Forma Invovadora de Financiamento Renumera Investidor Pelo Sucesso de Projetos Social

Uma experiência em andamento no sistema prisional inglês está chamando a atenção para um tipo inovador de financiamento para projetos sociais: os social impact bonds (SIBs), ou títulos financeiros de impacto social. Nesse sistema, investidores privados aportam dinheiro para uma iniciativa e, se ela for comprovadamente bem-sucedida, o poder público devolve o montante, acrescido de um valor pré-contratado. Com isso, o setor privado financia inovações sociais, e o governo premia os prestadores do serviço por economizar recursos públicos decorrentes do sucesso do projeto.

Como noticiado pela revista inglesa The Economist, a pequena cidade de Peterborough, na Inglaterra, é o marco inicial dessa modalidade ainda incipiente. Em 2010, foi lançado um projeto com duração de seis anos que busca diminuir a reincidência criminal. Trata-se, basicamente, de um amplo programa de acompanhamento de ex-detentos sob o nome de One Service, financiado por investidores privados.

Caso o projeto atinja as metas de declínio da reincidência, os investidores receberão do governo retornos financeiros sobre os recursos aplicados. Mas por que pagar além do que foi gasto? A ideia é que, ao reduzir o número de pessoas que voltam para trás das grades, o projeto reduz também as despesas públicas com o sistema prisional.

Uma das vantagens desse modelo é fornecer financiamento de longo prazo para o projeto, dando tempo para os investidores buscarem as melhores formas de atingir suas metas. Como aponta a diretora-executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Célia Cruz, “a prisão vai ter liberdade para eleger as melhores ações e liberdade para escolher modelos inovadores”.

A estratégia requer, portanto, um perfil muito específico de financiador. “Os investidores de impacto social são geralmente mais pacientes, diferentes daqueles que esperam retornos de curto prazo”, afirma o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Sérgio Lazzarini, que tem se dedicado ao estudo do tema.

Outro fator fundamental é fazer uma ótima avaliação de impacto ao longo do tempo, para saber se as mudanças de fato estão ocorrendo em decorrência do projeto. “Os ingleses são muito bons em usar grupos de controle, e, por isso, conseguem provar que o projeto funciona”, diz Célia.

Os resultados em Peterborough têm se mostrado bons o suficiente para fazer o Reino Unido planejar estender o One Service para outros lugares, o que levanta um questionamento da The Economist: se o programa de reabilitação for universalizado, qual prisão servirá de grupo de controle para avaliar resultados?

No Brasil
Os títulos financeiros de impacto social são tão novos que, segundo levantamento da empresa especializada Instiglio, há apenas seis iniciativas em andamento no mundo: quatro na Inglaterra, uma nos Estados Unidos e uma na Austrália. No Brasil, existem apenas alguns estudos preliminares. “O ICE já pesquisou um pouco o assunto, assim como o Insper”, aponta Célia. “A discussão ainda é muito incipiente por aqui”, concorda Lazzarini.

A implantação do modelo no Brasil enfrenta barreiras. “Um projeto como o de Peterborough, por exemplo, não poderia ser implantado por aqui, pois não temos uma base de dados unificada do sistema prisional”, diz Célia. Ainda assim, ela aponta que essa é uma pauta que teria apelo no País. “Não é uma causa fácil de investir, mas muitos empresários ligados ao ICE, por exemplo, têm interesse na questão da segurança pública”.

Outro ponto é a pouca cultura de medição de impacto social. “Tem de ter metodologia para avaliar os resultados, para provar o sucesso do projeto”, aponta Célia.

Esse problema está sendo abordado pelo Insper. “Nós estamos criando um centro para análise de impacto social, pois é preciso medir quanto da mudança está relacionada ao projeto, e não a outros fatores”, conta Lazzarini.

 

 

Maior Evento do 3º Setor na America Latina Reúne 15 Mil Pessoas e Tem Participação do Governo

A ONG Brasil firmou-se, em sua quinta edição, como o maior evento sobre responsabilidade social da América Latina. Cerca de 500 expositores e 15 mil visitantes foram ao Expo Center Norte, em São Paulo, entre 28 e 30 de novembro. A exposição contou com mais de 100 palestras e participação intensa do governo federal, representado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, que ocupou um dos maiores estandes e promoveu debates diariamente.

“Este é o segundo ano em que o governo federal participa do evento, e é a Secretaria-Geral quem apoia a presidenta no relacionamento com entidades da sociedade civil”, afirmou a assessora especial da Pasta, Lais de Figueiredo Lopes, no primeiro dia do evento, durante a palestra “As parcerias entre o Estado e organizações da sociedade civil e o marco regulatório”. O debate tratou da norma que está sendo elaborada para regulamentar as relações entre entes estatais e entidades sociais. “A sociedade civil propôs o diálogo em 2010, a presidenta Dilma Roussef se comprometeu e o ministro-chefe, Gilberto Carvalho, desenvolveu uma agenda”, contou Lais.

Entre os exemplos de diálogo do governo federal com a sociedade civil, a assessora especial chegou a citar a iniciativa do IDIS, que está desenvolvendo uma proposta de regulamentação específica para fundos patrimoniais no Brasil, com o objetivo de aprimorar a sustentabilidade do setor.

A diversidade dos debatedores nos seminários organizados pela Secretaria-Geral reforça o objetivo de dialogar com diversos setores: participaram representantes de ministérios, do terceiro setor (como Vera Masagão, diretora da Abong) e da área acadêmica (como o pesquisador Félix Lopes, do Ipea). Em seu estande, o órgão estatal também promoveu conversas sobre temas de interesse da área.

Primeira palestra

A primeira atividade da feira, no entanto, não contou com a presença do governo federal. O foco da palestra “Happy returns: Por que boas causas são bons negócios”, organizada pela Humanitare Foundation, foi justamente iniciativas sociais que passam por soluções de mercado. A fala de Joris Van Wijk, diretor da UBM Brasil – organizadora do evento, subsidiária de umas das maiores multinacionais de mídia de negócios –, resumiu bem o tom do resto do debate: “Boas causas são bons negócios, e juntos podemos mais”.

