Por Rosana Ferraiuolo, gerente do Programa Transformando Territórios
A passagem por Manaus, durante agendas da Comunidad Iberoamericana de Aprendizaje sobre Filantropía y Fundaciones Comunitarias (CIAF), visitas de campo e o Impact Minds, reforçou que, mais do que mobilizar recursos, é preciso fortalecer as relações, capacidades e mecanismos que permitem que eles cheguem aos territórios de forma conectada às suas realidades.
A pergunta que acompanhou a semana foi simples, mas exige respostas construídas coletivamente: se há recursos, conhecimento e organizações comprometidas com transformação social, como ampliar as condições para que tudo isso se conecte aos territórios de maneira consistente e permaneça para além dos projetos?
A semana começou antes do Impact Minds. Pelo programa Transformando Territórios, do IDIS, fomos anfitriões do encontro da CIAF, que reúne organizações de apoio e fundações comunitárias e territoriais de diferentes países. Durante dois dias, discutimos sustentabilidade, confiança, desenvolvimento de capacidades, mobilização de recursos e caminhos coletivos para fortalecer a filantropia comunitária e territorial na região.

Conferência da Latimpacto – Impact Minds
Depois vieram as visitas de campo, outras agendas e o próprio Impact Minds. Ao longo da semana, muitas das questões discutidas entre as organizações da CIAF reapareceram em outros espaços, por diferentes vozes e perspectivas: nas conversas sobre o futuro da filantropia, do Investimento Social Privado (ISP), do investimento de impacto e dos diferentes capitais que buscam gerar transformação.
Não há uma resposta única. Mas muito do que o setor tem buscado construir está na essência da filantropia comunitária e territorial, nas relações de confiança cultivadas ao longo do tempo, no conhecimento profundo das dinâmicas locais, no desenvolvimento de capacidades e na articulação entre atores que dificilmente se conectariam de outra forma.
São organizações que ajudam o recurso a chegar e, principalmente, a se conectar ao que o território já sabe, realiza e prioriza. Nesse processo, comunidades participam das decisões e se fortalecem condições para que as transformações permaneçam para além de um projeto ou financiamento.
O território já produz respostas
Em uma das visitas às mulheres apoiadas pela Manauara Associação Comunitária, fundação comunitária local, conhecemos uma liderança da comunidade Redenção, em Manaus, que atua no Projeto Reusa. Ao contar sua trajetória, ela definiu liderança comunitária de uma maneira simples e profunda: liderar é saber escutar.
Sua atuação reúne mulheres, cria oportunidades de geração de renda e mobiliza respostas para questões da comunidade. Ao mesmo tempo, ela não deseja transformar esse trabalho em uma organização social formal. Essa escolha revela algo importante sobre a forma como reconhecemos as potências dos territórios.
Muitas vezes, estamos acostumados a enxergar aquilo que cabe nas estruturas que já conhecemos, como o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), projetos com prazo definido, indicadores e processos formais de prestação de contas. A vida comunitária, no entanto, também se sustenta em relações de confiança, soluções cotidianas e formas próprias de organização.
Também conhecemos uma liderança venezuelana que encontrou acolhimento no Brasil e passou a apoiar outras mulheres migrantes, muitas delas com filhos e sem oportunidades de geração de renda. Quando começou a imaginar uma iniciativa mais estruturada, ouviu de muitas pessoas que sua ideia não daria certo. Escolheu seguir com as poucas que acreditaram. Hoje, apoia outras pessoas e reconhece que encontrou escuta, esperança e uma fundação comunitária capaz de olhar para ela para além do projeto que lidera.
Essas histórias lembram algo que pode parecer óbvio, mas nem sempre orienta a forma como os recursos são planejados: o território não começa quando chega um projeto ou um financiador. Já existem ali lideranças, relações, conhecimentos, soluções e formas próprias de organização.
Reconhecer esse ponto não diminui a importância dos recursos externos. Ao contrário, amplia sua potência. Quando o financiamento se conecta ao que já existe, pode fortalecer capacidades locais, apoiar lideranças, ampliar redes e contribuir para que soluções construídas no território ganhem escala, sustentabilidade e novas possibilidades de articulação.

