Filantropia familiar: Raízes no propósito, olhar para o futuro 

Por Carina Santana, analista de projetos do IDIS 

Como famílias e instituições podem transformar seus valores em mudanças duradouras, atravessando gerações e, ao mesmo tempo, acolhendo novas realidades?  

Belisa Maggi, ligada à Fundação AMAGGI e presidente do Instituto Signativo

Essa foi uma das questões discutidas durante a 15ª edição do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais, em uma mesa que reuniu Belisa Maggi (ligada à Fundação AMAGGI e presidente do Instituto Signativo), Cristiano Franco (fundador do ITEC – Instituto de Tecnologia e Computação), Thamile Accioly (Diretora Executiva da Fundação Maria Emília) e Daniella Leite (CEO da FBN Brasil), responsável pela moderação. 

As experiências compartilhadas por institutos e fundações familiares se encontram em um ponto comum: todas partem de um propósito. Em organizações mais consolidadas, esse propósito costuma estar associado a um legado construído ao longo do tempo. Já em iniciativas mais jovens, ele pode nascer de um processo de autoconhecimento, escuta e identificação do papel que cada pessoa ou família deseja exercer na sociedade. 

Belisa Maggi destacou a importância do autoconhecimento para compreender esse propósito. Para ela, ambientes mais horizontais, que favorecem o diálogo entre diferentes gerações, ampliam as possibilidades de inovação. Quando há abertura para escuta e troca, novas gerações podem encontrar espaço para contribuir e imprimir sua própria forma de atuação no mundo. “Novas gerações não tem como seguir ou fazer algo diferente se não tem o autoconhecimento. O autoconhecimento é essencial para imprimir nossa forma de ser no mundo”, disse durante a sessão. 

A manutenção dos valores e a presença de uma governança fortalecida ajudam a preservar a conexão com o propósito institucional. No entanto, manter um legado não significa permanecer imóvel. Pelo contrário: a capacidade de inovar dentro de uma missão clara é o que permite que organizações sigam relevantes diante de novos desafios sociais. Esse movimento pode acontecer por meio de parcerias, da escuta ativa dos territórios e do diálogo entre gerações. 

Thamile Accioly compartilhou a trajetória da Fundação Maria Emília, que atua fortalecendo iniciativas já existentes. Segundo ela, apoiar quem já atua nos territórios ajuda a organização a manter seu legado. “Deixamos de fazer uma atuação local para fazer uma ação nacional. O que não mudou nesse período foi a essência do fundador, o desejo de educação e saúde, e os valores. O restante é preciso acompanhar: os cenários, os desafios e as oportunidades mudam, e a gente vem evoluindo com isso”, afirmou. 

Thamile Accioly, Diretora Executiva da Fundação Maria Emília

A conexão com o território também foi apontada como elemento central para a continuidade do propósito e para a geração de impacto. É por meio dessa relação de proximidade que se constroem confiança e legitimidade para pilotar projetos e, em alguns casos, incidir sobre políticas públicas locais. O monitoramento de indicadores e a avaliação de resultados, por sua vez, permitem compreender com mais precisão as demandas do território e verificar se as ações apoiadas estão, de fato, contribuindo para enfrentar esses desafios. O ponto foi abordado por Cristiano Franco em sua fala: “Como terceiro setor, podemos nos permitir testar hipóteses e ter liberdade de execução, e levar isso para o poder público. Fazemos uma “curadoria” do que pode trazer impacto”, comentou. 

A conversa reforçou que a filantropia familiar se fortalece quando reconhece suas raízes, mas permanece aberta ao futuro. Preservar valores e honrar legados não significa repetir caminhos, mas sim construir novas formas de atuação. Unindo propósito, diálogo entre gerações e compromisso com resultados, institutos e fundações familiares podem ampliar sua contribuição para transformações sociais mais duradouras. 

 

Confira a gravação do painel:

Cultivando futuros: filantropia familiar ganha força como motor de transformação no Brasil

Por Weslley Carvalho, estagiário do programa Juntos Pela Saúde

No Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2025, realizado em 1º de outubro pelo IDIS, uma das conversas do dia reuniu lideranças do setor para refletir sobre os caminhos da filantropia familiar no país. A mesa “Cultivando futuros: caminhos para a filantropia familiar no Brasil” destacou o papel estratégico dessas iniciativas no enfrentamento de desafios complexos e na construção de uma sociedade sustentável.

Realizada em um momento em que o cenário global combina retração de recursos internacionais e aumento da complexidade dos problemas sociais e ambientais, a sessão convidou o público a repensar como famílias e indivíduos de alto patrimônio podem atuar de maneira mais estruturada, colaborativa e de longo prazo. A partir das reflexões do estudo Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar no Brasil, desenvolvido pelo IDIS, os participantes compartilharam experiências, perspectivas e desafios que apontam para uma transformação em curso no campo filantrópico brasileiro.

