Encontro global convoca filantropia para ação

No WINGS Fórum 2026, em Montreal, foco nas comunidades, ampliação do financiamento flexível e plurianual e contribuição para o fortalecimento da sociedade civil e da democracia foram temas de destaque

Por Luisa Lima, gerente de comunicação e conhecimento no IDIS

A cada três anos, a WINGS nos brinda com a oportunidade de desconectar da ação diária e adentrar a sala de máquinas, ver de perto as engrenagens que movem a filantropia e dedicar tempo e reflexão para torná-las melhores e mais conectadas aos desafios contemporâneos. No panorama, há questões globais como a crise da democracia e do multilateralismo, as mudanças climáticas e a revolução digital. Nesta edição o convite foi de AGIR, explorando as dimensões da ativação, da colaboração, em especial com o governo, e da transcendência.

Entre plenárias, sessões simultâneas e workshops, foi unânime o debate sobre a importância de colocar os territórios e comunidades impactadas no centro de toda e qualquer decisão. O foco da filantropia deve ser o impacto socioambiental, e, por isso, os indicadores do financiador devem ser adaptados a ele – não o oposto. Financiadores também devem ter mais compromisso com o risco, que é inevitável, mas que hoje recai especialmente sobre as comunidades. Binaifer Nowrojee, presidente da Open Society, destacou que nosso sistema está afastando as organizações de base, que estão precisando dedicar cada vez mais tempo e recursos para atender às demandas e falar a língua do financiador.

Também está em alta a questão do financiamento flexível e plurianual. Noorain Khan, CIO da Ford Foundation, chegou a fazer um apelo pelo fim de apoios com duração de apenas um ano. Fala em apoio por três anos, ainda que entre o público, a crença foi de que este prazo ainda é insuficiente para gerar mudanças sistêmicas.

Mecanismos de governança e accountability contribuem para gerar uma relação de confiança. A necessidade da construção de uma linguagem comum, que nos permita criar narrativas para a filantropia que se complementem e reforcem umas às outras, também foi tema abordado repetidas vezes.

Não ficaram de fora o fortalecimento das culturas de doação e a importância do apoio da filantropia à democracia e aos direitos humanos. Foi o primeiro encontro da rede depois dos cortes da USAID e dos muitos outros que se seguiram. Inúmeras organizações estão em xeque, sofrendo ataques diretos, para além do estrangulamento do financiamento.

A jornalista filipina Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2021 e copresidente do painel científico da ONU sobre Inteligência Artificial, alertou que a IA sem limites ameaça a autonomia humana, a democracia e a segurança pública.

 

Filantropia na América Latina e no Caribe

Apesar do caráter global, há inúmeros espaços para aprofundar questões específicas sobre causas e também temas locais e regionais, identificando pontos em comum, diferenças e oportunidades de colaboração. Por dois dias, prévios ao início da conferência, participei do encontro do grupo formado por lideranças da América Latina e Caribe para a criação de planos conjuntos para a região.

Somos 33 países que, além da geografia e multiplicidade de povos, temos em comum um passado colonial que deixou marcas profundas na constituição de nossas sociedades, raízes de muitas das desigualdades que enfrentamos atualmente.

Certamente há especificidades em cada país e não é óbvio encontrar o que efetivamente nos une e como podemos efetivamente agir juntos. Para um alinhamento inicial, fizemos um exercício de mapeamento de tendências, buscando identificar pontos nevrálgicos da região e que será sistematizado na segunda edição de um relatório a ser publicado pelo grupo.

Ficou claro o desafio de construção de confiança, dado que organizações da sociedade civil, em todos os países, sofrem ataques, ainda que com intensidades diferentes. A região conta com relativamente poucos dados sobre filantropia, fluxo de recursos e impacto, o que acaba trazendo também desafios para uma narrativa mais engajadora e com taxonomia comum. A colaboração para atingirmos melhores resultados foi destaque, mas uma barreira que se impõe é justamente financeira: colaboração demanda dinheiro e há poucas fontes disponíveis para esse tipo de ação. Ainda assim, trabalhamos em um protótipo, um ponto de partida para uma ação regional.

Além deste grupo, há também outros dois dedicados à filantropia na África e na Ásia-Pacífico. Houve um tempo dedicados para trocas entre os três, com identificação de pontos de convergência e especificidades.

Ecossistema em constante busca por equilíbrio

A analogia da filantropia a um ecossistema é recorrente. Nele, devemos criar as condições para que cada um possa atingir o seu potencial máximo e contribuir, em última instância, para um mundo melhor e menos desigual para todos. Para além de doadores e beneficiários da doação, que já apresentam uma grande diversidade, há intermediários, organizações de suporte, como o IDIS, think tanks, agências do governo, órgãos multilaterais, bancos de desenvolvimento. Não faltam exemplos de ações maravilhosas realizadas por cada um deles. Ninguém está parado, como destacou Benjamin Bellegy, diretor executivo da WINGS. Mas, como em qualquer ecossistema, é necessária ação coordenada, com cada um desempenhando uma função clara e apoiando uns aos outros, havendo um equilíbrio tênue ao qual sempre devemos estar atentos.

Os dias foram intensos, com provocações que levavam cada um a efetivamente avaliar se suas organizações estão indo na melhor direção e velocidade. Se o tamanho do desafio pode gerar ansiedade, Andrew Chunilall, CEO do Community Foundations of Canada (CFC), conforta: “Generosidade está na nossa origem. As fundações foram criadas para organizar a generosidade. Nós nos perdemos no caminho, transformando generosidade em recursos financeiros. O foco a partir de agora deve ser destravar a generosidade, em suas múltiplas formas. A boa notícia é que ela já existe.”

Encontros como estes são essenciais para trazer à tona temas emergentes, criar uma base comum, entender movimentos globais, fortalecer mensagens, gerar conexões e energizar cada um dos participantes, para que possam fazer mais e melhor em suas organizações, salvar vidas e gerar as transformações que desejamos ver.