Na mesma linha, a jornalista Patrícia Trudes, coordenadora-executiva do Prêmio Folha Empreendedor Social, queixou-se da visão de que filantropos têm de ser pessoas “abnegadas”. “No Brasil, ainda se separa fazer o bem de fazer dinheiro, persiste a ideia de que filantropia não pode gerar lucros.”

Sheila Pimentel, da Humanitare Foundation – entidade que promove as ações da ONU com a sociedade civil –, também ressaltou a importância de mudar a mentalidade do setor social privado em relação ao lucro: “Antes, o terceiro setor tinha vergonha de falar em dinheiro, e o que a Humanitare quer é ajudar projetos a se bancarem empresarialmente”.

Soluções sociais que passam pelo mercado estão sendo discutidas até no Fórum de Davos, tradicionalmente associado apenas a discussões econômicas. O diretor global de cidadania corporativa da consultoria KPMG, Michael Hastings, citou inclusive um documento produzido no último encontro na cidade suíça. “Nas Metas do Milênio, da ONU, não havia empresas, mas agora elas são centrais para a discussão de desenvolvimento econômico, social e ambiental”, declarou Hastings.

Não poderiam faltar na mesa, portanto, exemplos de projetos sociais lucrativos. O cônsul honorário do Brasil na Áustria, Lothar Wolff, citou o caso de uma empresa austríaca que produz biogás com lixo orgânico e que está fazendo um projeto-piloto em dez churrascarias de Curitiba. O projeto tem não só apelo ambiental como impacto na alimentação, pois, como explicou Wolff, o “biogás costuma ser produzido com plantações que tomam áreas de cultura de alimentos”.

Outro exemplo foi o marketing relacionado à causa. A presidente do Banco de Alimentos, Luciana Quintão, falou do projeto de sua organização com a Tramontina – parte do dinheiro obtido com a venda de produtos exclusivos é destinada à entidade social. “É uma cultura nova no Brasil. É preciso procurar empresas, convencer de que é bom, quebrar uma série de barreiras”, defendeu.

 

 

IDIS Lança Documentário Sobre Investimento Social Privado

No próximo dia 05, quinta-feira, às 9h30, acontece no Itaú Cultural, em São Paulo, o lançamento do documentário “Investimento Social Privado – O Presente é o Futuro”. A produção conta com a participação rica e mobilizadora de 14 figuras emblemáticas do setor filantrópico no Brasil e busca estimular a ampliação e consolidação do investimento social privado no País.

Com direção do jornalista Albino Castro, que tem passagens pela TV Cultura, SBT, TV Gazeta, jornal O Globo e revista Veja, o documentário tem duração de 33 minutos e contou com o patrocínio da Alupar, Cemig e Lojas Renner, através da Lei de Incentivo à Cultura. A Fundação José de Paiva Netto colaborou com a produção e captura de imagens.

Como a ideia é ajudar a divulgar a relevância do investimento social privado brasileiro, a distribuição será ampla. “Além de estar gratuitamente disponível na internet, serão distribuídas no mínimo 500 cópias para organizações, bibliotecas e escolas de todo o País”, diz João Paulo Vergueiro, gerente de comunicação do IDIS.

 

Interessados em realizar o lançamento do documentário do IDIS em sua cidade, podem entrar em contato conosco pelo e-mail comunicacao@idis.org.br.

Serviço:

Lançamento Oficial: INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO – O PRESENTE É O FUTURO
Data: 5 de dezembro, quinta-feira
Horário: 9h30
Local: Itaú Cultural [Av. Paulista, 149 – São Paulo – SP]
VAGAS LIMITADAS: Garanta seu ingresso cadastrando-se aqui.
Outras informações: comunicação@idis.org.br ou (11)3037.8212.

 

 

Empresas Falam Muito de Responsabilidade Social Empresarial, Mas Practicam Pouco, Aponta ONU

Uma pesquisa das Nações Unidas feita com 1.712 empresas de 113 países concluiu que o setor privado fala muito sobre políticas de responsabilidade social, mas ainda está atrasado quando se trata de aplicar o discurso à realidade.

Relatório Global de Sustentabilidade Empresarial 2013 foi organizado pelo Pacto Global, iniciativa da ONU que estimula companhias do mundo todo a aderir voluntariamente a dez princípios relacionados a direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção.

O documento apresenta uma série de dados para sustentar sua principal conclusão. Pelo lado do discurso, 65% das empresas afirmaram que seus CEOs – o nível mais alto de direção – desenvolvem ou acompanham políticas socialmente sustentáveis, o que demonstraria forte comprometimento com a questão. No entanto, apenas 35% dos gerentes recebem treinamento para integrar a sustentabilidade às estratégias e operações das empresas, o que demonstra baixo nível de ação.

Da mesma forma, 90% afirmaram que seus conselhos de administração discutem ou atuam com a sustentabilidade social, mas apenas 8% relataram que esses grupos oferecem remuneração extra relacionada à performance na área socioambiental.

O relatório considera que as definições de políticas devem mesmo ocorrer na cúpula das empresas, que, de fato, estão se interessando e discutindo cada vez mais a sustentabilidade social corporativa. A ação – dividida em implementação, comunicação e medição de impacto –, no entanto, depende de um maior comprometimento dos colaboradores e dos recursos, o que os dados mostram não estar acontecendo.

A análise da atuação nos temas específicos do Pacto Global reforça a conclusão. Sete em cada dez empresas têm políticas anticorrupção, mas apenas três em cada dez criaram canais para receber denúncias anônimas. Do mesmo modo, 72% incluíram os direitos humanos em suas diretrizes, mas apenas 37% criaram mecanismos para reclamações relacionadas ao tema.

O trabalho de sustentabilidade com fornecedores das empresas também continua mais no discurso do que na prática. Entre os pesquisados, 57% disseram incluir o tema em seus contratos de fornecimento. No entanto, apenas 18% ajudam seus fornecedores a estabelecer e aplicar metas de responsabilidade social.

O relatório, no entanto, não adota um tom pessimista em relação a esses resultados. “Muitas empresas estão criando políticas que definem metas e requisitos de sustentabilidade, isso é um passo importante, na medida em que as políticas servem como uma declaração formal de intenções e estabelecem as bases para futuras ações de sustentabilidade.”

Fatores de influência
O relatório destaca que os princípios do Pacto Global são aplicáveis tanto para pequenas quanto para grandes empresas (com mais de 5 mil empregados), mas há uma distância “enorme” na atuação delas em quase todos as frentes analisadas.

