A filantropia como infraestrutura diante da crise climática

Artigo publicado originalmente no Um Só Planeta

Por Marcelo Modesto, gerente da área ESG do IDIS.

As cenas se repetem e, a cada ano, com mais intensidade. Ruas transformadas em rios, famílias desalojadas, serviços públicos colapsados. De Juiz de Fora, com seus episódios recentes de enchentes e desafios nos planos de contingência, a diversas regiões metropolitanas e cidades, o país está cada vez mais vulnerável a eventos extremos. O que se vê não é mais um momento excepcional, mas um padrão consolidado.

Segundo dados recentes lançados pela Ipsos, cerca de um quarto da população já precisou se deslocar por conta de eventos extremos, evidenciando, cada vez mais, que a crise não é apenas ambiental, mas social, econômica e humanitária. O deslocamento forçado rompe vínculos territoriais, além de agravar desigualdades históricas, afetando de forma mais intensa populações já vulnerabilizadas.

O relatório Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2026, lançado pelo IDIS, apresenta também um diagnóstico central de que o clima não é mais uma agenda entre outras, mas um fator estruturante que atravessa todas as dimensões: saúde, educação, segurança alimentar, habitação e renda.

È justamente nesse ponto que um debate ainda pouco amadurecido no Brasil precisa avançar: o papel da filantropia como parte da infraestrutura de resposta a crises. Em situações de desastre, o tempo é o recurso mais escasso. O Estado, por mais preparado que possa estar para enfrentar situações como essas, opera com algumas limitações que podem dificultar respostas imediatas na celeridade necessária.

A filantropia, nesse sentido, tem atributos que a tornam particularmente relevante nesses contextos, como maior flexibilidade, rapidez na alocação e direcionamento de recursos, além de uma maior capacidade para assumir riscos.

Fundos emergenciais, por exemplo, permitem mobilizar recursos direcionando apoio a territórios críticos antes mesmo que estruturas públicas consigam se reorganizar. Organizações da sociedade civil, por sua vez, atuam como braços operacionais essenciais, já que estão inseridas nos territórios e conhecem, com precisão, quem precisa de ajuda e como chegar até essas pessoas no momento em que elas mais precisam.

O campo do investimento social privado já demonstra mobilização significativa em desastres. Mas ainda há um desequilíbrio, uma vez que a maior parte das ações se concentra na resposta imediata após eventos climáticos extremos, com pouca incidência em prevenção e adaptação.

Considerando as evidências científicas de que eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes e intensos, as respostas não podem continuar baseadas apenas em resoluções momentâneas. Nesse sentido, a filantropia deve ser tratada como parceira estratégica capaz de ampliar velocidade, alcance e efetividade, atuando colaborativamente com o estado e iniciativas privadas.

Isso implica, na prática, fortalecer fundos de emergência permanentes, com governança e capacidade de rápida ativação; investir na preparação dos territórios, financiando prevenção, adaptação e resiliência; apoiar organizações locais, que são as primeiras a responder e as últimas a sair; e, sobretudo, atuar de forma articulada, reduzindo lacunas entre planejamento e execução. Especialmente em agendas sensíveis, como é o caso dos desastres climáticos, essa integração é indispensável para solucionarmos os desafios que temos à frente.

Belém: um marco histórico para a COP30 e a ação climática

Artigo publicado originalmente na Alliance Magazine, no dia 09/01/2026

Por Luisa Lima, gerente de comunicação e conhecimento no IDIS; e Marijana Sevic, Head da CAF International

Para quem duvidava, Belém provou estar não apenas pronta, mas ser o lugar ideal para sediar a COP30 no Brasil. A natureza está por toda parte – prova viva de que o meio ambiente e o clima importam. O evento foi um marco histórico ao levar a agenda climática global para o coração da Amazônia, uma região vital para as soluções climáticas e para a biodiversidade.

Foi notável testemunhar a diversidade de vozes reunidas de todas as partes do mundo: lideranças governamentais, executivos do setor privado, representantes da sociedade civil, movimentos sociais, grupos de juventude, especialistas e não especialistas em clima, ao lado dos cidadãos de Belém, ansiosos para acompanhar as discussões.

A liderança do Brasil foi decisiva – não apenas como país-sede, mas como uma nação na linha de frente dos impactos climáticos, oferecendo modelos inovadores de adaptação, resiliência e, sobretudo, desenvolvimento inclusivo.

