Entre o uso difuso e a ausência de estratégia

Artigo publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

Por Henrique Barreto, gerente de projetos do IDIS, e Cássio Aoqui, cofundador do Canal SabIAr

Há um equívoco recorrente no debate sobre inovação no terceiro setor: o de que as organizações da sociedade civil ainda estão à margem da transformação digital. Os dados mais recentes do Programa IA.3, realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – IDIS com parceria técnica do Canal SabIAr e suporte do Google.org, mostram o contrário. A inteligência artificial já entrou no cotidiano das organizações da sociedade civil brasileiras, mas ainda de forma fragmentada, pouco estruturada e, em muitos casos, desprotegida.

A análise de 532 organizações inscritas no programa revela um cenário que merece atenção. Trata-se de uma amostra diversa, com organizações de diferentes portes (51% pequeno, 23% médio e 27% grande) e presença nacional, ainda que com concentração no Sudeste (62%). Esse recorte, embora não representativo de todo o setor, oferece pistas relevantes sobre tendências em curso.

Apenas uma minoria declara não utilizar IA no dia a dia. Em contrapartida, a institucionalização desse uso é incipiente com cerca de 40% das organizações apresentando baixo ou nenhum nível de formalização, o que indica que a tecnologia está mais presente como iniciativa individual do que como estratégia organizacional. A própria maturidade média na adoção de IA é intermediária (1,9 em uma escala de 0 a 4), com a institucionalização aparecendo como a dimensão mais frágil.

Henrique Barreto, gerente de projetos do IDIS, em apresentação sobre inteligência artificial no terceiro setor durante FIFE 2026

Esse descompasso, entre alto uso e baixa governança, é o ponto central da discussão. A IA já está sendo usada para tarefas operacionais, comunicação e apoio à gestão. No entanto, ela ainda não foi plenamente incorporada como ferramenta de desenvolvimento institucional. Faltam direção, investimento e, sobretudo, diretrizes claras.

E os dados são contundentes, 95% das organizações não possuem políticas ou orientações formais para o uso de IA. Ao mesmo tempo, 75% utilizam ferramentas gratuitas, muitas vezes sem garantias adequadas de segurança ou proteção de dados. Trata-se de uma combinação arriscada, especialmente em um setor que lida diretamente com populações em situação de vulnerabilidade e, por consequência, com informações sensíveis.

Outro dado revelador diz respeito às barreiras percebidas. A falta de conhecimento e o custo das ferramentas aparecem como os principais entraves à adoção. Não por acaso, começam a surgir iniciativas de capacitação em IA e tecnologia voltadas às organizações sociais, como o próprio programa IA.3 – Inteligência Artificial para o Terceiro Setor. Já os riscos éticos e de privacidade são pouco mencionados. Apenas 15% das organizações os apontam como barreira, o que sugere não uma ausência de riscos, mas uma lacuna de compreensão sobre eles. Em outras palavras, o debate sobre uso responsável ainda não acompanhou a velocidade da adoção da tecnologia.

Isso, no entanto, não diminui o potencial transformador da IA para o terceiro setor, pelo contrário. Organizações que conseguem integrar tecnologia à sua estratégia institucional ampliam sua capacidade de análise, ganham eficiência operacional e fortalecem sua incidência. Em um contexto de crescente pressão por resultados e transparência, isso é central.

Mas há uma diferença importante entre usar e saber usar. O que os dados indicam é que o terceiro setor brasileiro já atravessou a fase da experimentação inicial, mas ainda não consolidou uma cultura de uso estratégico da inteligência artificial. E essa transição não acontecerá espontaneamente.

Ela exige investimento, não apenas financeiro, mas também em formação, governança e cultura organizacional. Exige que lideranças incorporem o tema como parte da agenda institucional, e não como curiosidade tecnológica. E exige, sobretudo, que o campo da filantropia reconheça seu papel nesse processo: apoiar o fortalecimento digital das organizações como parte indissociável do fortalecimento da sociedade civil.

A inteligência artificial não é neutra, nem inevitavelmente benéfica. Seu impacto depende das escolhas que fazemos agora. No terceiro setor, isso significa sair do uso disperso e avançar para uma adoção consciente e orientada por propósito. O desafio já não é acessar a tecnologia, mas criar condições para que seu uso seja estratégico, ético e responsável.