O fosso entre discurso e prática existe em organizações de tamanhos diversos, mas é menor entre as grandes empresas: 58% possuem mecanismos para receber reclamações sobre direitos humanos, proporção que cai para 28% entre as pequenas. Entre as primeiras, 48% fazem avaliação de riscos de corrupção, enquanto apenas 15% das pequenas fazem a mesma coisa.

Ainda assim, o estudo destaca que os negócios de menor porte têm conseguido incrementar suas atividades de sustentabilidade social ao longo do tempo, aproximando-se de seus “colegas” maiores. O relatório destaca avanços principalmente em temas como direitos humanos e meio ambiente.

O tempo de comprometimento com o Pacto Global também influencia. Segundo a pesquisa, quanto mais recente o compromisso com a iniciativa da ONU, pior é o resultado da empresa. Isso fica claro na análise sobre a “turma de 2009”. Até 2012, as empresas que aderiram ao pacto naquele ano avançaram significativamente em todos os princípios. As políticas anticorrupção, por exemplo, aumentaram 24% no período; as medidas para incentivar a sustentabilidade na cadeia de fornecedores, 20% – mesmo aumento para a criação de sistemas de manejo ambiental.

Temas
Dentre os princípios preconizados pelo Pacto Global, os que mais recebem atenção das empresas são os relacionados a trabalho e meio ambiente. Entre os respondentes, 69% afirmaram ter políticas definidas para o primeiro tema, e 63% para o segundo. Já os direitos humanos e ações anticorrupção tiveram ações definidas, respectivamente, por 51% e 50% dos pesquisados.

Para o relatório, a proeminência dos temas trabalhistas e de direitos humanos se deve a “forças externas”: há décadas as empresas lidam com regulações governamentais em torno desses temas, o que levou à formação de equipes dedicadas apenas a lidar com esses assuntos.

A pesquisa, no entanto, aponta que direitos humanos e combate à corrupção deverão ganhar mais prioridade à medida em que esses assuntos vão sendo percebidos como fundamentais para o sucesso das empresas. “Para se manterem competitivas, um número cada vez maior de companhias vai ter de colocar mais ênfase em todos os aspectos da sustentabilidade”, conclui o relatório.

 

 

Falta de Cultura de Doação e de Estrutura Dificulta Investimento Social de Micro e Pequenas Empresas

A cada 100 empresas brasileiras, 99 são micro ou pequenas (MPEs) – ou seja, faturam até R$ 3,6 milhões ao ano, segundo dados do Sebrae. A participação desse grupo no investimento social, porém, é quase nula. Isso ocorre em razão tanto da falta de cultura de doação quanto da ausência de uma estrutura para esse tipo de prática, avalia o professor Marcelo Aidar, coordenador-adjunto do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP).

“Essas empresas mal dão conta de atender a seus requisitos sociais, como estar de acordo com a legislação ambiental e trabalhista, quanto mais tratar de questões que extrapolam a própria missão delas”, constata. Além disso, “elas não enxergam oportunidades de utilizar o apoio a causas sociais como meio de alavancar seus negócios”.

A visão do professor da FGV é compartilhada pelo secretário-geral do Grupo de Instituto, Fundações e Empresas (Gife), André Degenszajn. “As micro e pequenas empresas não têm um investimento tal que justifique a criação de um corpo profissional para isso”. Para Degenszajn, há, também, no Brasil, a “ideia cultural de que o Estado precisa assumir as funções sociais, de que isso é responsabilidade dele”.

O resultado é que o investimento em causas sociais por micro e pequenos empresários, quando existe, é quase sempre irrelevante. “Fica tudo com cara de doação, mais assistencialista. Não tem uma coisa maior, mais estruturada, mais permanente, como uma prática de gestão”, constata Aidar. “A tendência são atividades mais pontuais. Valores menores levam a menor continuidade de ações e maior dificuldade de construir investimento social mais estratégico”, complementa Degenszajn.

A união faz a força
“Eu, particularmente, não acredito que é necessário ser grande ou ter muito dinheiro para fazer isso”, afirma Aidar. A questão, portanto, é como potencializar os recursos que as micro e pequenas empresas talvez tenham para investir socialmente. A resposta pode estar na união de forças. “As fundações comunitárias são criadas para desenvolver determinada região e têm apoio principalmente de organizações locais, de micro e pequenas empresas, de indivíduos e até do poder público local” explica Degenszajn.

Trata-se, portanto, de uma estratégia que busca unir as poucas forças de diversos atores. As fundações comunitárias “recebem aporte de diversas fontes, conseguem desenvolver prioridades, estratégias de ação e são um tipo de investimento que faz sentido como canal e estratégia para micro e pequenas empresas”, afirma o secretário-geral do Gife.

O impacto desse tipo de ação, segundo Degenszajn, é maior do que pegar todos estes recursos e dispersá-los de forma não estratégica. “É um caminho interessante para pensar investimentos de micro e pequenas empresas, para tentar lidar com os desafios da regularidade, de algo não tão pontual, que é uma das principais dificuldades quando investidores privados decidem atuar na área social.”

Esse é, contudo, um tipo de organização ainda muito pouco estruturada no Brasil, embora bastante comum na Europa e nos Estados Unidos. Um dos poucos exemplos é o Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICom), que mobiliza investidores sociais da região.

Incentivar a cultura
Para Aidar, o desenvolvimento do investimento social das micro e pequenas empresas passa pela educação dos empresários. “Precisa haver uma capacitação para que entendam que investir em causas sociais significa também cuidar da marca, cria valor para seu produto”, diz o professor da FGV. Ele percebe, por exemplo, uma nova mentalidade naqueles que se dedicam a criar os chamados negócios sociais, que buscam suprir algum tipo de demanda social ao mesmo tempo em que geram lucros.

Para Degenszajn, “começa a se consolidar a máxima da Rio 92 de que não existe empresa bem-sucedida em sociedade falida”, o que leva a uma demanda por mais ações sociais por parte dos empresários. O secretário-geral do Gife admite que a tendência é mais forte entre as grandes empresas, mas lembra que as micro e pequenas também têm de cuidar dos impactos negativos que geram.

