Encontro reuniu especialistas para discutir justiça climática, financiamento, gestão de riscos e o papel das organizações sociais na construção de territórios mais resilientes
Como as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) podem se preparar para eventos climáticos extremos antes que eles aconteçam? E qual é o papel da filantropia e do investimento social privado na construção de territórios mais resilientes?
Essas foram algumas das questões que orientaram o webinar “Justiça climática, prevenção e resiliência: o papel das OSCs na redução de riscos climáticos”, promovido pelo IDIS no dia 6 de agosto, como evento paralelo à São Paulo Climate Week. O encontro reuniu profissionais do terceiro setor e especialistas para discutir caminhos práticos para incorporar a gestão de riscos climáticos à atuação das organizações sociais.
Ao longo da conversa, um ponto atravessou diferentes momentos do debate: diante de eventos extremos cada vez mais frequentes, responder às emergências continua sendo necessário, mas já não é suficiente. É preciso investir também em prevenção, preparação e fortalecimento das capacidades locais antes que as crises aconteçam.
Mudanças climáticas também são uma questão de gestão
Na abertura do encontro, o IDIS apresentou reflexões da nota técnica “Adaptação às mudanças climáticas: como promover a justiça climática através da gestão de riscos para investidores e organizações sociais”, elaborada por Marcelo Modesto, gerente de projetos do IDIS, e Yasmim Araujo Lopes, analista de projetos do IDIS.
A publicação parte do entendimento de que os riscos climáticos afetam também organizações que não têm o meio ambiente como causa principal. Enchentes, ondas de calor, secas e outros eventos extremos podem interromper atividades, elevar custos, afetar equipes e infraestruturas e, ao mesmo tempo, aumentar a demanda pelos serviços prestados às populações mais vulneráveis.
Durante o webinar, Yasmim apresentou conceitos e ferramentas para que OSCs e investidores sociais incorporem essa perspectiva ao planejamento institucional. A proposta é ampliar a capacidade das organizações de identificar vulnerabilidades, avaliar riscos e tomar decisões que contribuam para a continuidade de suas atividades e para a proteção das comunidades com as quais atuam.
A discussão reforçou ainda a dimensão da justiça climática. Os impactos das mudanças do clima não são distribuídos de maneira uniforme: territórios e populações que já convivem com desigualdades sociais e econômicas tendem a estar mais expostos e a contar com menos recursos para prevenção, adaptação e recuperação.
Recursos precisam chegar a quem está na ponta
Após a apresentação, uma mesa-redonda mediada por Marcelo Modesto, gerente de projetos do IDIS, reuniu Tatiana Lobão, gerente de Engajamento, Agentes de Mudança e Governança Climática do Instituto Clima e Sociedade (iCS), e Mariana de Assis, coordenadora de projetos do Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICOM).
Entre os temas debatidos estiveram o financiamento climático, o fortalecimento da governança local e a importância de reconhecer OSCs e atores territoriais como parte essencial das estratégias de adaptação.
A experiência do iCS reforça que soluções para a adaptação climática já estão sendo desenvolvidas localmente e que um dos desafios é criar condições para fortalecê-las e ampliar seu alcance.
“Muitas das respostas para os desafios climáticos já existem e merecem ser reconhecidas, fortalecidas e conectadas”, afirma Tatiana Lobão.
A perspectiva dialoga diretamente com um dos pontos centrais do encontro: mais do que disponibilizar recursos para a agenda climática, é necessário criar condições para que eles sejam acessíveis às organizações que conhecem de perto os riscos, vulnerabilidades e potencialidades de cada território.
Nesse processo, organizações locais podem exercer um papel fundamental na articulação de diferentes atores, no mapeamento de riscos, na mobilização de recursos e na construção de respostas adaptadas às realidades das comunidades.
Essa abordagem também amplia a compreensão sobre o financiamento climático: recursos podem apoiar não apenas a reconstrução depois de uma emergência, mas também ações de preparação, desenvolvimento institucional, construção de redes, inteligência territorial e governança.
Fundos emergenciais preventivos: recursos disponíveis antes da crise
Um dos exemplos práticos apresentados no debate são os Fundos Emergenciais Preventivos (FEPs), mecanismo que vem sendo desenvolvido no âmbito do Programa Transformando Territórios, iniciativa do IDIS com a Charles Stewart Mott Foundation.
Com metodologia e assessoria técnica do ICOM e parceria do Movimento Bem Maior e da Fundação FEAC, seis Fundações e Institutos Comunitários de diferentes regiões do Brasil estão sendo apoiados para criar mecanismos permanentes de prevenção e preparação para emergências. Quatro já concluíram a estruturação de seus fundos e receberam aportes iniciais de R$ 50 mil, enquanto outros dois estão em fase de implementação.
A lógica é simples, mas ainda pouco explorada no Brasil: organizar recursos e capacidades durante períodos de normalidade, e não apenas mobilizá-los quando uma emergência já está instalada.
A experiência acumulada pelo ICOM na resposta a eventos extremos também demonstra que a atuação territorial depende de articulação entre diferentes setores. Ao abordar o tema da prevenção climática, Mariana de Assis já destacou a necessidade de transformar essa preocupação em planejamento:
“É preciso que a resposta à crise climática, ações de prevenção [e] redução de riscos […] façam parte dos planos de governo”, defende Mariana.
No webinar, a experiência do ICOM ajudou a mostrar que essa preparação não se restringe à existência de recursos financeiros. Os fundos podem contribuir para fortalecer redes locais, produzir e organizar informações sobre riscos, definir protocolos, mobilizar organizações e comunidades e criar estruturas de governança capazes de agir de maneira mais rápida e coordenada diante de eventos extremos.
Dessa forma, o recurso financeiro é apenas uma das dimensões do mecanismo; igualmente importantes são as capacidades e relações construídas no território.
Assista à gravação
A gravação completa do webinar está disponível no canal do IDIS no YouTube:
Para se aprofundar no tema, acesse também a nota técnica “Adaptação às mudanças climáticas: como promover a justiça climática através da gestão de riscos para investidores e organizações sociais”, que apresenta diretrizes de atuação e um framework para apoiar OSCs e investidores sociais na identificação, avaliação e gestão dos riscos relacionados ao clima.

