Por

Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social

Marcia Woods, presidente do Conselho da ABCR Assoc. Bras. dos Captadores de Recursos

 

Parar para escrever um artigo é um exercício difícil quando vivemos uma realidade tão dinâmica e desconhecida como a que atravessamos. Vemos o Brasil em seus extremos, no qual coisas muito boas acontecem ao lado de fatos terrivelmente tristes e preocupantes.

As lideranças governamentais se contradizem deixando a população desorientada. Os empresários, do grande ao micro, repentinamente se veem de pés e mãos atados, com suas máquinas paradas, seus estabelecimentos comerciais fechados e sua força de trabalho presa em casa, por um tempo mais longo do que jamais imaginaram em suas piores projeções. A desigualdade e a vulnerabilidade de certos grupos aumentam rapidamente.

Foi nesse contexto caótico que as organizações da sociedade civil (OSCs), comumente conhecidas por ONGs, assumiram a liderança e começaram a criar caminhos para evitar um desastre ainda pior.

Em poucos dias surgiram fundos para a saúde, iniciativas de apoio à população vulnerável, articulação de linhas de crédito. Diversas organizações se mobilizaram, aproveitando suas capacidades específicas, para garantir, rapidamente, melhores condições para o enfrentamento da crise para os mais necessitados.

Um exemplo é o Fundo Emergencial para a Saúde, fruto de parceria entre Idis, Movimento Bem Maior e Bsocial, que se aproxima dos R$ 40 milhões recebidos de mais de 10 mil doadores. Outro é o Movimento Família Apoia Família, que já alcança a marca dos R$ 10 milhões, e a iniciativa do Matchfunding Enfrente de apoio a iniciativas nas periferias, que a cada R$ 1 doado recebe R$ 2 de investimento do fundo.

A sociedade compreendeu, apoiou as ações das organizações sociais e ampliou sua doação. No início de forma mais tímida, mas na medida em que as doações eram divulgadas, novos doadores surgiam. Empresas aderiram como nunca antes, passaram a doar e a incentivar seus funcionários e clientes a participar. Artistas usaram seu prestígio para ampliar as doações.

Os números cresceram e alcançaram inacreditáveis R$ 5 bilhões, mais de 300 campanhas mobilizaram cerca de 320 mil doadores segundo o monitor de doações da ABCR. Isso nos posicionou na quarta colocação em doações no mundo, de acordo com levantamento realizado pelo Candid, organização americana que acompanha as doações nesta pandemia.

Vemos um país com uma cultura de doação destacada, no qual pessoas e empresas se sentem gratificadas ao doar. Um país onde cada um se sente membro da sociedade e se enxerga como responsável pela comunidade, pela cidade e pela nação.

Mostramos que existe uma sociedade civil vibrante, e que ela está pronta para reagir. No meio da insegurança e da dor, se apoiou na solidariedade. Mas isso não surgiu de uma hora para a outra, é fruto de muito trabalho, feito ao longo de muitos anos.

A primeira coisa a ser esclarecida é que, como já acompanhamos há alguns anos na divulgação  do World Giving Index (ou Índice de Solidariedade), em momentos de crise, guerras, desastres da natureza e epidemias, a sociedade se sensibiliza e as doações aumentam. Portanto, parte da mobilização se daria de qualquer forma.

Mas existe toda uma construção de confiabilidade e eficiência que as organizações da sociedade civil vêm edificando desde a redemocratização do país. As denúncias de corrupção que envolveram vários segmentos nos últimos anos, geraram uma nova postura e uma série de instrumentos que acabaram por beneficiar o campo filantrópico.

Os programas de compliance, que eram exclusivos de empresas, agora estão presentes no terceiro setor. Práticas de combate à lavagem de dinheiro também. Cada vez mais, as OSCs passam por validações antes de receber recursos dos doadores, e se acostumam a fazer prestações de contas. Tudo isso veio para ficar e dar mais segurança aos doadores.

Todos esses mecanismos foram fundamentais para que, chegando a pandemia e a crise gerada em diversos setores além da saúde, as ações filantrópicas fossem a resposta natural para a sociedade ajudar o país, para pessoas ajudarem pessoas através da doação.

Quando a emergência da Covid-19 passar, teremos pela frente o desafio de fazer com que essa cultura de doação, demonstrada com tanta força, mantenha sua vitalidade. E para isso, as organizações da sociedade civil que receberam a confiança de seus doadores deverão nutri-la  trabalhando de forma intensa, transparente e eficiente, apoiando os grupos mais vulneráveis do nosso país.

Mas só isso não basta, teremos que lutar para estabelecer um ambiente favorável à doação, aprimorando nossas leis, definindo incentivos fiscais mais amplos e construindo instrumentos que facilitem a vida do doador. Do grande e do pequeno.

O Brasil está no momento certo para fortalecer o caminho da doação e torná-la um hábito da maioria dos brasileiros. Nosso país precisará desse engajamento permanente da população para combater os efeitos pós-pandemia. Pensar que doar é um ato só de quem tem alto poder aquisitivo está errado. A sociedade civil somos todos nós, e todos nós podemos doar.


Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo, em 27 de maio de 2020

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