Até por isso, Aidar afirma que “o negócio não pode mais ser visto de maneira isolada, pois vai ser mais bem-sucedido se pensar em seu entorno”.

 

 

Oraganização Social Mineira Redireciona Atuação e Mostra Importância do Planejamento Estratégico

Para ampliar as chances de atingir seus objetivos, uma organização social precisa de planejamento estratégico. Ainda que essa proposição pareça óbvia, poucas entidades traçam esse tipo de plano quando começam a atuar, e depois de anos de existência, é ainda mais raro lançarem mão desse recurso. Mas foi exatamente isso o que fez a Associação Ortópolis Barroso (AOB), criada há nove anos no município mineiro de Barroso.

“Com o planejamento, ficou mais claro o nosso papel na comunidade, e a Associação, que atuava mais como executora de projetos, reforçou sua postura de articuladora dos diversos atores do município”, afirma a gerente executiva da AOB, Regina Couto.

“O planejamento é uma revisão de estratégias e ajuda a dar norte em um contexto de diversas possibilidades”, diz Adriana Deróbio, gerente de projetos do IDIS, que foi contratado pelo Instituto Holcim, principal financiador da AOB, para assessorar  na redefinição  da sua estratégia de atuação em Barroso.

Inicialmente, segundo Adriana, a Associação tinha uma atuação pulverizada. Em encontros realizados em 2012, envolvendo diversos representantes da comunidade, foram definidos cinco eixos de atuação: meio ambiente; fortalecimento institucional; trabalho e geração renda; cultura, esporte e lazer e influência em políticas públicas.

Parte dos eixos inclui temas antes já abordados, como aqueles ligados a meio ambiente e geração de trabalho e renda. A mudança foi, principalmente, na forma de atuação. “A Associação deixa de ser apenas mais um agente colocando projetos em funcionamento no município para ser também o articulador de outras iniciativas, fazendo o link entre outros atores, olhando o contexto e unindo forças”, comenta Adriana.

A Associação Ortópolis Barroso até já se autoatribuía a missão de também funcionar como articuladora, mas, como diz Regina, isso ficara apenas no papel. Assumir essa linha de ação, no entanto, não significa que a entidade vá deixar de tocar projetos próprios. No momento, por exemplo, a AOB desenvolve o Observatório Social de Barroso, um levantamento coletivo de diversos indicadores municipais. Com os dados, a organização pretende ajudar Barroso a implementar um Plano de Desenvolvimento Participativo, com o envolvimento de diversos atores municipais.

Fortalecimento
A AOB nasceu do Projeto Ortópolis, criado há dez anos pelo Instituto Holcim e baseado em  uma proposta inovadora com o objetivo de buscar alternativas para o desenvolvimento sustentável do município. Dado o grande desafio, surgiu um importante eixo de fortalecimento institucional, para conferir à Associação maior autonomia, ampliação das fontes de recursos e organização de papéis internos.

O processo de fortalecimento inclui um foco na sustentabilidade da Associação. “Esse é o primeiro ano em que a Ortópolis está fazendo captação própria, de forma estruturada e estratégica”, ressalta Adriana. A diversificação de fontes de financiamento estava no horizonte do planejamento estratégico, tanto que a AOB tem metas graduais de aumentar a captação de recursos, para reduzir a dependência em relação à Holcim. “Em 2013, nossa meta foi de arrecadar 30% do orçamento com outras fontes, proporção que deve crescer nos próximos anos”, afirma Regina.

Para saber mais sobre investimento social comunitário e o trabalho desenvolvido pelo IDIS, escreva para comunicacao@idis.org.br.

Investimento Social Desenvolve Não Só Quem Recebe, Mas Também Quem Faz

O investimento social privado (ISP) tem efeitos não só sobre os beneficiários de suas ações, mas também sobre aqueles que praticam a filantropia. Essa foi uma das conclusões a que chegaram os participantes do Encontro de Investidores Sociais de Santa Catarina, organizado pelo IDIS e pelo Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICom) em 6 de novembro, na capital catarinense. O evento foi o último das três reuniões regionais com investidores sociais programadas para 2013 – os anteriores aconteceram em Minas Gerais e Pernambuco.

“O foco do Encontro foi o investimento social privado como garantidor da liberdade do indivíduo e de sua possibilidade de autorrealização”, afirmou o gerente executivo do ICom, Anderson Giovani, em entrevista depois do evento. Ele participou da mesa “Impacto do ISP: mudando a vida das pessoas”, que também contou com a presença do gerente geral de programas da Fundação Amazonas Sustentável, Leandro Pinheiro, e foi moderada pela professora da Universidade do Estado de Santa Catarina, Paula Schommer.

Giovani também destacou a importância que o evento deu ao outro lado do investimento social privado: o daqueles que o praticam. “Falou-se do investimento social privado para além da técnica, pois ficamos sabendo também como os investidores se sentem como membros da comunidade em que atuam.”

O Encontro trouxe pessoas que “entendem que não é só doar, é preciso também se ver no outro”, disse o gerente de comunicação do IDIS, João Paulo Vergueiro. Ele citou, como exemplo, a fala do presidente da construtora Pedra Branca, Valério Gomes Neto: “É uma pessoa que se reconhece não só como empresário, mas também como investidor social comprometido.”

Gomes Neto participou da mesa “Impacto do ISP: desenvolvendo a economia”. Esteve ao lado do diretor financeiro do Instituto Vilson Groh, Leo Mauro Xavier Filho, moderada pela presidente do conselho deliberativo do ICom, Lucia Dellagnelo.

Vergueiro mencionou também a última mesa, “Diálogos do bem: motivação para fazer a diferença”, que trouxe Alice Kuerten (Instituto Guga Kuerten) e o Padre Vilson Groh. “Eles mostraram que existem pessoas que saem da lógica do investimento financeiro e investem algo ainda mais caro, que é a própria vida”, ressaltou Giovani.

Investimento comunitário
O Encontro acabou discutindo profundamente o investimento comunitário. Para Vergueiro, a existência do ICom fez com que em Florianópolis exista um “entendimento já mais estabelecido de o que é investimento social e comunitário, permitindo um debate mais profundo quanto às ações”.

