Gerente de projetos do IDIS é certificado na metodologia de avaliação de impacto de organização britânica; confira entrevista

Daniel Barretti, gerente de Monitoramento e Avaliação do IDIS, obteve a certificação Practitioner Level 2 na metodologia SROI (Retorno Social sobre o Investimento), oferecido pela organização britânica Social Value International (SVI), referência mundial no assunto e da qual o IDIS integra a rede. Com a conquista, ele se torna o segundo brasileiro a alcançar esse nível de certificação, juntando-se a Paula Fabiani, CEO do IDIS, que até então era a única no país com o título.

O SROI é um protocolo de avaliação de impacto que propõe analisar a relação entre os recursos investidos em um projeto ou programa e o valor social gerado para a sociedade por essa iniciativa. A certificação é concedida pela organização que há mais de 15 anos qualifica profissionais em todo o mundo para a aplicação da metodologia.

“Foi um processo desafiador e muito enriquecedor, que exigiu dedicação e aprofundamento técnico na mensuração de impacto social. Ao longo da jornada, tive a oportunidade de ampliar meu olhar sobre a geração de valor social e aprender com diferentes profissionais. Essa conquista também reflete o apoio e a colaboração de muitas pessoas que fizeram parte desse percurso”, afirma.

De acordo com a Social Value International, valor social significa compreender a importância que as pessoas atribuem às mudanças em seu bem-estar e utilizar esses aprendizados para orientar decisões mais informadas. Nesse sentido, a metodologia contribui para fortalecer processos de tomada de decisão baseados em evidências em organizações sociais.

No centro, Daniel Barretti, durante discussão sobre Monitoramento e Avaliação
Créditos: André Porto

O IDIS é hoje uma referência na aplicação do SROI no Brasil, com projetos realizados para organizações como Amigos do Bem, Fundação Sicredi, Gerando Falcões, Instituto Ayrton Senna, Orquestra Maré do Amanhã, Parceiros da Educação, Petrobras e Vale.

Conheça mais sobre os projetos de Monitoramento e Avaliação realizados pelo IDIS.

Confira a entrevista com Daniel Barretti publicada na Social Value International:

 

1 – Parabéns por conquistar a certificação Level 2: Social Value Practitioner! O que esse marco representa para você e como é ser apenas a segunda pessoa no Brasil a alcançar esse nível?

Obter a acreditação L2 da SVI representa mais um passo em uma trajetória de aprendizado contínuo. Para mim, isso significa que minha prática em monitoramento e avaliação de projetos sociais vem se aprimorando. Quanto ao fato de eu ser apenas o segundo brasileiro a possuir essa acreditação, acredito que isso reflita o caráter pioneiro e consistente da experiência acumulada pelo IDIS (organização à qual pertenço) no protocolo SROI.

2 – Como gerente de Monitoramento e Avaliação no IDIS, de que forma o SROI faz parte do seu trabalho no dia a dia e o que motivou você a buscar essa certificação formal nesse nível?

Nossa atual CEO, Paula Fabiani, foi a primeira brasileira certificada no Nível 3 da SVI. Isso trouxe ao IDIS um selo de reconhecimento e uma expertise significativa na aplicação do protocolo no Brasil. Desde então, o IDIS vem realizando diversas avaliações SROI e tornou-se uma referência nacional no tema. Nesse contexto, o que me motivou a buscar a certificação SVI Nível 2 foi justamente a ideia de dar continuidade e atualizar nosso conhecimento na aplicação do SROI no Brasil.

3 – Você descreveu o processo de certificação como “desafiador e extremamente enriquecedor”. Pode explicar como foi esse processo e quais foram os aspectos tecnicamente mais exigentes para você?

Acredito que trabalhar os 8 princípios do SROI exige atenção cuidadosa e rigorosa aos detalhes técnicos e práticos, além de transparência e clareza nos processos de reporte e nos respectivos resultados. Engajar e coletar percepções de impacto de beneficiários indiretos, por exemplo, é um grande desafio, assim como fazer os beneficiários compreenderem a diferença entre o desconto de atribuição e o contrafactual. Por outro lado, essas dificuldades revelam caminhos e possibilidades de atuação e, consequentemente, nos levam a aprimorar nossas avaliações, tornando-as cada vez mais participativas, precisas e transparentes.

4 – O SROI exige uma abordagem rigorosa para quantificar valor social, desde o mapeamento de stakeholders até a monetização dos resultados. O que a certificação ensinou a você sobre aplicar esses princípios especificamente no setor social brasileiro?