Visita a territórios de Manaus
Aprender as linguagens do território
Em outra visita, a iniciativas lideradas por povos indígenas, uma reflexão sintetizou parte desse desafio. Há linguagens, tempos e formas de organização que nem sempre são plenamente compreendidos pelos mecanismos tradicionais da filantropia.
Falamos muito sobre preparar organizações para acessar recursos. Criamos capacitações, formulários, critérios e processos para que compreendam como a filantropia funciona. Esse esforço é importante. Mas há também uma oportunidade complementar de preparar financiadores, organizações de apoio e investidores sociais para compreender melhor como os territórios funcionam.
Os tempos indígenas, das comunidades tradicionais e das iniciativas sociais locais nem sempre são os tempos dos projetos. As formas de organização nem sempre correspondem às estruturas formais esperadas por financiadores. Por isso, a aproximação entre capital e território depende de tradução, escuta e construção de confiança entre pessoas e organizações que operam com linguagens, referências e responsabilidades diferentes.
Essa não é uma agenda de substituição de práticas, mas de aprimoramento. Critérios, governança, prestação de contas e monitoramento seguem sendo importantes, mas o ponto é combiná-los com mecanismos que reconheçam as dinâmicas locais, valorizem conhecimentos diversos e permitam que as comunidades participem das decisões que afetam suas vidas.
Inovar também é melhorar os caminhos do recurso
Nos últimos anos, o campo avançou na discussão sobre novos instrumentos financeiros, capital catalítico, investimento de impacto, filantropia baseada em confiança e formas mais estratégicas de mobilizar recursos. Tudo isso importa.
A experiência em Manaus, porém, reforçou que a inovação nos instrumentos de financiamento ganha mais força quando vem acompanhada de novas formas de escuta, articulação e tomada de decisão com os territórios.
Não se trata apenas de criar novos mecanismos, mas de aprimorar os caminhos pelos quais os recursos chegam. Como esse capital se conecta às lideranças locais? Quem participa das decisões? Quais relações são fortalecidas ao longo do processo? Que capacidades permanecem quando o financiamento termina?
Quando os mecanismos de financiamento consideram as relações já existentes, aumentam as chances de gerar efeitos mais consistentes e duradouros. Por outro lado, quando essas relações não são compreendidas, podem surgir efeitos não intencionais. Por isso, conhecer o território antes de investir é parte essencial da efetividade.
Essa discussão apareceu também no Impact Minds, quando chamou atenção o fato de que muitas comunidades ainda não estão nos mapas. E, quando não estão no mapa, muitas oportunidades simplesmente não chegam.
A produção de dados abertos pelas próprias comunidades também entrou na conversa. Elas não são apenas fontes de informação, mas podem produzir conhecimento, construir valor a partir desses dados e participar das decisões que serão tomadas com eles. Parece uma discussão sobre dados, mas é também sobre participação. Quem produz o conhecimento que orienta decisões? Quem aparece nos sistemas de financiamento? Como garantir que mais comunidades sejam reconhecidas como parceiras na construção das soluções?
Enxergar a comunidade como parceira, e não apenas como beneficiária, muda a lógica da conversa. Em vez de começar com “o que podemos levar para este território?”, a pergunta passa a ser “o que já existe aqui, o que este território sabe e o que podemos construir juntos?”

Paula Fabiani, CEO do IDIS, em palestra do Impact Minds
Confiança, capacidades e infraestrutura territorial
O desenvolvimento de capacidades atravessou várias conversas da semana. Uma ideia se destacou: não existe uma única capacidade capaz de transformar sistemas. É uma combinação.
Precisamos compreender melhor os problemas que queremos enfrentar. Produzimos muito conhecimento, mas ainda temos dificuldade de fazê-lo circular, interpretá-lo e utilizá-lo para tomar decisões. Precisamos cooperar, compartilhar decisões, produzir dados, criar ferramentas acessíveis, aprender uns com os outros e construir confiança. E tudo isso leva tempo.
Construir confiança, fortalecer uma organização, articular atores e mudar relações não cabe, necessariamente, no ciclo de um projeto. Por isso, a confiança apareceu tantas vezes nas conversas da semana como algo concreto. Sem ela, é difícil construir cooperação e sustentar relações de longo prazo.
Essas discussões dialogam diretamente com o que o IDIS tem aprendido e fortalecido por meio do Transformando Territórios, programa voltado ao desenvolvimento da filantropia comunitária e territorial no Brasil.