Esse foi o foco, inclusive, da mesa “Impacto do ISP: fortalecendo comunidades”, que reuniu Lucia Dellagnelo e o cientista social , atualmente consultor da Agência de Desenvolvimento Ecos da Mata, Marcelo Dino Fraccaro, em conversa mediada por Marcos Kisil, diretor-presidente do IDIS. “No investimento comunitário, a comunidade lida com questões pertinentes a ela mesma, e o investimento social privado tem a oportunidade de testar novas formas de melhorar a vida das pessoas”.

O Encontro de Investidores Sociais de Santa Catarina contou com a parceria institucional da Charities Aid Foundation (CAF) e apoio financeiro da Rockefeller Foundation. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Grupo de Líderes Empresariais (LIDE) de Santa Catarina também foram parceiros do evento.

Caso você tenha interesse em nos ajudar a levar o Encontro para a sua região em 2014, entre em contato pelo e-mail comunicacao@idis.org.br.

 

 

Conversa é a Melhor Maneira de Incentivar Filantropia Entre Jovens, Aponta Pesquisa

Conversar com as crianças e os jovens é a melhor forma de engajá-los em um comportamento filantrópico, concluiu o estudo Women Give 2013, realizado pela Lilly Family School of Philanthropy, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, o diálogo é até mais eficiente do que os pais praticarem filantropia e servirem de modelo para os filhos.

relatório baseia-se num acompanhamento de 903 pessoas nos Estados Unidos, nascidas entre 1980 e 2000 (a geração chamada deMillenials), com idade média de 15,7 anos – à época em que foram entrevistadas. As conversas aconteceram em dois momentos diferentes: entre 2002 e 2003 e entre 2007 e 2008.

Uma das conclusões do levantamento é que, mantendo iguais os outros fatores, há uma forte correlação entre a conversa dos pais sobre filantropia e o engajamento dos filhos: 0,765 (quanto mais próximo de 1, maior a correlação). Quando a questão não é discutida em casa, o número cai para 0,640. O comportamento filantrópico dos pais não afeta as probabilidades.

Women Give 2013 detectou ainda que a conversa funciona tanto com filhos quanto com filhas e independe do perfil racial, da idade e da renda dos entrevistados. Ou seja, falar sobre o tema funciona sempre como o melhor incentivo.

Ao que parece, os pais já perceberam. As respostas às questões sobre comportamento filantrópico mostram que 87% dos jovens conversaram sobre ação social com seus responsáveis, nos dois períodos pesquisados. Mais uma vez, há homogeneidade entre as diversas classes sociais: 87% dos jovens de famílias de alta renda afirmaram ter falado sobre o tema com os pais, a mesma porcentagem verificada entre os de renda mais baixa e muito parecida com a dos entrevistados de renda média (89%).

Comportamento
O estudo analisou ainda o comportamento dos entrevistados em relação a atitudes filantrópicas, e os resultados foram positivos. Segundo os dados, 9 em cada 10 jovens dos Estados Unidos doaram para projetos sociais. Mais ainda: esse é um comportamento recorrente: 55% dos entrevistados afirmam ter doado tanto entre 2002 e 2003 quanto entre 2007 e 2008.

A prática é comum nos dois gêneros: entre os garotos, 87% disseram ter doado ao menos uma vez no período pesquisado, proporção semelhante ao de garotas (88%). Os números também foram bem homogêneos em relação às diversas faixas de renda. Entre os entrevistados de alta renda, 90% disseram ter feito doações nos períodos pesquisados, apenas um pouco mais que os de renda baixa (87%) e média (86%).

Por todos esses dados, o estudo traz uma conclusão bem otimista: “Os resultados significativos do Women Give 2013 demonstram ótima perspectiva para o futuro da filantropia”.

Embora no Brasil não haja estudos semelhantes, os números do Women Give 2013 oferecem boas indicativas de como as organizações sociais podem – e devem – estruturar suas estratégicas de captação de recursos. Por isso, é um importante instrumento para a filantropia e o investimento social também no nosso país.

Para conhecer mais sobre o estudo, acesse o relatório na íntegra (em inglês) aqui.

 

 

Plataforma Virtual Incentiva Transparência e Fortalece Organizações de Sociedade Civil

Dois dos principais desafios das organizações da sociedade civil (OSCs) no País são comunicar-se bem e mostrar-se idônea num ambiente com muitos escândalos envolvendo repasses suspeitos de dinheiro público ao Terceiro Setor. Para enfrentar essas dificuldades, 30 entidades de Santa Catarina, apoiadas pelo Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICom), criaram uma plataforma virtual em que as organizações inserem inúmeros dados sobre suas atividades e sua estrutura e o sistema gera automaticamente um relatório de atividades consolidado.

Trata-se do Portal Transparência, lançado em 2010. Seu objetivo é justamente facilitar a comunicação entre as OSCs e a sociedade e estimular as ONGs a aplicarem a si mesmas um rigoroso processo de transparência pública, aprimorando sua gestão.

“Havia uma questão: como mostrar que eram diferentes de outras organizações e que faziam um bom trabalho?”, lembra a coordenadora de projetos do ICom, Renata Pereira Machado, ao falar sobre as motivações da iniciativa.

A resposta não veio facilmente. Foi ainda no Fortalecer, projeto do ICom  para fortalecimento institucional das organizações, que o portal começou a ser gestado. Depois, as entidades passaram 2009 discutindo os parâmetros de funcionamento da plataforma. “Consultamos outros portais e fizemos oficinas para criar os indicadores do site”, conta Renata.

Os indicadores são coletados a partir de uma extensa lista de perguntas a que as organizações devem responder. Dividem-se em quatro eixos: identidade, gestão, resultados e parcerias. “A ideia é que as organizações repensem sua estrutura e atuação enquanto respondem ao questionário. Ele faz com que elas voltem a seus estatutos, levantem seus resultados e mobilizem vários setores internos, como diretoria e coordenadores de projetos”, explica a representante do ICom.

Quem passa pelo trabalhoso processo de inscrição ganha não só um importante instrumento de comunicação, mas também de gestão. Pela plataforma, as organizações conseguem gerar um relatório completo de atividades, inclusive com gráficos e tabelas que facilitam a visualização dos dados.

