O dinheiro paciente e a filantropia que fica

Por Paula Fabiani, CEO do IDIS, e Ricardo Levisky, sócio fundador da Levisky Legado

Em um país em que tantos desafios se repetem como urgências permanentes, a pergunta mais importante talvez não seja apenas quanto se doa, mas como se estrutura a doação para que ela permaneça. A filantropia brasileira começa a amadurecer quando deixa de depender apenas do impulso do momento e passa a construir mecanismos de continuidade. É nesse ponto que entram os fundos patrimoniais, os fundos evergreen e outras formas de capital de longo prazo. Aquilo que se costuma chamar de dinheiro paciente.

Dinheiro paciente é o oposto da resposta apressada. Ele permite planejar, sustentar e ampliar soluções ao longo do tempo, sem submeter causas de interesse público a ciclos curtos de financiamento. Em vez de apenas financiar ações imediatas, esse modelo cria infraestrutura para que organizações, projetos e redes possam operar com mais estabilidade, autonomia e visão estratégica. É essa base que permite sair da lógica da urgência e construir impacto consistente ao longo do tempo.

No Brasil, esse movimento tem um ator cada vez mais relevante: os family offices. Historicamente voltados à gestão de patrimônio financeiro das famílias, eles começam a incorporar a filantropia como parte da arquitetura patrimonial, ao lado de investimentos, sucessão e planejamento tributário. Tendência já identificada pelo Wharton Family Office Survey (2024), segundo o qual 32% dos family offices tratam a filantropia de forma estruturada, enquanto a maioria ainda a conduz por meio de fundações familiares. No Brasil, o fenômeno é mais recente, mas avança rapidamente. Dados da ANBIMA (2023), citados no relatório Filantropia & Family Offices (2025), apontaram crescimento de 82,5% no número de estruturas formais em três anos. A doação, deixando de ser um gesto isolado do calendário familiar, passa a ser tratada com a mesma disciplina de governança aplicada aos demais ativos, uma agenda hoje em construção.

Capital paciente é uma base importante, mas precisa vir acompanhado de visão e governança. Para que a filantropia gere transformação positiva real, ela precisa também de disposição para tratá-la como projeto de permanência. É aqui que a filantropia familiar ganha centralidade, não como gesto isolado, mas como expressão de legado, sucessão, governança e compromisso intergeracional. Quando uma família decide organizar sua atuação de forma estruturada, ela não está apenas doando recursos, está, também, definindo valores, prioridades e uma visão de futuro.

Essa disciplina se traduz em práticas concretas: políticas de investimento social, comitês de doação, critérios de seleção de causas e mecanismos de prestação de contas equivalentes aos que regem qualquer outro ativo sob gestão. Family offices e planejadores financeiros, mais do que assumirem um papel de alocação de recursos, estão profissionalizando a forma como a família exerce seu compromisso social, o que aumenta a confiança de parceiros, das organizações apoiadas e da própria geração seguinte.

Essas duas dimensões se fortalecem mutuamente. O dinheiro paciente oferece a base financeira para que a ação social dure. A filantropia familiar oferece a continuidade cultural e institucional para que essa base não se perca no tempo. Juntas, elas reposicionam a filantropia como uma prática de continuidade, e não apenas de resposta pontual.

No fim, a questão central não é quanto patrimônio uma família está disposta a doar, mas quanta responsabilidade está disposta a assumir sobre o futuro que esse patrimônio ajuda a moldar. Essa é a mudança profunda de mentalidade: o patrimônio deixa de ser apenas algo a preservar e transmitir e passa a ser também um instrumento para construir aquilo que merece permanecer. Dinheiro paciente, nesse sentido, não é só capital com horizonte mais longo. É a decisão de olhar além do próprio tempo e tratar o patrimônio como parte de um legado que atravessa gerações. Talvez seja essa a pergunta que uma filantropia verdadeiramente orientada a impacto precisa enfrentar: não é apontar quais são as respostas às urgências do presente, mas o que organizar para construir o futuro.

