Fundação Stickel encerra parcerias: aprendendo com o fracasso

Em artigo, Fernando Stickel, Diretor-Executivo da Fundação Stickel, compartilha experiências e analisa os fatores que levaram ao insucesso duas importantes parcerias da Fundação. O cenário atual, marcado por grandes mudanças, incertezas e sociedades cada vez mais complexas, exige que revisitemos não apenas fórmulas e histórias de sucesso, mas que também busquemos o conhecimento gerado através de situações de fracasso.

Por Fernando Stickel*

A Fundação Stickel  recentemente encerrou parceria com a Casa de Cultura da Brasilândia, equipamento da Prefeitura de São Paulo sob a gerência da Subprefeitura Freguesia-Brasilândia. No mesmo ano de 2012 também encerramos parceria com a Paróquia São José Operário da Igreja Católica, igualmente localizada na Região Episcopal Brasilândia. O fato de encerrar duas parcerias no mesmo ano, o que ocorreu sem a vontade da Fundação, gera a necessidade de uma reflexão, uma vez que todos os projetos desenvolvidos, em ambos os locais, foram de boa qualidade e atenderam à comunidade local. Assim, torna-se inevitável perguntar por que essas parcerias não deram certo. Quais as razões deste aparente fracasso? Onde erramos?

Ao rever todos os documentos relativos a essas parcerias, e recapitular todos os fatos que ocorreram durante o tempo de desenvolvimento dos projetos, concluímos que:

  1. Demos pouca importância em estabelecer um claro documento de parceria que envolvesse as reais autoridades da Subprefeitura e da Igreja Católica. As pessoas que firmaram as parcerias não tinham poder formal para fazê-lo. Assim, qualquer dúvida ou situação criada não tinha responsáveis por dirimir e decidir no âmbito de suas organizações;
  2. Durante o período da parceria, não conseguimos promover um diálogo com lideranças da comunidade que poderiam tomar o projeto desenvolvido como um projeto de seu interesse. A comunidade, por meio de seus líderes naturais, não participou da parceria, e o que é pior, participou da rejeição da presença da Fundação na comunidade;
  3. Em relação à Casa de Cultura, o processo foi similar, pois o convite para que a Fundação operasse lá os seus projetos não partiu de uma liderança local legítima, nem mesmo de um profissional graduado da hierarquia municipal. Como consequência, a Fundação acabou por aceitar uma posição de parceria informal, sem a garantia de contrato, realizando cursos e exposições com pouco interesse da comunidade local. Crises se sucederam, culminando com atitude francamente agressiva por parte dos funcionários públicos alocados na Casa de Cultura, que se colocaram contrários às atividades da Fundação. Isso acabou por gerar níveis de desconforto de tal ordem que a Fundação se viu obrigada a encerrar suas atividades.

Em resumo, aprendemos que a nossa principal falha foi uma total ausência de interlocução, durante o período de parcerias, com uma liderança forte, representativa da comunidade atendida, bem como da instituição parceira. A ausência dessa interlocução em alto nível acabou por minar a legitimidade do trabalho da Fundação.

Este aparente fracasso foi, na verdade, uma excelente oportunidade para a Fundação rever suas práticas de articulação com as comunidades onde atua, bem como de valorizar a importância de instrumentos formais de parcerias que deixam claro as responsabilidades de cada parceiro e as instâncias de solução de eventuais conflitos, o que consideramos natural em um projeto que busca inovar e criar condições para o desenvolvimento sustentável de nossas iniciativas comunitárias.

O desdobramento desse processo de compreensão e amadurecimento consubstanciou-se no estabelecimento de nova parceria no final de 2012, com a Fábrica de Cultura da Vila Nova Cachoeirinha, equipamento do Governo do Estado de São Paulo. Com total alinhamento entre as missões das instituições, e correspondente contrato legal assinado, esta parceria tem vocação para ser sólida e duradoura.

*Diretor-Executivo da Fundação Stickel.

 

Doação de Legado Ainda Engatinha no Brasil

Mesmo trágica, a morte ainda dá uma última oportunidade de fazer o bem: o legado – parte da herança que pode ser destinada, por meio de testamento, da forma que o indivíduo achar melhor. A prática de deixar os recursos para alguma organização da sociedade civil (OSCs) é comum em alguns países desenvolvidos, mas pouco difundida por aqui.

“Na Inglaterra, tem crescido a captação de recursos por meio do legado, já no Brasil não existem muitas experiências”, disse o gestor de captação de recursos da ActionAid, Bruno Benjamim, durante a palestra “Captação de recursos via legado: é possível?”. O debate foi organizado pela ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos durante a ONG Brasil, evento de responsabilidade social que aconteceu na Expo Center Norte, em São Paulo, entre 28 e 30 de novembro.