“Algumas OSCs adotaram o documento do portal como sua publicação oficial, e elas entregam os relatórios para possíveis investidores quando vão buscar recursos”, diz Renata. O site serve, assim, para criar o chamado relatório de atividades consolidado, documento exigido, por exemplo, em inscrições para prêmios ou para prestação de contas em algumas instâncias públicas.

Não é toda entidade que se dispõe a (ou que tem condições de) passar por todas as etapas. Há cerca de 200 organizações que já têm login e senha na plataforma, mas não publicaram suas informações. “Nem todas conseguem levantar dados com facilidade. A rapidez do processo depende muito da estrutura interna da entidade”, constata Renata.

Uma avaliação de impacto realizada pela Fundação Itaú Social apontou que o projeto, de fato, faz diferença. “O estudo mostrou que as organizações que participam têm maior clareza de identidade, melhores processos de governança e gestão e maior quantidade de parceiros”, declara a coordenadora do ICom.

Nacionalização
O Portal Transparência concentrou-se, nos seus dois primeiros anos, em entidades da grande Florianópolis. Isso aconteceu em parte porque o ICom, cuja sede fica na região, faz visitas in loco às organizações inscritas, para ajudá-las a se adequar aos parâmetros da plataforma. Depois desse período, foi iniciado um processo de nacionalização da iniciativa.

Se a distância impossibilita as visitas, a rede virtual apareceu como solução. “Nós criamos um curso à distância com a Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), voltado para gestores de ONGs, e que tem como linha mestra os quatro eixos abordados pelo portal”, explica Renata. Além de abordar conceitos teóricos do setor, o trabalho prático é inscrever a OSC na plataforma.

O resultado é que hoje há 70 organizações cadastradas no Portal Transparência. Por participarem da plataforma, recebem o selo “Compromisso com a Transparência”. Renata ressalta que isso não significa que o ICom certifique os participantes, até porque eles são inteiramente responsáveis pelas informações que prestam. O importante é, na verdade, as OSCs terem assumido voluntariamente um compromisso de se mostrarem claramente à sociedade.

Para saber mais, visite o Portal Transparência.

Senso moral e identificação com causas

O que motiva as pessoas a doar? Foi esta pergunta que norteou a “Why we Give” (Por que doamos), mais recente pesquisa da Charities Aid Foundation (CAF), organização britânica voltada ao incentivo à doação em vários países e parceira do IDIS no Brasil. Fatores como valores pessoais e comprometimento com alguma causa aparecem no topo, mas a religião também tem lugar de destaque entre os moradores do Reino Unido.

O estudo, entrevistou 722 pessoas, e incluiu também outros temas relacionados ao investimento social privado no país. O levantamento faz parte de uma campanha maior da CAF (#whywegive) para incentivar as pessoas a compartilhar suas experiências de doação nas mídias sociais.

Na sondagem, as motivações pessoais mostraram-se os principais fatores de incentivo à doação: 97% dos entrevistados mencionaram valores pessoais, 96% citaram seu senso de moralidade ou ética e 75%, a crença em alguma causa em particular. A religião aparece em seguida, com 71%. A intenção de deixar um legado positivo serve de motivo para apenas 38%.

O estudo cita o caso de uma entrevistada, a aposentada Amy Bright, que separa 10% de sua renda – o tradicional dízimo – para sua igreja e instituições sociais cristãs. “Nossa doação é baseada na crença de que tudo o que temos pertence a Deus e que devemos retribuir tanto à Igreja quanto a quem necessita”, disse a aposentada na pesquisa.

O dízimo religioso, por sinal, parece corroborar outro resultado do estudo. Na média, os entrevistados afirmam que os mais ricos deveriam doar 15% de sua renda. Porém, analisando os dados sob a ótica de outras medições estatísticas (moda e mediana), tem-se 10% para ambas. “Isto é um alinhamento com os 10% encorajados por grupos religiosos”, afirma o relatório.

A importância da fé, segundo o documento, é confirmada por uma pesquisa anual da CAF, “que mostra que doações ligadas a religiões e crenças têm atraído a maior média de recursos doados nos últimos três anos”.

O levantamento também questionou os entrevistados sobre o que eles pensam do investimento social privado, e 61% responderam que é fundamental que os mais ricos falem sobre suas doações para ajudar a incrementar esse comportamento no Reino Unido. O resultado deu força à campanha da CAF para que as pessoas falem mais sobre seus investimentos sociais.

Além disso, o estudo identificou um comportamento aparentemente paradoxal. Apesar de 79% dos entrevistados acreditarem que as organizações da sociedade civil têm problemas financeiros, somente 40% afirmaram que vão aumentar suas doações no próximo ano. Segundo o relatório, “isto pode estar ligado a uma falta de confiança na economia do Reino Unido”.

Arrecadar mais

Como captar recursos em um ambiente como esse? Outros resultados da pesquisa indicam alguns caminhos. A maioria (72%) afirma que só doaria para organizações que demonstrassem seu impacto de maneira clara. Questionados sobre como as entidades poderiam aumentar sua arrecadação, 81% dos entrevistados citaram a demonstração do impacto das ações como um fator decisivo. Já 78% cobraram das empresas que elas apoiem mais as ONGs.

A educação também apareceu como um dos fatores capazes de elevar os recursos doados: 62% disseram que “uma cooperação crescente entre escolas e organizações da sociedade civil provavelmente aumentaria as doações” ao incutir nas crianças um comportamento solidário. Outro trabalho da CAF, “Growing up giving”, havia apontado a importância do sistema educacional no encorajamento de um comportamento filantrópico.

Questões tributárias também são importantes. Mais de três quartos dos entrevistados (77%) avaliam que, se os doadores conhecessem melhor os incentivos fiscais existentes, as doações provavelmente cresceriam. Ao mesmo tempo, 76% deles dizem que novos incentivos seriam bem-vindos.

Semelhanças com Brasil

A religião é um fator importante para doadores não só no Reino Unido, mas também no Brasil. Segundo estudo do IDIS e da Ipsos Public Affairs, as instituições religiosas aparecem como as mais beneficiadas pelos doadores brasileiros: 30% dos entrevistados disseram doar para igrejas, porcentagem semelhante àquela dos que disseram doar para pedintes de rua. Apenas 14% dos entrevistados disseram doar para organizações não governamentais.

