Filantropia deve agir antes da próxima tragédia

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 24/09/2026

Por Carla Irrazabal, analista de projetos do IDIS, e Mariana de Assis, coordenadora de projetos do ICOM – Instituto Comunitário Grande Florianópolis

Quando uma forte chuva inundou parte da zona leste de São Paulo, no início de 2025, a resposta veio rapidamente. Organizações locais mobilizaram recursos, articularam parceiros e atenderam comunidades atingidas.

O mesmo aconteceu em outras regiões do país, em Florianópolis, após eventos extremos de chuva, na região metropolitana de Belo Horizonte, depois do rompimento da barragem em Brumadinho e no Rio Grande do Sul, durante as enchentes de 2024. Em todos esses casos, um elemento se repetiu: a capacidade de reação nasceu dos próprios territórios.

A experiência acumulada por essas iniciativas revela que não basta, porém, apenas reconhecer que as comunidades locais respondem melhor às emergências e que é preciso criar condições para que elas estejam preparadas antes que a próxima crise aconteça.

Eventos extremos hoje já são parte da realidade brasileira, mas seguimos organizando boa parte dos esforços e investimentos apenas depois que os danos já ocorreram.

Essa lógica contrasta com exemplos internacionais. Em Bucareste, na Romênia, a cidade, considerada uma das capitais europeias com maior risco sísmico, mantém há anos um fundo permanente para futuras emergências, protocolos compartilhados entre diferentes instituições e uma cultura contínua de preparação, mesmo sem registrar um grande terremoto há décadas.

Se um território que espera por um desastre incerto investe continuamente em prevenção, por que o Brasil ainda concentra seus recursos quase exclusivamente na resposta?

Essa reflexão ganhou força dentro do Programa Transformando Territórios, iniciativa que fortalece FICs (Fundações e Institutos Comunitários) em diferentes regiões do país. Ao longo dos encontros, organizações de realidades distintas compartilhavam o diagnóstico de, independentemente da localização, já conviverem com os impactos crescentes da emergência climática.

Foi desse processo que nasceu a experiência piloto dos FEPs (Fundos Emergenciais Preventivos), apoiada pela Mott Foundation, Movimento Bem Maior e Fundação FEAC. A proposta parte de uma mudança simples, mas profunda, de financiar o “antes”.

Isso significa mapear riscos, identificar vulnerabilidades, construir protocolos, definir critérios de atuação, reunir poder público, organizações sociais, empresas e lideranças comunitárias em torno de uma governança compartilhada e estruturar mecanismos financeiros capazes de serem acionados rapidamente quando necessário.

O ICOM – Instituto Comunitário Grande Florianópolis, que possui mais de duas décadas de experiência na criação e gestão de fundos comunitários e emergenciais, foi parceiro técnico dessa experiência piloto, compartilhando sua metodologia consolidada e assessorando seis Fundações e Institutos Comunitários distribuídos entre Porto Alegre (RS), Belo Horizonte (MG), Paraty (RJ), Maceió (AL) e dois territórios da cidade de São Paulo.

Foram realizados diagnósticos territoriais, constituídos comitês intersetoriais, elaborados planos preventivos e redes locais de cooperação fortalecidas.

As Fundações e Institutos Comunitários ocupam posição estratégica nesse processo. Por serem organizações enraizadas em seus territórios, conhecem as dinâmicas locais, mantêm relações de confiança com as comunidades e conseguem articular diferentes setores em torno de objetivos comuns.

Historicamente, a filantropia é convocada quando a tragédia já aconteceu. Os Fundos Emergenciais Preventivos propõem inverter essa lógica, direcionando investimentos para reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de resposta dos territórios —essa, talvez, seja a principal inovação da experiência.

Ainda é cedo para medir todos os resultados dessa iniciativa. Alguns deles só poderão ser avaliados quando os próximos eventos extremos ocorrerem. Ainda assim, talvez o indicador mais importante seja outro: que, no futuro, preparar territórios para as crises deixe de ser uma inovação e passe a ser uma prática permanente da filantropia brasileira.

Programa Transformando Territórios lança fundos emergenciais preventivos para enfrentar emergências territoriais

Iniciativa ainda pouco explorada no Brasil fortalece a capacidade de territórios brasileiros de prevenir, se preparar e responder a emergências climáticas por meio da filantropia comunitária. Quatro fundos já foram estruturados e dois estão em fase de implementação

Seis fundações e institutos comunitários de diferentes regiões do Brasil estão recebendo apoio técnico e financeiro para criar mecanismos territoriais permanentes de prevenção a emergências climáticas. A iniciativa, inédita no contexto brasileiro, integra o Programa Transformando Territórios, do IDIS, e conta com a metodologia e assessoria técnica do ICOM — Instituto Comunitário Grande Florianópolis, além de parceria com a Mott Foundation, o Movimento Bem Maior e a Fundação FEAC.

