Avaliação de Retorno Social do Investimento (SROI), conduzida pelo IDIS, mostra que a cada R$ 1 investido na Orquestra Maré do Amanhã gera R$ 4,03 em benefício social.
Um estudo inédito conduzido pelo IDIS revela que a Orquestra Maré do Amanhã (OMA) gera um impacto social que vai muito além da formação musical. Pela metodologia internacional SROI (Social Return on Investment), o relatório aponta que, a cada R$ 1 investido na instituição foram gerados R$ 4,03 em valor social, o equivalente a um retorno líquido de quase R$ 29 milhões para a sociedade. Para mensurar, de forma monetizada, as mudanças provocadas na vida dos beneficiários, o levantamento combinou entrevistas em profundidade, grupos focais e questionários quantitativos aplicados a diferentes públicos atendidos pela entidade no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, desde crianças da musicalização infantil até jovens da Camerata Principal. Ao longo de seus 16 anos de atuação, a Orquestra Maré do Amanhã já beneficiou diretamente mais de 17 mil crianças e jovens.

Orquestra Maré do Amanhã em apresentação durante o Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2026
“O expressivo resultado da avaliação SROI, em que o retorno social é quatro vezes o valor investido na iniciativa, é reflexo de um trabalho que alia rigor metodológico e paixão. Transformação social efetiva só é possível com a realização de um trabalho de desenvolvimento integral, com uma atuação de longo prazo na multidimensionalidade da vulnerabilidade”, comenta Daniel Barretti, gerente de Monitoramento e Avaliação do IDIS.
Fundada em agosto de 2010 pelo jornalista Carlos Eduardo Prazeres, a Orquestra Maré do Amanhã nasceu em homenagem ao maestro Armando Prazeres, reconhecido internacionalmente pelo trabalho de difusão da música clássica. Sequestrado e assassinado em 1999, Armando teve o carro encontrado justamente na Maré, território escolhido pelo filho para transformar uma tragédia em legado. O que começou com 30 alunos em uma escola pública tornou-se uma instituição reconhecida nacional e internacionalmente, com sede própria, atuação em 24 Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs), seis escolas municipais e o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro.
“Desde o início, a Orquestra Maré do Amanhã foi construída com muito compromisso, seriedade e transparência. Sempre acreditamos que a música era capaz de transformar vidas e acompanhamos essa mudança ao longo dos anos. O estudo do IDIS nos dá algo muito valioso: evidências. Ele organiza esse impacto em indicadores, mostra onde somos mais fortes, aponta oportunidades de evolução e nos ajuda a planejar os próximos passos. É uma ferramenta de gestão que fortalece a instituição internamente e também oferece ainda mais segurança aos parceiros que acreditam e investem na OMA”, afirma Carlos Eduardo Prazeres.
Um dos pontos centrais do estudo é a descoberta de que o impacto social cresce à medida que aumenta o tempo de permanência do aluno na Orquestra. Embora a musicalização infantil responda pela maior parcela do retorno social total, em razão da escala do atendimento — hoje são cerca de 3.700 alunos nas pré-escolas da rede municipal —, é entre os jovens que permanecem por mais tempo no projeto que o valor social gerado por participante alcança os maiores patamares, superando R$ 200 mil ao longo da trajetória. O dado reforça que a transformação promovida pela instituição se aprofunda conforme crianças e adolescentes constroem um vínculo duradouro com a Orquestra.
Os irmãos Daniel e Thalia Carvalho, de 26 e 29 anos, ilustram esse percurso. Integrantes da OMA desde 2012, o violoncelista e a contrabaixista conquistaram muito mais do que domínio técnico de seus instrumentos. Filhos e netos de empregadas domésticas, tornaram-se a primeira geração da família a ingressar no ensino superior. Hoje, além de integrarem a Camerata Principal e terem atuado como monitores na formação de novos músicos da comunidade, estão concluindo os cursos de Farmácia e Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O estudo também demonstra que os efeitos da Orquestra Maré do Amanhã extrapolam o aprendizado musical. Entre os principais resultados identificados estão o fortalecimento de competências socioemocionais, como resiliência, autoconfiança, autogestão e habilidades de relacionamento, além do desenvolvimento de capacidades cognitivas e motoras, incluindo percepção auditiva, coordenação motora fina e ampla, além de concentração. Tais aspectos foram apontados por educadores da rede municipal como especialmente relevantes para crianças de 4 a 6 anos.
A pesquisa qualitativa, conduzida pelo IDIS, também identificou uma mudança significativa na forma como a própria comunidade enxerga a Orquestra Maré do Amanhã. O que antes era visto principalmente como uma atividade de contraturno para manter crianças em um ambiente seguro passou a ser reconhecido pelas famílias como um investimento em educação, desenvolvimento humano e construção de futuro. Essa mudança ajuda, inclusive, a reduzir a pressão para que adolescentes abandonem os estudos em busca de renda imediata. Entre as recomendações do estudo estão a ampliação de recitais e concertos abertos ao território, o fortalecimento do relacionamento com pais e responsáveis, e o aperfeiçoamento contínuo dos sistemas de monitoramento da instituição.
Como desdobramento das evidências produzidas pelo estudo, a Orquestra, com apoio da mantenedora Petrogal Brasil (JV Galp | Sinopec), criou um núcleo de formação profissionalizante voltado a músicos acima de 25 anos com vocação, técnica avançada e interesse em seguir carreira na música clássica. Dos 12 integrantes da primeira turma do Grupo Formativo Galp, iniciada em 2025, dois já conquistaram vagas na Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem e uma foi aprovada para o curso de Música da UFRJ. “O retorno de um investimento social não se mede apenas em indicadores, embora eles sejam importantes. Mede-se também quantas vidas são transformadas por meio da música. Quando jovens de uma comunidade vulnerável brasileira ampliam suas perspectivas de futuro, ingressam na universidade, constroem uma carreira na música e levam o nome da Maré para palcos no Brasil e no exterior, temos a certeza de que iniciativas sólidas e bem estruturadas são capazes de gerar valor para toda a sociedade”, destaca Paula Pereira da Silva, country manager Brasil da Petrogal Brasil.