A grande maioria dos brasileiros (84%) desconhece os mecanismos nacionais de doações dedutíveis do Imposto de Renda. Se os britânicos estiverem certos ao acreditarem que um maior conhecimento sobre incentivos fiscais poderia aumentar o volume de doações, esse é um bom caminho para as entidades do Brasil.

Setor privado é fundamental para alcance de metas sociais, diz Pnud

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) são um conjunto de oito metas socioeconômicas que os países da ONU se comprometeram a atingir até 2015. Envolvem temas-chave como redução da pobreza, igualdade entre os sexos e universalização do ensino básico. Desde o momento em que foram firmados, há quase 15 anos, ganharam a adesão de boa parte do setor privado. E o Brasil tem tido um importante papel na articulação das empresas em torno das metas.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) – responsável capitanear a promoção dos ODM –, na assinatura da Declaração do Milênio, em 2000, já estava claro que não seria possível alcançar os Objetivos sem a participação da iniciativa privada.

No Brasil e em outros países, essa participação às vezes se dá em parcerias diretas entre órgãos da ONU e as empresas. No caso brasileiro, o Projeto ODM 2015, por exemplo, foi criado em 2011 e conta com recursos de empresas como Petrobras, Furnas e Banco do Brasil. A finalidade é municipalizar os Objetivos de Milênio, como forma de torná-los mais efetivos.

O projeto é alinhado com uma avaliação do Pnud de que, na média, o Brasil avançou nos Objetivos do Milênio, mas persistem desigualdades significativas. Por exemplo, os objetivos 5 (redução da mortalidade materna) e 7 (que inclui acesso a saneamento básico e água) apresentam resultados bastante diversos entre as regiões.

Outro tipo de parceria é a Aliança para o Desenvolvimento Local, firmada pelo Pnud e pela Fundação Vale, braço social da mineradora brasileira. A ideia é promover o desenvolvimento de municípios afetados pela indústria extrativista, e suas ações se concentram no Pará e no Maranhão.

Depois das metas

O papel fundamental do setor privado nos Objetivos do Milênio é tão reconhecido pela ONU que, no mesmo ano 2000 em que as metas foram traçadas, as Nações Unidas lançaram o Pacto Global, que busca envolver as corporações em torno de dez princípios relacionados a direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate a corrupção.

O Pacto Global é composto por redes nacionais, e o Brasil tem a quarta maior do mundo, com mais de 600 membros. Até por isso, o Pnud considera que o país é um grande influenciador das outras. Essa influência é especialmente relevante pelo fato de que é por meio do Pacto Global que o setor privado está participando da construção da agenda pós-2015, quando vencerem os Objetivos do Milênio.

A rede brasileira teve importância destacada, segundo o Pnud, no último encontro de líderes do Pacto Global, em setembro de 2013, em Nova York. Durante a conferência, foi lançada a iniciativa Arquitetos de um Mundo Melhor, que, nas palavras do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, foi projetada para “conduzir e ampliar ações corporativas que, diretamente, possam fazer os objetivos das Nações Unidas avançarem”.

A relação entre as empresas e a ONU só deve aumentar no cenário pós-2015, quando será elaborada uma nova agenda de prioridades. O tema ganhou fôlego durante a Rio+20, em 2012 e, segundo o Pnud, o setor privado surge como ator e parceiro indispensável na construção do novo paradigma de desenvolvimento sustentável, que contemple, simultaneamente, aspectos econômicos, sociais e ambientais.

Estudos tentam desvendar estímulos cerebrais ligados à doação

A oxitocina é um hormônio considerado fundamental para a criação de laços familiares, como as relações maternais e maritais. Mas também está por trás de atos de doação, a ponto de se poder dizer que doar é como participar de uma “família sintética”.

É isso que mostra o professor de finanças da Texas Tech University, Russell James 3º, no texto “Brain studies and donor decision making: what do we know”, publicado na edição de inverno do periódico Advancing Philantropy, da Association of Fundraising Professionais (a associação norte-americana, canadense e mexicana de captadores de recursos, semelhante à tupiniquim ABCR).

O autor faz, no texto, um apanhado de várias pesquisas neurológicas que tentam explicar atos de caridade. Cita um estudo que usou injeções de oxitocina para mostrar que os mecanismos cerebrais por trás das conexões familiares são os mesmos ligados a atos de doação.

James 3º também menciona pesquisas segundo as quais o toque humano, seguido de um presente, aumenta a presença do oxitocina, também levando a uma maior propensão à doação. Não por acaso, apertos de mão, abraços e prêmios para doadores são técnicas muito usadas em eventos de arrecadação, sugere o texto.

“De uma perspectiva neural”, compara James 3º, “a doação é menos parecida com uma transação comercial e mais semelhante a compartilhar um jantar em família”. Ele ainda sugere: “O entendimento das relações entre um doador e uma organização como uma ‘família sintética’ pode indicar estratégias de captação”.

Nas doações via legado, ou seja, deixadas em testamento, imagens do cérebro feitas por ressonância magnética funcional indicam que o critério de escolha da organização beneficiada não costuma ser a eficiência, mas sim o quanto ela está relacionada com a história de vida do doador. Segundo o professor, esse tipo de ato é “como escrever o capítulo final de sua biografia”.

Outros estudos com imagens cerebrais apontam, no entanto, que deixar os recursos para amigos e familiares ativa mais fortemente áreas do cérebro relacionadas a memórias e emoções do que doar em testamento para organizações. Consequentemente, este último tipo é mais raro. James 3º vê nisso outra oportunidade de captação de recursos.

“Quando uma entidade consegue ligar sua causa a algum amigo ou familiar do doador, há um aumento substancial na possibilidade de receber uma doação via legado”, escreve. Pessoas com casos de câncer na família, por exemplo, seriam mais suscetíveis a deixar recursos para organizações que lidem com esse tema.

Outras descobertas

A primeira pesquisa a usar técnicas de análise cerebral para explicar comportamentos donativos foi publicada no Brasil em 2006, segundo James 3º, e mostrou que a decisão de doar ativava áreas de “recompensa” do cérebro. Mais ainda, indicou similaridades neurológicas entre os atos de dar e de receber dinheiro. “Da perspectiva da felicidade neural instantânea, doar pode ser na verdade uma grande aquisição para o doador”, afirma James, referindo-se ao prazer gerado pelo ato.