Apenas em 2011, a doação via legado chegou a £ 1,1 bilhão no Reino Unido, segundo a Charities Aid Foundation (CAF). A própria ActionAid, entidade britânica de combate à pobreza presente em várias nações, capta parte de seus recursos dessa maneira, segundo Benjamim. E não só na Inglaterra, mas também na Itália, Holanda e Austrália. “No Brasil, já fomos procurados por dois doadores, mas não sabemos como agir, estamos consultando nosso corpo jurídico”, disse Benjamim.

A questão no Brasil ainda é anterior ao financiamento pelo legado. “A grande dificuldade das OSCs é conseguir doadores”, afirmou o especialista em arrecadação de recursos e fundador do Instituto Doar, Marcelo Estraviz. Ele apresentou uma pirâmide de como se constrói a relação com doadores: começa com doações esporádicas e tem, no topo, a doação do legado.

O tempo, portanto, é um fator fundamental para que uma pessoa deixe a uma OSC parte de sua herança. “Depois de uma relação de cinco, dez anos, começa a se falar de legado”, disse Estraviz: “Na Espanha, assim como no Brasil, não existe uma cultura de escrever testamentos, mas eles estão fazendo campanhas para que as pessoas escrevam e deixem legados”.

Outro fator que atrai doações de herança, principalmente na área da saúde, é o envolvimento pessoal com a causa. Isso, segundo Benjamim, é o que justifica a organização britânica Cancer Research UK ter recebido, em 2011, legados num valor total de £ 148,9 milhões (mais de 500 milhões de reais). No mesmo ano, outra instituição da área de saúde também levantou cifras milionárias com legado: o British Heart Foundation recebeu £ 54,9 milhões (190 milhões de reais) . “As pessoas que doam têm alguma relação familiar com a causa, por isso, saúde leva muito”, apontou.

Toda essa fortuna, no entanto, não vem de uma postura passiva dessas organizações. “A Cancer Research UK gastou £ 7 milhões (R$ 25 mi) em campanhas”, ressaltou o representante da ActionAid.

O Brasil, com 165 mil milionários, segundo a Forbes, tem grande potencial para crescer na arrecadação de legados, na avaliação de Benjamim. Muitas Santas Casas no país receberam, durante sua história, patrimônios deixados por pessoas no testamento – o que mostra o padrão de doar para a área de saúde também tem força por aqui.

A legislação brasileira permite que se deixe para a posteridade 50% da herança – a outra metade tem de ser, obrigatoriamente, distribuída para os herdeiros que a lei determina (geralmente, filhos e cônjuges).

 

 

Solidariedade é a Principal Característica do Voluntário, Aponta Pesquisa

Levantamento realizado pelo Ibope Inteligência para a Rede Brasil Voluntário revela que 25% da população brasileira já fizeram algum tipo de serviço voluntário, sendo que 11% exercem esse tipo de atividade no momento.
O estudo permitiu conhecer o perfil dos voluntários do País e compreender o que os motiva a doar parte de seu tempo a um trabalho não remunerado. “Ser solidário e ajudar as pessoas” é a motivação mais citada, com 67%, seguida por “fazer a diferença e mudar o mundo”, com 32%,  e “motivações religiosas”, com 22%.

O grau de satisfação de quem desempenha alguma atividade voluntária é alto: 77% dos entrevistados afirmaram que estão totalmente motivados em continuar o trabalho que exercem.

A captação de recursos é uma das principais atividades realizadas no serviço voluntário. Cinquenta e cinco por cento dos entrevistados responderam que captam doações em dinheiro, roupas, brinquedos, alimentos e livros, entre outros, para organizações em que desempenham suas atividades.

Perfil do voluntário

Outra constatação da pesquisa foi que a maioria das pessoas que doa parte de seu tempo ao voluntariado trabalha – em período integral (51%) ou em meio período (14%).

A escolaridade dos voluntários foi outro item analisado na pesquisa: 38% dos entrevistados têm o Ensino Médio completo ou Superior incompleto, 20% possuem o Ensino Superior completo, 18% pararam os estudos entre a 4ª e a 7ª série do Ensino Fundamental, 16% têm o Ensino Fundamental completo ou o Ensino Médio incompleto e 10% têm no máximo até a 3ª série do Ensino Fundamental.

As mulheres realizam mais serviços voluntários do que os homens – 53% e 47%,  respectivamente. A classe C é a que mais se dedica ao trabalho voluntário (43%), seguida das classes AB, com 40%, e das classes DE, com 17%.