 

Veja a sessão completa em:

 

Carola Matarazzo, diretora executiva do Movimento Bem Maior e presidente do Conselho de Governança do GIFE, abriu a conversa trazendo um olhar sobre a evolução histórica da filantropia familiar no país e os aprendizados acumulados ao longo dos anos. Destacou a importância da governança familiar como eixo estruturante e ressaltou como diferentes gerações têm contribuído para moldar novas formas de atuação, muitas vezes guiadas pela ideia de transformar herança em legado.

Para ela, “a filantropia familiar é muito mais do que um instrumento de doação: é um espaço de convergência, onde diferentes gerações podem se encontrar em um propósito comum, transformando patrimônio em legado.”

“Mais do que escolher causas, a filantropia familiar é um exercício de alinhamento de valores que podemos ofertar ao mundo; é esse fio condutor que garante coerência entre gerações e permite transformar heranças em futuro”, destacou também Carola.

Falou ainda sobre a necessidade de adaptação constante: o mapa de prioridades das famílias é dinâmico e reflete valores e crenças que se transformam com o tempo. Nesse cenário, ganham espaço pautas contemporâneas, como a agenda climática, a redução das desigualdades sociais, a valorização da diversidade territorial e o letramento acerca dos marcadores sociais da diferença. Segundo ela, há uma mudança de mentalidade em curso, que desloca a filantropia de um lugar mais individual para um movimento coletivo, com maior articulação entre institutos, fundações e diferentes atores da sociedade civil. “Precisamos, sobretudo, mobilizar distintos capitais: o financeiro é importante, mas insuficiente. O capital humano, social, político e reputacional também deve ser colocado em movimento para destravar soluções novas e de longo prazo, tanto no setor privado quanto no público.

 

Em sua fala, Marina Cançado, fundadora da Converge Capital e cofundadora da plataforma ATO, deu continuidade ao debate abordando o papel dos múltiplos capitais no enfrentamento de temas complexos, com destaque para a crise climática. Ressaltou que a estabilidade climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental e se tornou um plano de fundo inevitável para qualquer estratégia de filantropia com visão de futuro. Segundo Marina, “quando pensamos na próxima etapa da filantropia familiar, não há como dissociar o pano de fundo que vivemos: as mudanças climáticas. Elas não são uma causa, mas o contexto que precisa estar por trás de todo o pensamento sobre filantropia e das soluções que queremos construir”. Marina destacou também que pensar a filantropia em um mundo de aquecimento global significa adotar uma perspectiva integrada, capaz de conectar diferentes esferas de atuação e engajar novas gerações na busca por soluções de longo prazo.

Encerrando o debate, Fernando Nogueira, diretor executivo da ABCR, trouxe a perspectiva dos profissionais de captação de recursos e dados recentes sobre o cenário da filantropia no Brasil. Abordou tendências identificadas em pesquisas nacionais e internacionais, destacando que o interesse pela doação muitas vezes nasce de vínculos de proximidade, o que reforça a importância de fortalecer relações de confiança entre doadores e organizações sociais.

“O investimento social privado é, ao mesmo tempo, o mais importante e o menos importante dos capitais filantrópicos. É o menos importante porque é um dos menores: pessoas físicas, fazendo pequenas doações, doam muito mais do que os grandes filantropos, e o governo e as microempresas repassam muito mais recursos. Mas ele pode ser o mais importante porque tem o maior potencial de ser estratégico, refletido e de provocar intervenções cirúrgicas e de alto impacto no campo”, comentou ele.

 

 

Ficou evidente que o fortalecimento desse campo depende da articulação entre diferentes atores, incluindo famílias e organizações da sociedade civil, e de uma disposição coletiva para inovar, aprender e agir em rede. Mais do que recursos financeiros, trata-se de cultivar confiança, visão compartilhada e compromisso com causas estruturantes, capazes de gerar transformações duradouras. Em um mundo marcado por incertezas, as reflexões compartilhadas na mesa mostraram que a filantropia familiar tem um papel central na construção de futuros cheios de possibilidades.

 

Fotos: André Porto/IDIS.


Riqueza e propósito: o papel da filantropia nas famílias empresárias

Texto publicado originalmente no Valor Econômico em 17/07/2025

 

COMO A TRAJETÓRIA DOS FUNDADORES INFLUENCIA A CULTURA DE DOAÇÃO E OS CAMINHOS POSSÍVEIS PARA UM IMPACTO SOCIAL DURADOURO

Por Renato Bernhoeft – Fundador e Presidente do Conselho de Sócios da höft – bernhoeft & teixeira – transição de gerações, fundada em 1975 para apoiar sociedades empresariais e famílias empresárias a perpetuar seu conjunto de valores e seu patrimônio.