Um trabalho do Instituto de Tecnologia da Califórnia sugeriu que, embora o sentimento de realização seja o mesmo, tal sensação tem origens diferentes em cada caso. A doação ativa duas partes do cérebro: uma usada quando se toma a perspectiva de um terceiro pessoa, e a outra relacionada à capacidade de empatia. De certa forma, isso explicaria, segundo o autor, um efeito chamado de “vítima identificável”. “As pessoas tendem consistentemente a doar para beneficiar uma só e identificável vítima do que para milhares de pessoas.”

Há indícios, ainda, de que a doação mobiliza partes do cérebro relacionadas a ligações e reconhecimentos sociais. Até por isso, cientistas japoneses mostraram que os indivíduos sentem-se mais recompensados quando doam publicamente. “A caridade pode ser recompensadora, mas é mais ainda quando outras pessoas percebem o que você está fazendo”, resume James 3º.

Por fim, o professor afirma, após sintetizar uma série de pesquisas, que as novas técnicas de análises cerebrais podem ajudar arrecadadores de recursos. “Em vez de remover a ‘arte’ da captação de recursos, os achados científicos parecem reforçar a importância do lado mais humano das nossas interações”, diz James 3º, que conclui: “No fim, a ciência cerebral parece nos mostrar que a arrecadação é, acima de tudo, uma questão do coração”.

Doação de Legado Ainda Engatinha no Brasil

Mesmo trágica, a morte ainda dá uma última oportunidade de fazer o bem: o legado – parte da herança que pode ser destinada, por meio de testamento, da forma que o indivíduo achar melhor. A prática de deixar os recursos para alguma organização da sociedade civil (OSCs) é comum em alguns países desenvolvidos, mas pouco difundida por aqui.

“Na Inglaterra, tem crescido a captação de recursos por meio do legado, já no Brasil não existem muitas experiências”, disse o gestor de captação de recursos da ActionAid, Bruno Benjamim, durante a palestra “Captação de recursos via legado: é possível?”. O debate foi organizado pela ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos durante a ONG Brasil, evento de responsabilidade social que aconteceu na Expo Center Norte, em São Paulo, entre 28 e 30 de novembro.

Apenas em 2011, a doação via legado chegou a £ 1,1 bilhão no Reino Unido, segundo a Charities Aid Foundation (CAF). A própria ActionAid, entidade britânica de combate à pobreza presente em várias nações, capta parte de seus recursos dessa maneira, segundo Benjamim. E não só na Inglaterra, mas também na Itália, Holanda e Austrália. “No Brasil, já fomos procurados por dois doadores, mas não sabemos como agir, estamos consultando nosso corpo jurídico”, disse Benjamim.

A questão no Brasil ainda é anterior ao financiamento pelo legado. “A grande dificuldade das OSCs é conseguir doadores”, afirmou o especialista em arrecadação de recursos e fundador do Instituto Doar, Marcelo Estraviz. Ele apresentou uma pirâmide de como se constrói a relação com doadores: começa com doações esporádicas e tem, no topo, a doação do legado.

O tempo, portanto, é um fator fundamental para que uma pessoa deixe a uma OSC parte de sua herança. “Depois de uma relação de cinco, dez anos, começa a se falar de legado”, disse Estraviz: “Na Espanha, assim como no Brasil, não existe uma cultura de escrever testamentos, mas eles estão fazendo campanhas para que as pessoas escrevam e deixem legados”.

Outro fator que atrai doações de herança, principalmente na área da saúde, é o envolvimento pessoal com a causa. Isso, segundo Benjamim, é o que justifica a organização britânica Cancer Research UK ter recebido, em 2011, legados num valor total de £ 148,9 milhões (mais de 500 milhões de reais). No mesmo ano, outra instituição da área de saúde também levantou cifras milionárias com legado: o British Heart Foundation recebeu £ 54,9 milhões (190 milhões de reais) . “As pessoas que doam têm alguma relação familiar com a causa, por isso, saúde leva muito”, apontou.

Toda essa fortuna, no entanto, não vem de uma postura passiva dessas organizações. “A Cancer Research UK gastou £ 7 milhões (R$ 25 mi) em campanhas”, ressaltou o representante da ActionAid.

O Brasil, com 165 mil milionários, segundo a Forbes, tem grande potencial para crescer na arrecadação de legados, na avaliação de Benjamim. Muitas Santas Casas no país receberam, durante sua história, patrimônios deixados por pessoas no testamento – o que mostra o padrão de doar para a área de saúde também tem força por aqui.

A legislação brasileira permite que se deixe para a posteridade 50% da herança – a outra metade tem de ser, obrigatoriamente, distribuída para os herdeiros que a lei determina (geralmente, filhos e cônjuges).

 

 

A Democracia e a Participação Como Resultado Da Mobilização Social

“A criação de uma cultura e uma ética democráticas requer a mobilização social, entendida como a convocação livre de vontades”. É com este pensamento que o filósofo colombiano José Bernardo Toro e a especialista em análise econômica, Nísia Werneck, introduzem o livro Mobilização Social – Um Modo de Construir a Democracia e a Participação.

A obra, publicada em 1996, discute o uso da mobilização social como estratégia para a construção do projeto ético já proposto na Constituição Federal do Brasil: a soberania, cidadania e a dignidade baseada nos valores pressupostos pelos direitos humanos.

O objetivo é sugerir e comentar, em pouco menos de 100 páginas, critérios e formas de conceber, planejar e executar esse tipo de convocação pública. O conteúdo, fundamentado na experiência da Fundación Social da Colômbia, divide-se em três partes:

Parte I: apresenta os conceitos básicos de mobilização social e debate o contexto ético de sua inserção e os princípios democráticos.

Parte II: ensina a estruturar e planejar uma mobilização, desde elencar os atores envolvidos à definição das estratégias e dos modelos de comunicação a serem utilizados.

Parte III: traz aspectos que o mobilizador precisa levar em conta de colocar o processo em prática, como preparação de materiais, momentos de convocação, resolução de dificuldades, sistematização e registro, entre outros.

O livro está disponível tanto para a venda quanto também pode ser baixado na íntegra no site da agência de mobilização social Aracati, de Fortaleza. A organização social procura contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de participação juvenil no Brasil.