A primeira fase da pesquisa, realizada em junho de 2011,  consistia em conhecer a participação da população brasileira em ações de voluntariado. Foram ouvidas 2.002 pessoas. Já a segunda etapa do estudo, feita em novembro de 2011, traçou o perfil dos voluntários brasileiros. Nessa etapa, foram entrevistadas 1.550 pessoas maiores de 16 anos que realizam algum tipo de serviço voluntário.

Para acessar o estudo, clique aqui.

A Rede Brasil Voluntário, criada pelos centros de voluntariado de Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, tem como objetivo reconhecer e expandir o voluntariado no Brasil. Ela apoia cerca de 50 centros de voluntários e incentiva a criação de movimentos organizados e novos centros.

 

 

CPS-FGV – Pesquisa “De Volta ao País do Futuro: Projeções, Crise Europeia e a Nova Classe Média Brasileira”

A pesquisa “De Volta ao País do Futuro: Projeções, Crise Europeia e a Nova Classe Média Brasileira”, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV), coordenada por Marcelo Neri, revela que a classe C deverá chegar a 60% em 2014. O estudo aborda a crise europeia, cenários de classes e suas desigualdades, até 2014, a felicidade futura da população mundial – e também os diferenciais de felicidade futura dos brasileiros e das brasileiras.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

Pesquisa: The New Generation of Community Foundations (A Nova Geração de Fundações Comunitárias)

Esta pesquisa, escrita Jenny Hodgson, Barry Knight e Alison Mathie, demonstra como as fundações comunitárias têm crescido nos últimos anos. O surgimento de uma nova geração de organizações da sociedade civil está ocorrendo em um contexto mais amplo no campo da solidariedade, com o aparecimento de formas híbridas de atuação. Publicado pela Global Fund for Community Foundations e pelo Coady International Institute, em março, o documento foi baseado em três fontes de pesquisa: 1) revisão da literatura sobre conceitos relacionados às fundações comunitárias e sua relação com a ampliação da chamada “economia social”; 2) observações empíricas de profissionais do setor; e 3) apresentação dos seguintes estudos de caso: Dalia Association, da Palestina; Waqfeyat al Maadi Community Foundation, do Egito; Amazon Partnerships Foundation, do Equador; Tewa – Nepal Women’s Fund, do Nepal; e Kenya Community Development Foundation, do Quênia.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

Relatório: The Value of Community Philanthropy (o Valor da Filantropia Comunitária)

Este relatório, escrito por Barry Knight, apresenta os resultados de pesquisa realizada pelas organizações americanas Aga Khan Foundation e pela Charles Stewart Mott Foundation em comunidades de Washington, Estados Unidos; Joanesburgo, na África do Sul; e Dhaka, Bangladesh. O estudo explora diferentes formas para estimular e desenvolver a filantropia comunitária como meio de contribuir para a sustentabilidade das organizações da sociedade civil. Também mostra maneiras de transformar a relação entre doadores e beneficiários para melhorar o desenvolvimento da filantropia.

Clique aqui para obter o arquivo.

 

 

 

 

Livro “Um Dia de Captador” Mostra o Dia a Dia de Professional da Àrea

Livro de Marcelo Estraviz, lançado no Festival Latino-Americano de Captação de Recursos – FLAC 2011, reúne informações técnicas que vão ajudar no cotidiano do captador de recursos.

Livro “Um dia de captador” mostra o dia a dia do profissional da área

O presidente da Associação Brasileira de Captação de Recursos (ABCR) conta na publicação como o profissional da área busca parcerias e financiadores para sua organização. Além de narrar sua rotina, o autor oferece pílulas com informações teóricas e práticas para os captadores de recursos. Segundo ele, “a ideia é que as pessoas se identifiquem com essas questões do cotidiano, para colocarem em ação as sugestões”

Buscar parceiros, participar de eventos de arrecadação e fazer convênios com governos são alguns dos temas tratados no livro. Estraviz descreve as rotinas do captador no contexto da realidade brasileira. “Retratei um dia comum desse profissional em período de campanha de captação para sua entidade. No meio dessa trajetória, separei algumas pílulas muito úteis para o leitor”.

O livro também retrata dificuldades e curiosidades na atividade do captador de recursos. “Uma coisa muito curiosa no cotidiano do captador, é a solidão”, afirma Estraviz. “Às vezes o captador está em uma organização, mas não fala a mesma língua da entidade. Uma parte do livro se dedica a isso, sobre ele se sentir identificado com outras pessoas e captadores.”