Há décadas me dedico a estudar a história e origem da empresa familiar no Brasil. Hoje trago uma reflexão sobre aspectos importantes e dignos de serem considerados na perspectiva do seu envolvimento com a ação filantrópica.

Um olhar para o século XX mostra que boa parte dos nossos empreendedores são imigrantes ou filhos de imigrantes, especialmente oriundos da Europa e alguns países asiáticos, como exemplo o Japão. Foram pessoas que tratavam de fugir de guerras e países com uma economia em profunda crise. Ou seja, enfrentando dificuldades e desafios marcantes em suas vidas.

Chegavam ao Brasil com poucos recursos financeiros, mas com alguma habilidade e forte disposição para empreender. Isso quando não eram usados para substituir a mão de obra escrava, – especialmente em áreas distantes dos grandes centros, – que havia conseguido sua liberdade.

Já no século XXI começaram a surgir empreendedores brasileiros, que tentavam fugir do interior do país, pela falta de oportunidades de trabalho. Boa parte se concentrou nos estados de São Paulo, Rio, Minas Gerais e alguns estados do sul do país. Um registro importante desta fase, incluindo a atual, é o crescimento de empreendedoras mulheres. Especialmente com as conquistas femininas na sua liberdade, tanto na família como no mercado de uma maneira geral. Uma parte destes empreendedores, imigrantes e migrantes, hoje constituem a elite econômica no Brasil.

Ao participar do projeto ‘Caminhos para uma atuação mais ampla e estratégica da filantropia familiar no Brasil’, a convite do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, me dei conta de como esse histórico influencia na visão de mundo dessas famílias e está conectado a suas práticas de doação.

O levantamento que integra a publicação, realizado junto a filantropos atuantes e especialistas no tema, somado a minha experiência, me levou a identificar algumas diferenças na abordagem em relação à filantropia.

Há aqueles que declaram abertamente de que a riqueza construída se destina aos seus herdeiros, para que não passem pelas dificuldades que cada um enfrentou. Focam sua sucessão apenas no aspecto patrimonial, cuja tendência é de fortes disputas entre os membros da geração seguinte. Segundo minha experiência, estes processos podem resultar em forte competição entre as futuras gerações, a ponto de destruírem totalmente o patrimônio herdado.

Outros manifestam uma visão mais ampla e consideram que o importante do que construiu, é seu legado. Para alguns, essa dimensão está restrita a oferecer uma educação de ponta a seus descendentes e à transmissão de valores. Mas há aqueles que entendem que devem distribuir os resultados de suas conquistas tanto com os seus herdeiros quanto com o país, a comunidade e aqueles que permanecem numa situação de inferioridade na economia do país.

Um dos desafios para que esta posição dos fundadores possa se prolongar às próximas gerações é de que o patrimônio sofre uma pulverização acionária, o que também tem sido acompanhado por conflitos entre os interesses dos herdeiros das gerações seguintes. Desta forma, é importante que os fundadores, e patriarcas (sejam do sexo feminino ou masculino) criem políticas e estruturas de governança onde os ganhos patrimoniais sejam também destinados a entidades filantrópicas e, paralelamente, aos seus descendentes.

Conforme revela o levantamento do IDIS, existem famílias que criaram fundações próprias de maneira que suas práticas filantrópicas sejam realizadas de forma perene e com governança bem definida. Há aquelas, inclusive, que optam pela criação de fundos patrimoniais, mecanismo que garante que o recurso destinado seguirá gerando benefícios socioambientais.

Considerando que no Brasil o estímulo oficial para apoio às entidades filantrópicas ainda é insuficiente, se torna importante também que alguns filantropos coloquem a serviço do setor seu poder de influência e redes de relacionamentos, contribuindo para um ambiente regulatório mais favorável.

Existe um amplo potencial não só para envol­ver novas famílias e indivíduos em atividades filantrópicas, mas também para ampliar o volume e o impacto de quem já doa. O trabalho inédito desenvolvido pelo IDIS e do qual tive a oportunidade de participar, apresenta um diagnóstico de onde estamos a apresenta um mapa estratégico claro para mudarmos esse panorama.

Fica aqui o convite para que, a cada dia, novas famílias se disponham a ter uma participação ativa no universo da filantropia e para que todos que se envolvem na gestão de seus patrimônios, as aconselhem nesta direção, especialmente se considerarmos que vivemos em um país extremamente injusto e socialmente desequilibrado.