Evelyn Ioschpe: a face de um Terceiro Setor digno e confiável

Por Marcos Kisil*

Com profundo pesar recebi a notícia da morte de Evelyn. Parceira e amiga de muitos anos desde nosso encontro num grupo de filantropos que buscavam organizar e viabilizar o papel único que a filantropia pode, e deve ter, em criar uma sociedade justa e sustentável.

Corria os anos 90, deixamos os anos de chumbo da ditatura militar, vivíamos uma nova Constituição, tínhamos eleito democraticamente o Presidente Color. Nossa geração vivia um momento muito especial de esperança e de necessidade de participação num novo Brasil.

Porém, a história pátria começa a dar sinais de que os sonhos de muitos são sufocados pelos desejos ignóbeis de poucos.

Assim, num momento de construção da sociedade civil, onde a participação voluntária da cidadania passa a se manifestar por meio de novas organizações que querem ser livres da tutela de governos, nascendo sob o guarda-chuva de ONGs, eis que a sociedade se dá conta da mazela que ocorria na então Fundação Legião Brasileira de Assistência, LBA.

LBA foi criada como um órgão de assistência às famílias necessitadas em geral, em 1942. A LBA tinha como presidentes as primeiras-damas do governo federal, e vinculada ao Ministério da Ação Social do governo Collor.

Em 1991, sob a gestão de Rosane Collor, então primeira dama, foram feitas diversas denúncias de esquemas de desvios de verbas da LBA, como uma compra fraudulenta de 1,6 milhão de quilos de leite em pó. Para este desvio se usavam ONGs no estado de Alagoas.

Como neste momento nosso grupo de filantropos se reuniam informalmente desde 1989, e o escândalo projetava uma sombra sobre todas organizações sem fins lucrativas e não governamentais, tomamos a decisão de nos formalizarmos numa estrutura associativa que veio a se constituir como GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas. E, para tanto, foi instituído um Código de Ética que deveria ser aceito por toda associado que quisesse aderir a nova organização, e que representava um manifesto a favor da probidade, seriedade e transparência que deveria se ter com o uso de recursos em prol do desenvolvimento sustentado.

De maneira natural, e por aclamação, Evelyn foi eleita para ser a primeira presidente do Conselho do GIFE. Tive a honra de ser escolhido seu vice-presidente, e assim acompanhar as difíceis decisões que se impunham para tornar realidade a nova organização.

Dessa maneira passei a disfrutar do convívio da socióloga, jornalista, curadora de artes e cidadã Evelyn Ioschpe.

Então, Evelyn era a presidente da Fundação Ioschpe e do Instituto Arte na Escola.

Posteriormente, já como membro do Conselho da Fundação pude acompanhar o interesse e empreendedorismo da Evelyn em expandir o programa Formare, em que o ensino técnico profissionalizante é realizado dentro da própria fábrica, tendo funcionários voluntários como professores de jovens aprendizes. Criado em 1988, hoje o programa é reconhecido pelo MEC e não se restringe ao ambiente da Ioschpe-Maxxion, sendo aplicado em mais de 50 empresas, da Nívea à Duratex; e já formou mais de 10 mil alunos. A outra iniciativa da Fundação é o Instituto Arte na Escola, voltado para a melhoria do ensino de arte do ensino público por meio da formação de professores. Através de parcerias com universidades de todo o país, a iniciativa já beneficiou 13 mil professores.

Evelyn tinha uma frase que orientou seu pensamento e ação tanto nas ações pessoais como institucionais, seja na Fundação, seja no GIFE, seja nas diferentes entidades que serviu como executiva ou como conselheira:

“Todas as pessoas que têm vocação para o terceiro setor são as que se dão conta de que a vida delas pode transformar a vida de outras pessoas. ”

Transformar as vidas das pessoas era uma motivação que transbordava de sua pessoa. E dizia,

“Entrar para o terceiro setor foi onde eu consegui, na verdade, expressar o meu desejo de mudança, de dar minha contribuição. Queremos ajudar a formar indivíduos mais conscientes, que tenham uma visão mais sólida e mais crítica, para que possam ser cidadãos mais plenos e mais participantes. ”