Na primeira etapa, quatro Fundações e Institutos Comunitários (FICs) concluíram a estruturação de seus fundos e receberam aportes de R$ 50 mil cada para desenvolver estratégias voltadas à gestão de riscos, à prevenção e ao fortalecimento da resiliência em seus territórios: Instituto Cacimba, no distrito de São Miguel Paulista na capital paulista (SP), Associação Nossa Cidade, na Grande Belo Horizonte (MG), Instituto Comunitário Paraty, em Paraty (RJ) e Mundaú Mundo, em Maceió (AL). A Fundação Gerações, na Grande Porto Alegre (RS) e o Fundo Comunitário Perifasul M’Boi Mirim, no distrito de M’Boi Mirim na cidade de São Paulo (SP) estão em fase de assessoria e devem concluir a estruturação em breve. A captação dos fundos segue aberta a indivíduos e organizações.

 “Quem vive e atua nos territórios conhece de perto seus riscos, vulnerabilidades e potencialidades. Por isso, fortalecer organizações locais é fundamental para construir estratégias de prevenção e preparação junto às próprias comunidades, antes que as emergências aconteçam. As Fundações e Institutos Comunitários desempenham um papel estratégico nesse processo ao identificar riscos, mobilizar recursos, articular diferentes atores e fortalecer a capacidade dos territórios de prevenir, se preparar e responder a crises de forma coordenada e sustentável”, afirma Rosana Ferraiuolo, gerente do Programa Transformando Territórios no IDIS

Os recursos apoiam iniciativas de caráter preventivo — fortalecendo a capacidade local de enfrentar eventos extremos antes que se transformem em crises de difícil gestão. A seleção dos territórios partiu de uma característica comum: todos já desenvolviam ações ou reflexões sobre situações de emergência e vulnerabilidade socioambiental, e demandavam instrumentos mais estruturados para lidar com os impactos crescentes das mudanças climáticas. Entre os eventos que os fundos visam preparar os territórios para enfrentar e evitar enchentes, rompimento de barragens, descarte irregular de resíduos, chuvas extremas, ondas de calor e outros eventos climáticos monitorados por redes territoriais de correspondentes climáticos.

Para doar, basta entrar em contato com as FICS pelo site, as doações podem ser feitas por pessoas físicas e jurídicas.

 

Um modelo inovador inspirado em experiências internacionais

O modelo de Fundo Emergencial Preventivo (FEP) é considerado inovador no Brasil por utilizar a filantropia comunitária de base territorial como ponto de partida para a construção de fundos voltados à comunidades resilientes. A proposta foi inspirada em experiências desenvolvidas em países como Romênia e Chile, e em referências de organizações como Center for Disaster Philanthropy. No Brasil, a adaptação desse modelo parte também da experiência acumulada pelo ICOM na criação, gestão e governança de fundos comunitários e emergenciais, conectando mobilização de recursos, conhecimento territorial e fortalecimento de organizações locais.

Mais do que viabilizar respostas a emergências, a iniciativa busca fortalecer capacidades permanentes nos territórios para prevenir riscos, mobilizar recursos e agir de forma coordenada diante de crises cada vez mais frequentes e complexas.

“À primeira vista, um Fundo Emergencial Preventivo pode parecer apenas mais um mecanismo de repasse financeiro. Mas sua inovação está na forma como organiza capacidades antes da crise acontecer. O FEP fortalece os territórios em períodos de normalidade, investindo em governança, articulação, inteligência territorial e mobilização local. Para nós, é motivo de orgulho compartilhar a experiência acumulada pelo ICOM em fundos comunitários, fundos emergenciais e desenvolvimento territorial, contribuindo para que outras Fundações e Institutos Comunitários adaptem esse modelo às realidades de seus territórios”, afirma Mariana de Assis, Coordenadora de Projetos do ICOM

 


SOBRE O TRANSFORMANDO TERRITÓRIOS

O Programa Transformando Territórios é uma iniciativa do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – com a Charles Stewart Mott Foundation para fomentar a criação e fortalecimento de Institutos e Fundações Comunitárias no Brasil, com o engajamento de doadores e sociedade civil, compartilhamento de conhecimento e apoio técnico.

Saiba mais sobre o programa e os participantes em www.transformandoterritorios.org.br