As organizações acompanhadas pelo programa atuam profundamente conectadas aos lugares onde estão inseridas. Conhecem lideranças, iniciativas sociais, empresas, poder público, desafios e oportunidades. Por essa proximidade, conseguem aproximar atores e recursos de realidades que dificilmente seriam compreendidas da mesma forma a partir de fora.
A partir dessa experiência, o IDIS tem fortalecido a compreensão de que essas organizações cumprem um papel essencial como parte de uma infraestrutura territorial para a filantropia comunitária no Brasil.
Infraestrutura, aqui, não significa centralizar decisões ou falar em nome do território. Significa criar condições para que recursos circulem, atores se encontrem, informações sejam produzidas e interpretadas, organizações locais sejam alcançadas, relações de confiança sejam construídas e soluções do próprio território encontrem novas conexões.
Falamos muito sobre quais projetos financiar. A experiência em Manaus reforçou que também precisamos discutir o que precisa existir no território para que esses investimentos façam sentido e funcionem melhor.

Visita a territórios de Manaus
Governança e confiança caminham juntas
Essa discussão também convida a rever a forma como equilibramos controle, confiança e colaboração. A busca por segurança, governança e prestação de contas é necessária. Ao mesmo tempo, ela ganha potência quando combinada com participação, escuta e decisões compartilhadas.
Essa colaboração também tem avançado entre organizações financiadoras, que vêm buscando formas de coordenar esforços, compartilhar aprendizados e construir agendas comuns. Esse movimento é importante para ampliar o alcance dos recursos e reduzir a fragmentação das iniciativas.
Colaborar exige reconhecer conhecimentos diferentes, construir acordos e aceitar que quem está mais próximo do problema precisa participar da construção da resposta.
Um coletivo não nasce apenas porque colocamos várias organizações na mesma mesa. Um território também não se fortalece simplesmente porque recebeu mais recursos. É preciso construir condições para que esses recursos encontrem e fortaleçam o que já existe.
Essa é uma agenda relevante para a filantropia, o ISP e o investimento de impacto. Precisamos continuar olhando para quanto capital conseguimos mobilizar, mas também para a qualidade das relações, capacidades e mecanismos que construímos para que esse capital gere transformações mais duradouras.
O que permanece quando o recurso sai?
Manaus tornou essa pergunta muito concreta.
Em uma grande cidade no coração da Amazônia, convivem riqueza, conhecimento, atividade econômica, desafios sociais e ambientais e comunidades que ainda encontram barreiras para acessar recursos. O território não foi cenário para as conversas. Foi parte delas.
Avançar não significa apenas mobilizar mais capital ou desenvolver novos instrumentos. Significa fortalecer relações, capacidades e mecanismos que ajudem esse capital a compreender onde está chegando, encontrar quem já produz soluções e contribuir para que essas soluções se ampliem sem perder vínculo com sua origem.
Projetos terminam. Editais fecham. Financiadores mudam prioridades. Recursos entram e saem.
O que construímos a partir deles pode durar muito mais: conhecimento, relações, organizações fortalecidas, redes e comunidades com maior capacidade de participar das decisões que afetam suas vidas.
Por trás dos instrumentos, estratégias, indicadores e recursos estão pessoas. Pessoas que conhecem seus territórios, constroem respostas, mobilizam outras pessoas e começam a transformar suas realidades muito antes da chegada de qualquer financiamento.
Também ficou evidente que há muitas organizações, empresas, investidores sociais e lideranças revendo práticas, fazendo perguntas e buscando outras formas de trabalhar juntos. O desafio agora é fazer com que essa disposição se traduza em relações mais consistentes e em formas de fazer que mantenham as pessoas no centro.
Quando o recurso sair, o que terá ficado no território e na vida das pessoas que o constroem todos os dias?
SOBRE O TRANSFORMANDO TERRITÓRIOS
O Programa Transformando Territórios é uma iniciativa do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – com a Charles Stewart Mott Foundation para fomentar a criação e fortalecimento de Institutos e Fundações Comunitárias no Brasil, com o engajamento de doadores e sociedade civil, compartilhamento de conhecimento e apoio técnico.
Saiba mais sobre o programa e os participantes em www.transformandoterritorios.org.br.