Um compromisso compartilhado: filantropia e soluções climáticas

Viemos de diferentes partes do mundo – Reino Unido e Brasil – com experiências e perspectivas distintas sobre a COP. Ainda assim, por um dia, unimos forças para ampliar a conscientização sobre o papel da filantropia e o poder das parcerias no financiamento e nas soluções climáticas.

A CAF – Charities Aid Foundation e o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, junto com Latimpacto, GIFE, Sitawi e WINGS, com apoio da RD Saúde, realizaram o Dia da Filantropia – Parcerias Inovadoras para um Futuro Sustentável. Foi um chamado para nos unirmos em torno do compromisso compartilhado de fortalecer a filantropia global e acelerar soluções climáticas que beneficiem a todos.

Por que a filantropia importa na agenda climática

A crise climática já não é uma ameaça distante; é uma realidade presente, impactando comunidades global e localmente. Somente no Brasil, o último ano trouxe dez eventos climáticos extremos, incluindo enchentes, secas e incêndios sem precedentes. O progresso não pode depender apenas de acordos internacionais ou de políticas públicas. Ele exige, sobretudo, ação coordenada em todos os setores, mobilização estratégica de recursos e colaboração contínua.

A filantropia e os investidores socioambientais desempenham um papel central nesse ecossistema. Eles trazem agilidade, inovação e disposição para assumir riscos onde outros podem estar limitados. A filantropia semeia novas soluções, fortalece lideranças locais e catalisa mudanças mais amplas. Direciona capital para gerar impacto positivo, fomenta redes e amplifica vozes historicamente marginalizadas. Modelos inovadores de finanças combinadas (blended finance), embora desafiadores, vêm gerando aprendizados valiosos e resultados significativos.

Destaques do DIA DA FILANTROPIA

O evento refletiu, principalmente, essas prioridades, convidando o público a se engajar, aprender e colaborar. Ofereceu uma imersão em novas dinâmicas filantrópicas que aceleram soluções climáticas, apresentando experiências práticas e inspiradoras de diferentes atores que enfrentam desafios ambientais. As estratégias variaram da adaptação comunitária e reconstrução pós-desastre a ações estruturais voltadas à justiça climática, ao desenvolvimento socioambiental, à inovação tecnológica, à transição energética e a políticas públicas equitativas.

A filantropia está longe de ser monolítica. Ela abrange doação individual, fundações familiares, investimento social corporativo, filantropia comunitária e capital de impacto – cada um trazendo forças, flexibilidade e inovação próprias. Ela constrói redes e alianças que amplificam o impacto e impulsionam mudanças sistêmicas. A colaboração nos níveis local, nacional e internacional destrava financiamento catalítico, promove inovação e fortalece comunidades resilientes por meio de modelos inclusivos, flexíveis e sustentáveis. Como disse a filantropa brasileira Ilana Minev: “Todos ganham quando combinamos conhecimentos e esforços.”

Vozes do evento

Ao apresentar cada painel, lideranças comunitárias compartilharam falas contundentes. Rose Apurinã, Vice-Presidenta Executiva do Fundo Indígena Brasileiro Podaali, nos lembrou: “Não se trata apenas de recursos financeiros. Trata-se de redistribuir poder, construir alianças e amplificar vozes locais. Porque a resposta à crise climática não é um ator ou um setor – somos todos nós, juntos.”

Na sessão de encerramento, Erika Miller, Head de Clima da WINGS, resumiu: “A colaboração exige humildade, visão de longo prazo, transparência e comunicação clara. Ela não acontece por acaso – requer compromisso e disposição real para compartilhar espaço. A filantropia é diversa, mas, em sua essência, é uma conectora. E esse tecido conectivo é exatamente o que nosso setor precisa mobilizar se quisermos responder à escala da crise climática.”

Olhando para o futuro

O futuro da ação climática depende desse esforço coletivo. A COP30 é um momento para refletir, conectar e assumir compromissos – para aproveitar todo o potencial da filantropia na construção de um futuro justo, resiliente e sustentável para todos. Vamos abraçar a construção coletiva de novos caminhos, valorizando a coragem, a escuta ativa e alianças diversas.

A filantropia tem um enorme potencial para impulsionar soluções climáticas, mas apenas se agirmos juntos.