Testamento Solidário: um caminho estratégico para o fortalecimento dos fundos patrimoniais no Brasil

Publicado originalmente no Migalhas em 24 de setembro de 2025. Acesse clicando aqui

Por Andrea Hanai, Gerente de Projetos do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – IDIS, e Raquel Grazzioli, Advogada do escritório Rubens Naves Santos Júnior Advogados

Nos últimos anos de vida, Maria de Camargo Dália, conhecida como D. May, decidiu transformar o patrimônio acumulado ao longo de sua trajetória em um legado social duradouro. Por meio de um testamento público, destinou sua herança, estimada em mais de R$ 700 milhões, a sete organizações da sociedade civil atuantes nas áreas de saúde, educação e assistência social.

O gesto de D. May evidencia o potencial do testamento solidário, ainda pouco difundido no Brasil, mas prática consolidada em países como os Estados Unidos. De acordo com o Legacy Giving Report 2024, da Charities Aid Foundation (CAF), mais da metade dos norte-americanos com alto poder aquisitivo (56%) declara intenção de destinar parte do patrimônio a causas sociais por meio de testamento — um dado que reforça o alcance e a relevância desse tipo de doação.

O envelhecimento populacional e a consequente transferência de riqueza para as próximas gerações criam um cenário oportuno para fortalecer a cultura de legado no país. Pela legislação brasileira, qualquer pessoa pode, por testamento, destinar livremente até 50% do próprio patrimônio para finalidades escolhidas, ficando o restante reservado a herdeiros necessários (filhos, pais ou cônjuge). Na ausência destes, a totalidade dos bens pode ser direcionada a organizações que atuem em causas de interesse público.

As doações testamentárias podem incluir recursos financeiros, imóveis, obras de arte, participações societárias e outros bens, devendo ser formalizadas preferencialmente na forma pública, para reduzir disputas e garantir a execução da vontade do testador. Quando direcionados a fundos patrimoniais (endowments), esses recursos podem gerar impacto perpétuo, financiando causas e instituições de forma sustentável. Grandes fundos internacionais — como os da Universidade Harvard, Fundação Nobel, Fundação Rockefeller e Wellcome Trust — foram constituídos, em parte, por legados testamentários.

Inspiradas nesse modelo, ao menos duas das organizações beneficiadas pelo legado de D. May — a ASA (Associação Santo Agostinho) e a Liga Solidária — optaram por destinar parte dos recursos para fortalecer seus fundos patrimoniais, que hoje superam R$ 100 milhões cada. No Brasil, segundo o Monitor de Fundos Patrimoniais do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), há 121 fundos desse tipo, totalizando mais de R$ 137 bilhões em patrimônio.

Apesar do potencial, o testamento solidário ainda enfrenta barreiras culturais. Falar sobre morte segue sendo um tabu, e muitos percebem a elaboração de um testamento como algo complexo ou emocionalmente difícil, o que leva à procrastinação do planejamento sucessório. Campanhas educativas desempenham papel central na desmistificação do tema. Organizações como Greenpeace, Médicos Sem Fronteiras e Comitê Internacional da Cruz Vermelha já realizam ações específicas para sensibilizar doadores a incluí-las como beneficiárias em testamentos, usando desde mensagens bem-humoradas sobre o tema até histórias inspiradoras para aproximar o assunto de valores pessoais.

Outro obstáculo relevante é a falta de incentivo por parte de advogados e profissionais que atuam no planejamento sucessório. Pesquisas indicam que, quando a possibilidade de doação não é apresentada, menos de 5% dos testamentos incluem causas sociais. Esse número mais que dobra quando há sugestão expressa e pode ultrapassar 15% quando acompanhada de exemplos de outros doadores. Isso reforça o papel estratégico desses profissionais na difusão da cultura de legado.

Para que o potencial se concretize, é necessário o engajamento coordenado de organizações, especialistas e campanhas de conscientização, de forma a inserir o testamento solidário como prática comum de filantropia no país.

Também é fundamental que as organizações estejam preparadas para receber esse tipo de doação. Boas práticas de governança, transparência, prestação de contas e gestão responsável são determinantes para gerar a confiança necessária nos doadores. Além disso, é recomendável que os fundos patrimoniais comuniquem, de forma clara, que aceitam legados e capacitem equipes para dialogar sobre o tema com sensibilidade e clareza.

A morte encerra um ciclo individual, mas não precisa interromper um compromisso com o futuro. O exemplo de D. May mostra que o testamento solidário pode garantir que causas relevantes continuem a receber apoio, fortalecendo estruturas como fundos patrimoniais e deixando um legado de impacto para as próximas gerações.