Doar mais não basta, é preciso doar melhor

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 19 de outubro de 2026

Por Luisa Lima, gerente de comunicação e conhecimento do IDIS

A cada ano vemos crescer o debate sobre filantropia e o papel de empresas e famílias de alta renda no desenvolvimento socioambiental. Dados recentes do setor, entretanto, mostram um contraste incômodo: quanto mais se fala em impacto, mais frágil parece a base que sustenta quem está na linha de frente.

O World Giving Report: Panorama das ONGs 2026, estudo da CAF (Charities Aid Foundation) realizado no Brasil em parceria com o IDIS, ouviu 195 lideranças de organizações brasileiras e mais de 5.000 no mundo, e chegou a um diagnóstico que deveria ressoar junto a todo investidor socioambiental: o de que financiar não é o mesmo que fortalecer.

O cenário é de pressão crescente. No Brasil, 66% dos respondentes declaram que as organizações registraram aumento na demanda por seus serviços no último ano, e 78% esperam que ela continue crescendo. Ao mesmo tempo, 60% afirmam que sobreviveriam menos de um ano caso deixassem de receber recursos.

Dinheiro, neste sentido, é importante, mas não é apenas a falta dele que explica essa fragilidade. É também a forma como se doa e a qualidade do que se doa.

No Brasil, 72% dos recursos recebidos são restritos a finalidades específicas, o que limita a autonomia das organizações justamente quando mais precisam se adaptar.

Mecanismos de longo prazo, como fundos patrimoniais filantrópicos e testamentos solidários, que têm esse potencial, ainda são exceção: apenas 13% das organizações brasileiras contam com esse tipo de recurso.

Não é coincidência que, no recorte global, são exatamente as organizações com esse tipo de estrutura as que mais se sentem preparadas para o futuro. O dado é um convite direto a financiadores, indicando que recursos menos atrelados a projetos e perspectiva de longo prazo são fatores importantes.

Outro destaque é a relação entre confiança, transparência e capacidade de demonstrar e comunicar impacto. No Brasil, 31% das organizações consideram que capturam seu impacto de forma efetiva, mas apenas 17% dizem que já receberam apoio útil de financiadores para essa tarefa.

E não é falta de vontade, uma vez que 59% já estão construindo estruturas de mensuração. Muitas vezes, é falta de suporte para o desenvolvimento institucional das organizações para que elas o façam bem.

Depois de capturado o impacto é necessário torná-lo público e comunicá-lo, e aí temos outra revelação de dissonância. A comunicação do impacto não está entre as prioridades das ONGs, enquanto para os doadores, este é um dos fatores decisivos para doar mais.

Os achados dialogam diretamente com a Pesquisa Doação Brasil 2024, realizada pelo IDIS, que aponta que confiança e clareza sobre a atuação das organizações seguem entre os fatores mais determinantes para quem doa.

Medir e comunicar impacto, portanto, é a linguagem que sustenta a relação entre quem financia e quem executa, e deveria entrar na agenda de prioridades das ONGs com mais relevância.

Por trás desses números está um recado que consideramos urgente: organizações não pedem apenas mais dinheiro, pedem parceria. No Brasil, 77% gostariam que financiadores facilitassem conexões e aprendizado com outras organizações, 59% querem apoio estratégico e 54% demandam formação de lideranças.

Os números ganham sentido quando vemos que as lideranças brasileiras dedicam, em média, 68% do tempo a questões operacionais e apenas 32% ao pensamento estratégico. É difícil planejar o futuro quando toda a energia é consumida por resolver o presente.

Como organização que promove a filantropia estratégica no Brasil, defendemos no IDIS que apoiar o terceiro setor com responsabilidade significa ir além do repasse de recursos. É preciso financiar com flexibilidade, investir em governança, em pessoas, em redes e em capacidade de medir e comunicar resultados.

Resiliência não se constrói com urgência e projetos isolados, constrói-se com confiança e perspectiva de longo prazo para gerar as transformações que desejamos ver no Brasil.

 

 

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Além do financiamento: estudo global revela demandas das ONGs para ampliar sua resiliência

Dados do Brasil destacam a busca por recursos mais flexíveis e de longo prazo, o fortalecimento da mensuração de impacto e a demanda por apoio estratégico, desenvolvimento de lideranças e oportunidades de aprendizagem.

Em um cenário de aumento da demanda por serviços e pressão sobre a capacidade de atuação das organizações da sociedade civil, fortalecer sua resiliência se torna cada vez mais necessário. É o que revela o World Giving Report 2026: Panorama das ONGs, estudo da Charities Aid Foundation (CAF) que ouviu mais de 5 mil lideranças de organizações em 33 países. No Brasil, a pesquisa foi realizada em parceria com o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e contou com 195 participantes.

