Impact Minds 2026: Nos conectando

Por Débora Isis Gama, gerente de prospecção e parcerias do IDIS

Como transformar conexões em uma agenda estratégica de impacto?

A participação do IDIS na Impact Minds 2026, conferência da Latimpacto realizada de 9 a 11 de setembro, em Manaus, trouxe perspectivas para responder a essa pergunta. Sob o tema “Connecting Us” (Nos conectando, em tradução literal), o encontro reuniu investidores sociais, filantropos e organizações para discutir como alinhar intenções, capital e ação.

Equipe IDIS na Impact Minds 2026

A programação, teve início no dia 9 de setembro, com uma agenda com diversas visitas de campo, com objetivo de aproximar os participantes da cultura local e de iniciativas conduzidas pelas comunidades. Diante da diversidade de atividades, nossa equipe se dividiu para vivenciar três experiências.

Eu escolhi conhecer o Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, uma iniciativa liderada por especialistas dos povos Tukano, Desana e Tuyuka, originários do Alto Rio Negro. A visita nos aproximou de saberes ancestrais e de uma visão que conecta saúde, território, espiritualidade e vida comunitária. Os participantes conheceram o trabalho realizado pelo centro e tiveram a oportunidade de passar por uma consulta e fazer uso de rapé com os especialistas. Também puderam adquirir produtos da medicina tradicional e peças de artesanato produzidos pelos próprios indígenas.

Marcos Alexandre Manoel, diretor de Projetos do IDIS, participou da visita ao Viva Paricatuba, experiência de turismo de base comunitária que articula patrimônio histórico, cultura e natureza. Ao valorizar os conhecimentos e a atuação dos moradores, a iniciativa conecta a preservação da memória ao desenvolvimento local.

Já Rosana Ferraiuolo, gerente do programa Transformando Territórios, acompanhou a visita sobre financiamento indígena, organizada pela TNC Brasil com o Fundo Podáali e o Ateliê Derequine. Realizada no ateliê — iniciativa de mulheres do povo Witoto no Parque das Tribos —, a atividade apresentou mecanismos de financiamento liderados pelos próprios povos indígenas. Governança local, confiança e fortalecimento institucional apareceram como caminhos para ampliar a autonomia e apoiar soluções concebidas nos territórios.

Nos dias 10 e 11 de setembro, o evento seguiu com painéis e oficinas que reforçaram uma mensagem: recursos financeiros são fundamentais, mas não bastam. Paula Fabiani e Guilherme Sylos trouxeram contribuições do IDIS para essa reflexão, em diálogo com outros integrantes do ecossistema latino-americano.

 

Confiança, capacidades e colaboração

Ao moderar o painel “Construindo capacidades para transformar sistemas”, Paula Fabiani, CEO do IDIS, destacou três elementos: confiança, capacidades e colaboração. Os “três Cs” evidenciam que reunir organizações em torno de uma causa não garante, por si só, resultados coletivos. É preciso reconhecer as capacidades que faltam e criar condições para uma atuação complementar.

Painel “Construindo capacidades para transformar sistemas”, com a participação de Paula Fabiani

O debate também destacou a importância de compartilhar evidências para orientar decisões conjuntas. Outro ponto central foi reconhecer as comunidades, inclusive aquelas que permanecem fora do alcance das redes de apoio, como coprodutoras das soluções. Transformações sistêmicas exigem a humildade de admitir que ninguém as realizará sozinho e a paciência de sustentar processos cujos resultados não são imediatos.

No painel “Construindo alianças de impacto”, Guilherme Sylos, diretor de Prospecção e Parcerias do IDIS, abordou os desafios de colocar a colaboração em prática. Conhecer os parceiros e compreender suas expectativas é fundamental, assim como a disposição para ir além das agendas individuais. Como exemplos de iniciativas construídas segundo essa lógica, destacou o Juntos pela Saúde, programa do BNDES gerido pelo IDIS, e o Juntos Contra a Pobreza, iniciativa da Vale também gerida pelo IDIS.

Painel “Construindo alianças de impacto”, com participação de Guilherme Sylos

Essas experiências evidenciam que alianças não se sustentam apenas na soma de recursos ou na formalização de compromissos. A confiança precisa ser construída entre as organizações e com os territórios. Quando interesses particulares e disputas por protagonismo se sobrepõem ao propósito comum, o potencial de transformação se reduz. Colaborar implica colocar o resultado coletivo à frente do reconhecimento individual.

Paula também facilitou o workshop “Círculo de filantropia: fortalecendo as doações na América Latina”. Essa agenda se propunha conectar a mobilização de recursos à construção de vínculos, à confiança nas organizações e à aprendizagem entre pares, em favor de uma filantropia mais estratégica e colaborativa.

A equipe do Transformando Territórios (TT) também esteve no Latimpacto junto à comitiva da CIAF (Comunidad Iberoamericana de Aprendizaje de la Filantropía Comunitaria), uma rede de colaboração IberoAmericana composta de sete países. Foi importante perceber o quanto as discussões desse dias dialogam com o caminho que está sendo construído na filantropia comunitário territorial.

Equipe do Transformando Territórios e CIAF

Confiança, colaboração, fortalecimento de capacidades e, principalmente, a necessidade de fazer com que os recursos cheguem aos territórios respeitando suas realidades apareceram em diferentes conversas. Isso reforça a importância de organizações locais capazes de conectar atores, recursos e conhecimento, reconhecendo as comunidades como parte ativa das decisões e nos leva a percepção de que temos experiências concretas para compartilhar e contribuir com esse debate na região.

Em outra ocasião também foi realizado um jantar pelo IDIS e pelo UNICEF Brasil, reunindo pessoas e organizações que, de diferentes formas, contribuem para o enfrentamento das desigualdades do nosso país.

Jantar realizado pelo IDIS e pelo UNICEF

 

Aprender com os territórios

As reflexões encontraram continuidade em outros painéis. Em “Finanças inovadoras para um mundo em transformação”, destacou-se a necessidade de aproximar o capital disponível das necessidades locais. Já “Construindo futuros” reforçou uma distinção: garantir a participação dos territórios não equivale a incluí-los nas decisões. Cocriar soluções exige reconhecer a capacidade das comunidades de definir prioridades e construir autonomia.

No painel “Desenvolvimento local: conectando atores para multiplicar o impacto do capital”, o convite foi olhar para as vocações dos territórios, não apenas para suas carências. Pensar o desenvolvimento significa considerar o que já existe e qual futuro a própria comunidade deseja construir.

Da Impact Minds 2026, fico com a reflexão que ampliar o impacto da filantropia exige fortalecer as relações que o tornam possível. Para o IDIS, isso significa seguir aproximando atores, compartilhando conhecimentos e construindo alianças, sem perder de vista quem deve estar no centro das decisões. Mais do que levar respostas aos territórios, precisamos aprender com eles e criar condições para que suas soluções prosperem no longo prazo.