Climate Week NYC 2026: conexões globais e uma agenda comum para a América Latina

Por Guilherme Sylos, diretor de Prospecção e Parcerias do IDIS

Durante alguns dias de setembro, Nova York se transforma em um grande ponto de encontro para lideranças de diferentes partes do mundo. Realizada em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas, a Climate Week NYC reúne organizações da sociedade civil, empresas, investidores, fundações e representantes de governos em uma extensa agenda de debates e encontros.

Representando o IDIS, participei de diferentes atividades ao longo da semana, com uma agenda que passou por discussões sobre a realidade das organizações da sociedade civil, filantropia na América Latina e os desafios para a construção de parcerias e redes mais efetivas.

Minha participação começou junto à CAF – Charities Aid Foundation, rede da qual o IDIS faz parte, em uma agenda que marcou o lançamento do World Giving Report: Panorama das ONGs 2026. A publicação global reúne as perspectivas de mais de 5 mil lideranças de organizações de propósito social em 33 países e busca compreender os desafios enfrentados pelo setor, suas prioridades e as condições necessárias para ampliar sua resiliência.

Entre os resultados globais, 67% das organizações respondentes afirmaram ter enfrentado aumento na demanda por seus serviços no último ano. Ao mesmo tempo, menos de quatro em cada dez se consideram bem posicionadas para alcançar sucesso no futuro, e 92% identificam ao menos uma forma pela qual financiadores poderiam apoiá-las para além do repasse de recursos.

No Brasil, a pesquisa contou com 195 organizações respondentes e os resultados apresentam pontos de forte conexão com o cenário internacional. Por aqui, 66% também registraram aumento na demanda por seus serviços, enquanto 78% esperam que ela continue crescendo. O IDIS publicou uma análise específica dos resultados brasileiros, aprofundando questões como qualidade e flexibilidade dos recursos, mensuração de impacto e desenvolvimento institucional.

Conheça a análise do IDIS sobre os dados brasileiros do World Giving Report 2026: Charity Insights

Os encontros promovidos pela CAF criaram espaço para discutir o que esses números significam em diferentes contextos. Em uma das sessões, pude contribuir trazendo uma leitura do cenário brasileiro em comparação aos resultados globais e trocar perspectivas com representantes de outros países. Chama a atenção o quanto alguns desafios atravessam fronteiras. Pressão por mais recursos, aumento da demanda e necessidade de fortalecer as próprias organizações aparecem em diferentes contextos, ainda que cada país tenha suas particularidades.

Outra discussão que me marcou ao longo da semana foi justamente sobre a América Latina e nossa capacidade de construir uma agenda mais integrada.

Do ponto de vista de outras regiões do mundo, é comum que a América Latina seja percebida como uma unidade. Internamente, entretanto, ainda atuamos muito a partir das fronteiras de cada país. Brasil, México, Argentina, Colômbia e outros países da região compartilham muitos desafios sociais, econômicos e ambientais, além de características semelhantes no perfil da filantropia e dos investidores sociais, mas nem sempre construímos respostas ou espaços de aprendizagem em conjunto.

Durante a conversa, surgiu inclusive uma provocação sobre a língua portuguesa como uma possível barreira para uma maior integração do Brasil com seus vizinhos. A diferença linguística existe, mas não explica tudo. Temos desafios bastante próximos e há espaço para ampliar muito mais as trocas, o aprendizado e a construção conjunta entre os países.

Mais do que nos reconhecermos como parte da América Latina, precisamos pensar no que podemos fazer enquanto região.

 

Parcerias e inteligência artificial

Essa reflexão se conectou também a uma sessão promovida pela Latimpacto, no escritório do Mattos Filho, dedicada à construção de parcerias e redes. Participantes de diferentes países compartilharam experiências e desafios para colocar a colaboração em prática. Alguns temas reapareceram ao longo da conversa: confiança, transparência, accountability e a dificuldade de equilibrar os interesses institucionais e o protagonismo das organizações envolvidas. São questões conhecidas por quem trabalha com alianças, mas justamente por continuarem aparecendo em diferentes espaços e países, mostram que ainda temos trabalho a fazer.

A semana também teve diversos momentos voltados à construção de relações, incluindo um encontro promovido pela Skoll Foundation com parceiros de diferentes partes do mundo.

Uma última reflexão veio justamente de um tema que praticamente não apareceu nas sessões das quais participei: inteligência artificial. Depois de acompanhar tantos debates recentes sobre os impactos da IA nas organizações, no trabalho e na sociedade, esperava encontrá-la também de forma mais presente nessas conversas.

Fiquei com duas hipóteses. Uma é que muitas organizações ainda não incorporaram efetivamente essas ferramentas e, por isso, o tema ainda não chegou com força a determinadas discussões. A outra é quase o oposto, de que talvez a inteligência artificial esteja se tornando tão incorporada à rotina que começamos a deixar de tratá-la como uma agenda isolada.

De resumo da semana, ficou a importância das conexões construídas nesses espaços. Os desafios que enfrentamos dificilmente respeitam fronteiras nacionais. Isso vale para a crise climática, para a sustentabilidade das organizações sociais e para o desenvolvimento da filantropia. Para o Brasil e para a América Latina, há uma oportunidade de transformar desafios semelhantes em mais colaboração, conhecimento compartilhado e capacidade de ação conjunta.