No Brasil, 66% das organizações respondentes afirmam ter registrado aumento na demanda por seus serviços, enquanto 78% esperam que ela continue crescendo. Os resultados reforçam a importância de olhar para as condições que permitem às organizações não apenas responder às necessidades imediatas, mas também planejar, adaptar-se e manter sua capacidade de atuação no longo prazo.

 

 

Qualidade dos recursos também importa

O levantamento mostra que a resiliência financeira passa não apenas pela diversificação das fontes, mas também pela qualidade dos recursos disponíveis. No Brasil, empresas e população em geral aparecem entre as fontes de financiamento mais presentes, mencionadas por 70% e 68% das organizações respondentes, respectivamente. Em média, as organizações brasileiras participantes recebem recursos de 3,5 fontes diferentes.

A flexibilidade, no entanto, permanece como questão relevante: 72% dos recursos recebidos pelas organizações brasileiras respondentes são restritos a finalidades específicas. Globalmente, o relatório mostra que, à medida que aumenta a proporção de financiamento restrito, cresce também a dificuldade das organizações para alcançar seus objetivos. Além disso, 60% das respondentes brasileiras afirmam que, caso deixassem de receber novos recursos, conseguiriam manter suas atividades por menos de um ano utilizando apenas reservas, investimentos ou receitas próprias.

Nesse contexto, mecanismos de financiamento de longo prazo, como fundos patrimoniais filantrópicos (endowments), legados e testamentos solidários, apresentam potencial para contribuir para a resiliência das organizações. No Brasil, 13% das respondentes recebem recursos dessas fontes. No recorte global, as organizações que contam com esse tipo de financiamento são as que mais se sentem financeira e operacionalmente preparadas para o futuro: 50%, ante 37% entre o conjunto das organizações pesquisadas.

 

Mensurar impacto para fortalecer confiança

Outro destaque é a relação entre confiança, transparência e capacidade de demonstrar e comunicar impacto. O estudo identifica uma possível distância entre aquilo que as organizações percebem como seus principais desafios e o que os doadores consideram importante: globalmente, 19% das organizações mencionam mensuração e demonstração de impacto entre seus principais desafios e apenas 6% citam a necessidade de persuadir as pessoas de que são confiáveis. Entre os doadores, porém, 63% apontam transparência ou comunicação de impacto entre as formas pelas quais as organizações poderiam incentivá-los a doar.

No Brasil, o desafio da mensuração é particularmente evidente. Apenas 31% das organizações consideram que capturam seu impacto de maneira efetiva e 29% utilizam uma estrutura formal para fazê-lo. Ao mesmo tempo, 59% afirmam estar desenvolvendo uma estrutura, indicando um movimento importante de fortalecimento dessa capacidade. Apenas 17% das respondentes brasileiras afirmam ter recebido de financiadores apoio considerado útil para mensurar seu impacto.

Os achados dialogam com a Pesquisa Doação Brasil, realizada pelo IDIS, que também aponta confiança e clareza sobre a atuação das organizações como elementos relevantes para fortalecer a relação com quem doa. Em conjunto, os estudos reforçam a importância de produzir evidências sobre os resultados alcançados e comunicá-las de maneira clara e transparente.

 

Desenvolvimento institucional está entre as demandas aos financiadores

O Panorama das ONGs mostra ainda que as organizações esperam dos financiadores apoio que vá além do repasse de recursos. No Brasil, 77% gostariam que financiadores facilitassem oportunidades de conexão e aprendizagem com organizações relevantes; 59% demandam aconselhamento ou apoio estratégico; e 54%, desenvolvimento e formação de lideranças.

Essa demanda ganha relevância quando observada a rotina das próprias lideranças: no Brasil, elas dedicam, em média, 68% de seu tempo às atividades operacionais e 32% ao trabalho estratégico de longo prazo. No cenário global, a pesquisa mostra que a maioria das lideranças gostaria de dedicar mais tempo a questões estratégicas, especialmente planejamento para o futuro e mobilização de recursos.

Segundo Luisa Lima, gerente de Comunicação e Conhecimento no IDIS:  “Os dados reforçam que a resiliência das organizações não depende apenas de quanto recurso conseguem mobilizar, mas também de como esse financiamento acontece e das capacidades que conseguem desenvolver. Recursos mais flexíveis e de longo prazo, aliados ao investimento em estratégia, governança, pessoas, redes e mensuração de impacto, dão às organizações melhores condições para planejar, aprender e responder às transformações e às demandas da sociedade.”

 

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Panorama das ONGs: capítulo Brasil é destaque em veículos de todo o país

O IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em parceria com a CAF – Charities Aid Foundation, lança o Panorama das ONGs: capítulo Brasil, relatório que integra o World Giving Report e apresenta uma leitura aprofundada do cenário das organizações da sociedade civil no país a partir da perspectiva das lideranças das organizações da sociedade civil.

 

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O estudo foi destaque em diferentes veículos de todo o país. Confira alguns destaques:

Folha de S.Paulo

Valor Econômico

GIFE

Impacta Nordeste

ESG Inside