Assim possibilitou em suas palavras o que esperava de uma organização social, incluindo o GIFE:

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 “A visão que tínhamos era de que se havia um trabalho profissional sendo feito, não podíamos mais pensar em atender diretamente a uma determinada população, mas tínhamos que desenhar uma maneira da nossa ação ser multiplicadora”

Neste sentido cumpre reconhecer dois programas que fizeram parte das ações iniciais do IDIS: o Programa de Trainee GIFE, instrumento para apoiar os associados na capacitação de seus quadros mais jovens, e o lançamento do livro 3° Setor – Desenvolvimento Social Sustentado

Este livro, organizado pela Evelyn, constitui ainda a introdução mais prática que existe no Brasil, ao tema do Terceiro Setor, ONGs. Organizações da Sociedade Civil etc. Redigiram capítulos do livro pesquisadores como Lester Salamon, provavelmente o estudioso hoje mais informado sobre o assunto, outra excelente autora como Peggy Dulany, bem como autores brasileiros como Ruth Cardoso, Rubens Cesar Fernandes, Joaquim Falcão, e outros tantos companheiros de jornada da Evelyn, no qual estou incluído.

A construção deste livro é, em larga medida, a construção de um pensamento que, se ao final da leitura parece unívoco, é de fato pluralista e, no entanto, surpreendentemente afinado.

Lançado em 1997, a obra nasceu da realização do III Encontro Ibero-Americano do Terceiro Setor, em setembro de 1996 no Rio de Janeiro, que teve a participação do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), que discutiu o conceito “Terceiro Setor”, suas formas e limites. E aqui encontramos outra importante contribuição da Evelyn para o nosso setor: crença na importância de diálogos entre pensadores do setor, fomentando e participando de encontros nacionais e internacionais.

Um desses encontros foi o Encontro Internacional de Associações que reuniam organizações doadoras de recursos (IMAG) em Oaxaca, México, em 1998. Este encontro reuniu líderes de filantropia de 25 países para se engajarem em programas de aprimoramento de suas ações em prol dos filantropos associados às suas organizações. A reunião mostrou a necessidade da criação de uma rede de associações para ser um centro de informação e conhecimento, propulsor de iniciativas que fizessem da filantropia um instrumento de crescimento e desenvolvimento social. Representando o Brasil estava Evelyn como ativa participante das ideias discutidas e concluídas no encontro. Em 2000, foi então criado a organização WINGS – Worldwide Initiatives in Grantmaking Support. Neste momento, sendo Presidente do Conselho do GIFE, tive a honra se ser co-fundador desta nova organização, e ser membro de seu primeiro conselho. Mais, uma vez tendo a Evelyn como parceira e amiga.

Hoje o WINGs conta como uma rede de mais de 100 associações filantrópicas e organizações de apoio em 40 países ao redor do mundo, cujo objetivo é fortalecer, promover e liderar o desenvolvimento da filantropia e do investimento social. Juntos, os membros da WINGS e os participantes da rede representam mais de 100.000 entidades filantrópicas de todas as regiões, mobilizando bilhões de dólares.

Assim, de maneira singela quero aqui prestar homenagens a esta líder do nosso setor que nos deixa. Testemunhei seu engajamento e participação em diferentes momentos de criação e desenvolvimento da sociedade civil, seus exemplos de cidadã preocupada com uma sociedade equânime e solidária, preocupada com o destino de crianças e adolescentes, contribuinte para a teoria e prática do investimento social privado.

Devo também a Evelyn outro importante ensinamento: o que significa a expressão Tzedaká. Mandamento judaico sobre a responsabilidade em construir a justiça social. É a obrigação de doar algo de si, trabalho ou conhecimento ou recursos materiais. E como encontramos no Maimônides, a forma mais elevada é dar um presente, empréstimo ou parceria que irá resultar no receptor ser autossustentável, em vez de viver com o auxílio dos outros, ou seja “não dar o peixe e sim ensinar a pescar”. Assim, agiu a minha amiga Evelyn em sua vida.

* O Dr. Marcos Kisil é o fundador do IDIS e atualmente membro do Conselho Deliberativo.