeiros destinem pelo menos 2% do lucro líquido médio dos três anos anteriores a ações de responsabilidade social corporativa. 

JP sintetizou parte da conversa em três palavras: narrativa, dados e estrutura. A narrativa para contar a história do que o terceiro setor já faz e vem fazendo na América Latina. Os dados para trazer os insumos necessários para o conhecimento do campo de forma estratégica. E a estrutura seria o fortalecimento das redes que existem no Brasil e México e está se iniciando na Colômbia, em grupos como o GIFE. 

Carolina encerrou reforçando aquilo que talvez seja uma das maiores fortalezas latino-americanas: o capital humano. A capacidade de construir vínculos, mobilizar pessoas, atuar em rede e produzir soluções enraizadas nos territórios é parte da potência da região. Para que essa potência ganhe escala, será preciso ampliar integração, confiança e orgulho de pertencimento. 

Essa conversa nos mostrou que a filantropia latino-americana não precisa “inventar a roda” ou buscar respostas em modelos prontos vindos do Norte Global. A nossa fortaleza está justamente no que já existe aqui e que é profundamente latino: a generosidade, a solidariedade, a diversidade cultural e a força e o protagonismo dos nossos territórios.

João Paulo Vergueiro (JP), Diretor do Hub da GivingTuesday para a América Latina e Caribe

A diversidade do continente, com suas diferentes histórias, culturas, formas de organização e maneiras de responder aos desafios locais, não deve ser uma barreira para a construção de uma agenda comum, ao contrário, é um ativo para produzir soluções mais conectadas às nossas realidades.  

Em um contexto de policrise, em que desafios sociais, políticos, econômicos e climáticos se sobrepõem, fortalecer nossos vínculos como hermanos latino-americanos se torna ainda mais importante. Já existem modelos e experiências construídos aqui. O caminho pode estar justamente em conhecermos mais o que nossos vizinhos estão fazendo, compartilharmos aprendizados e fortalecermos essa rede regional, que ainda tem muito espaço para crescer.  

 

Assista a gravação do painel: 

Impact Minds 2026: Nos conectando

Por Débora Isis Gama, gerente de prospecção e parcerias do IDIS

Como transformar conexões em uma agenda estratégica de impacto?

A participação do IDIS na Impact Minds 2026, conferência da Latimpacto realizada de 9 a 11 de setembro, em Manaus, trouxe perspectivas para responder a essa pergunta. Sob o tema “Connecting Us” (Nos conectando, em tradução literal), o encontro reuniu investidores sociais, filantropos e organizações para discutir como alinhar intenções, capital e ação.

Equipe IDIS na Impact Minds 2026

A programação, teve início no dia 9 de setembro, com uma agenda com diversas visitas de campo, com objetivo de aproximar os participantes da cultura local e de iniciativas conduzidas pelas comunidades. Diante da diversidade de atividades, nossa equipe se dividiu para vivenciar três experiências.

Eu escolhi conhecer o Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, uma iniciativa liderada por especialistas dos povos Tukano, Desana e Tuyuka, originários do Alto Rio Negro. A visita nos aproximou de saberes ancestrais e de uma visão que conecta saúde, território, espiritualidade e vida comunitária. Os participantes conheceram o trabalho realizado pelo centro e tiveram a oportunidade de passar por uma consulta e fazer uso de rapé com os especialistas. Também puderam adquirir produtos da medicina tradicional e peças de artesanato produzidos pelos próprios indígenas.

Marcos Alexandre Manoel, diretor de Projetos do IDIS, participou da visita ao Viva Paricatuba, experiência de turismo de base comunitária que articula patrimônio histórico, cultura e natureza. Ao valorizar os conhecimentos e a atuação dos moradores, a iniciativa conecta a preservação da memória ao desenvolvimento local.

Já Rosana Ferraiuolo, gerente do programa Transformando Territórios, acompanhou a visita sobre financiamento indígena, organizada pela TNC Brasil com o Fundo Podáali e o Ateliê Derequine. Realizada no ateliê — iniciativa de mulheres do povo Witoto no Parque das Tribos —, a atividade apresentou mecanismos de financiamento liderados pelos próprios povos indígenas. Governança local, confiança e fortalecimento institucional apareceram como caminhos para ampliar a autonomia e apoiar soluções concebidas nos territórios.

Nos dias 10 e 11 de setembro, o evento seguiu com painéis e oficinas que reforçaram uma mensagem: recursos financeiros são fundamentais, mas não bastam. Paula Fabiani e Guilherme Sylos trouxeram contribuições do IDIS para essa reflexão, em diálogo com outros integrantes do ecossistema latino-americano.