Como mencionei, envolver beneficiários indiretos é um grande desafio, já que eles estão, em grande parte, distantes da intervenção e, consequentemente, têm baixa percepção do impacto relacionado a ela. No entanto, o processo de acreditação me ensinou que é necessário, primeiro, identificar e testar possibilidades de mobilização e engajamento e, segundo, coletar as informações da melhor forma possível — mas não deixar de coletá-las — e, principalmente, descrever as limitações e riscos de cada processo de coleta de dados e de análise dos resultados.

Do ponto de vista da monetização, combinar técnicas como o uso de proxies e ancoragem mostrou-se uma abordagem poderosa para unir valor de mercado e percepção social de valor. Ainda assim, o processo de acreditação me mostrou que a etapa de monetização pode ser ainda mais participativa ao validar proxies junto ao público beneficiário.

5 – O IDIS já aplicou SROI com organizações como Amigos do Bem, Instituto Ayrton Senna, Petrobras e Vale. Como sua experiência prática nesses projetos influenciou sua abordagem na certificação e vice-versa?

Submeti para acreditação uma avaliação que havíamos realizado recentemente com base em nossa experiência prévia com SROI. Entendo que essa experiência anterior me ajudou de muitas maneiras, mas também trouxe alguns hábitos já incorporados de compreensão e execução que, por vezes, estavam equivocados. Assim, o processo de acreditação certamente serviu para refletirmos criticamente e atualizarmos nossas práticas, alinhando-as de forma mais consistente aos princípios da SVI.

6 – Você mencionou que essa conquista reflete o apoio de muitas pessoas ao longo da jornada. Quem foram algumas das vozes ou colaboradores-chave e o que aprender junto a pessoas de diferentes formações trouxe para essa experiência?

Hoje temos uma equipe grande de Monitoramento e Avaliação no IDIS, e trocamos muitas ideias sobre nossas práticas diárias de trabalho. Então, eu diria que, em certa medida, toda a equipe me ajudou por meio de reuniões, debates e reflexões, mesmo quando não estavam diretamente relacionados ao meu processo de acreditação.

De forma mais direta, três pessoas contribuíram muito nesse processo: Ana Beatriz, que foi a analista mais envolvida comigo durante a execução da avaliação antes de eu submetê-la para acreditação; Denise Carvalho, diretora de Monitoramento e Avaliação do IDIS, que não apenas me incentivou, mas também me ajudou nas reflexões e revisões necessárias ao longo do processo; e, por fim, Paula Fabiani, CEO do IDIS, que foi a maior incentivadora para que eu buscasse essa acreditação e não desistisse após uma primeira tentativa.

7 – A mensuração de valor social ainda está amadurecendo como disciplina na América Latina. Quais você vê como as maiores barreiras para uma adoção mais ampla de valor social e SROI no Brasil, e o que diria a outros profissionais que estão considerando a certificação?

Para começar, eu diria que ainda temos uma barreira quando se trata de avaliações de impacto em geral. Muitas organizações que afirmam avaliar impacto estão, na verdade, monitorando indicadores de processo ou de produto, como o número de participantes. Avaliações de impacto, como as avaliações SROI, exigem recursos humanos, técnicos e financeiros que muitas vezes não são previstos no planejamento das iniciativas.

Além disso, acredito que a grande extensão territorial do Brasil e, consequentemente, sua enorme diversidade cultural e socioeconômica representam um desafio ainda maior para a monetização. No Brasil, por exemplo, não temos um banco oficial de proxies como existe no Reino Unido, e acredito que um esforço desse tipo talvez nem fosse viável justamente por conta das diferenças territoriais do país.

Recomendo fortemente que outros profissionais passem pelo processo de certificação, pois ele permite refletir criticamente sobre as próprias práticas, sobre as melhores formas de adaptá-las e conduzi-las no contexto brasileiro e, por fim, porque acredito que seja uma abordagem rica, que combina dados qualitativos e quantitativos e nos proporciona uma leitura muito profunda das iniciativas sociais a partir da perspectiva de quem realmente vivencia essas iniciativas na prática.

8 – O que vem pela frente para você? Existem áreas da prática de valor social que você espera desenvolver mais, e o que espera que essa conquista possibilite para o IDIS e para o campo?

Certamente. Duas lições do meu processo de acreditação que quero muito colocar em prática são: primeiro, um processo mais qualificado e robusto de escuta e engajamento de beneficiários indiretos; e, segundo, tornar a avaliação ainda mais participativa, validando resultados parciais, bem como a escolha de proxies, por exemplo, também com os beneficiários, além da validação junto à organização executora da iniciativa.