 

Confiança, capacidades e colaboração

Ao moderar o painel “Construindo capacidades para transformar sistemas”, Paula Fabiani, CEO do IDIS, destacou três elementos: confiança, capacidades e colaboração. Os “três Cs” evidenciam que reunir organizações em torno de uma causa não garante, por si só, resultados coletivos. É preciso reconhecer as capacidades que faltam e criar condições para uma atuação complementar.

Painel “Construindo capacidades para transformar sistemas”, com a participação de Paula Fabiani

O debate também destacou a importância de compartilhar evidências para orientar decisões conjuntas. Outro ponto central foi reconhecer as comunidades, inclusive aquelas que permanecem fora do alcance das redes de apoio, como coprodutoras das soluções. Transformações sistêmicas exigem a humildade de admitir que ninguém as realizará sozinho e a paciência de sustentar processos cujos resultados não são imediatos.

No painel “Construindo alianças de impacto”, Guilherme Sylos, diretor de Prospecção e Parcerias do IDIS, abordou os desafios de colocar a colaboração em prática. Conhecer os parceiros e compreender suas expectativas é fundamental, assim como a disposição para ir além das agendas individuais. Como exemplos de iniciativas construídas segundo essa lógica, destacou o Juntos pela Saúde, programa do BNDES gerido pelo IDIS, e o Juntos Contra a Pobreza, iniciativa da Vale também gerida pelo IDIS.

Painel “Construindo alianças de impacto”, com participação de Guilherme Sylos

Essas experiências evidenciam que alianças não se sustentam apenas na soma de recursos ou na formalização de compromissos. A confiança precisa ser construída entre as organizações e com os territórios. Quando interesses particulares e disputas por protagonismo se sobrepõem ao propósito comum, o potencial de transformação se reduz. Colaborar implica colocar o resultado coletivo à frente do reconhecimento individual.

Paula também facilitou o workshop “Círculo de filantropia: fortalecendo as doações na América Latina”. Essa agenda se propunha conectar a mobilização de recursos à construção de vínculos, à confiança nas organizações e à aprendizagem entre pares, em favor de uma filantropia mais estratégica e colaborativa.

A equipe do Transformando Territórios (TT) também esteve no Latimpacto junto à comitiva da CIAF (Comunidad Iberoamericana de Aprendizaje de la Filantropía Comunitaria), uma rede de colaboração IberoAmericana composta de sete países. Foi importante perceber o quanto as discussões desse dias dialogam com o caminho que está sendo construído na filantropia comunitário territorial.

Equipe do Transformando Territórios e CIAF

Confiança, colaboração, fortalecimento de capacidades e, principalmente, a necessidade de fazer com que os recursos cheguem aos territórios respeitando suas realidades apareceram em diferentes conversas. Isso reforça a importância de organizações locais capazes de conectar atores, recursos e conhecimento, reconhecendo as comunidades como parte ativa das decisões e nos leva a percepção de que temos experiências concretas para compartilhar e contribuir com esse debate na região.

Em outra ocasião também foi realizado um jantar pelo IDIS e pelo UNICEF Brasil, reunindo pessoas e organizações que, de diferentes formas, contribuem para o enfrentamento das desigualdades do nosso país.

Jantar realizado pelo IDIS e pelo UNICEF

 

Aprender com os territórios

As reflexões encontraram continuidade em outros painéis. Em “Finanças inovadoras para um mundo em transformação”, destacou-se a necessidade de aproximar o capital disponível das necessidades locais. Já “Construindo futuros” reforçou uma distinção: garantir a participação dos territórios não equivale a incluí-los nas decisões. Cocriar soluções exige reconhecer a capacidade das comunidades de definir prioridades e construir autonomia.

No painel “Desenvolvimento local: conectando atores para multiplicar o impacto do capital”, o convite foi olhar para as vocações dos territórios, não apenas para suas carências. Pensar o desenvolvimento significa considerar o que já existe e qual futuro a própria comunidade deseja construir.

Da Impact Minds 2026, fico com a reflexão que ampliar o impacto da filantropia exige fortalecer as relações que o tornam possível. Para o IDIS, isso significa seguir aproximando atores, compartilhando conhecimentos e construindo alianças, sem perder de vista quem deve estar no centro das decisões. Mais do que levar respostas aos territórios, precisamos aprender com eles e criar condições para que suas soluções prosperem no longo prazo.