Sobre o autor
Empreendedor social, palestrante e escritor. É presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e da associação de ex-alunos do Colégio Miguel de Cervantes; conselheiro da ONGs Trópis e Descentro; e embaixador da iniciativa The Hub no Brasil. É coautor do livro “Captação de diferentes recursos para organizações da sociedade civil”. Atua na área governamental, ocupando posições de direção em instituições e projetos ligados à Prefeitura de São Paulo, ao Governo do Estado de São Paulo e à União Europeia.

Serviço
Um dia de captador
Preço: R$39,90
Para comprar, clique aqui

 

 

Comunicação: Visibilidade e Captação de Recursos Para Projetos Sociais

Publicação de Marcio Zeppelini foi lançada no Festival Latino-Americano de Captação de Recursos – FLAC 2011. O livro reúne matérias e artigos ligados à comunicação e ao marketing voltados para a área social.

livro 1

O livro de Marcio Zeppelini e demais autores convidados, como Ader Assis Jr. e Rodrigo Alvarez, desenvolvido pela Zeppelini Editorial e coeditado em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas- SEBRAE, acaba de ser lançado em um dos maiores eventos de captação de recursos da América Latina, o FLAC 2011.

Os textos que estão na obra foram publicados na Revista Filantropia, especializada em  terceiro setor. São artigos de diversos autores que foram revisados e atualizados e divididos em cinco capítulos, apresentando informações sobre ferramentas de marketing que podem ser utilizadas para promover um projeto social de forma eficiente.

O objetivo do livro é proporcionar aos leitores estratégias de gestão da comunicação que possam incrementar as ações das instituições sociais, levando-as a profissionalização, cada vez mais presente no setor.

“A comunicação foi, é e sempre será o melhor meio de dar visibilidade e credibilidade a um projeto social e, consequentemente, isso contribui para a captação de recursos. É por essa razão que esta publicação traz matérias que já foram veiculadas na Revista Filantropia, ao longo de sua existência, sobre o valor e a atuação da comunicação no terceiro setor. Afinal, como nosso Chacrinha eternizou: “Quem não comunica, se trumbica”’ –  Afirma, Marcio Zeppelini, no texto de apresentação do livro.

A tiragem inicial foi de 3 mil exemplares. Destes, mil exemplares serão distribuídos pelo SEBRAE para bibliotecas de escolas de todo o País, o restante será colocado a venda nas livrarias.

Sobre o autor
Marcio Zeppelini é produtor editorial, jornalista e empreendedor, é editor da Revista Filantropia, diretor executivo da Zeppelini Editorial, diretor da Diálogo Social Treinamentos e apresentador e diretor de Jornalismo da rádio Tom Social. É também palestrante e consultor em comunicação e marketing para o Terceiro Setor e conselheiro da Associação Brasileira de Editores Científicos (Abec).

Serviço
Comunicação: Visibilidade e Captação de Recursos para Projetos Sociais
206 páginas
Preço: R$ 39
Onde comprar: www.zeppelini.com.br

 

 

Guia de Doações do Council on Foundations Tem Versões Impressa e Online

Site do Council on Foundations (COF) disponibiliza ferramenta on-line para orientar financiadores a partir de conteúdos do livro Grantmaking Basics – A Field Guide for Funders, de Barbara D. Kibbe, Fred Setterberg e Colburn S. Wilbur.

livro-grantmaking-basics.jpg

Publicado em conjunto pela Council on Foundations e pela David and Lucile Packard Foudation, o livro é resultado de diversas experiências na área de grantmaking (doações) e dirigido a todo perfil de financiadores, sejam eles de uma comunidade, família, empresa, fundação ou do setor público.

Barbara Kibbe é diretora da David and Lucile Packard Foundation, Fred Setterberg é escritor de livros sobre temáticas do terceiro setor e Colburn S. Wilbur é administrador, ex-presidente e CEO da David e Lucile Packard Foundation.

A base para a produção do livro foram inúmeras entrevistas com profissionais que atuam na área de grantmaking e financiadores seniores americanos. A proposta da publicação é engajar, estimular, provocar e ajudar as pessoas na tarefa cotidiana para fazer do mundo um lugar melhor.

A obra aborda tópicos importantes para o financiador, como o papel e deveres do doador, o que constitui o sucesso no setor filantrópico, formas de monitoramento e avaliação de investimentos, convocação e concessão de doações, além de estratégias e tipos de doação.

Escrito em linguagem acessível para iniciantes, o livro é tanto uma ferramenta como um guia de referência cheio de boas ideias para todos aqueles que estão envolvidos no processo de doação de uma fundação, instituição e empresa. Funciona tanto como um manual para novatos na filantropia, que não tiveram treinamento ou experiência anterior, como um conjunto de recomendações úteis a profissionais experientes para o dia a dia de suas organizações.

O livro pode ser adquirido diretamente no site do COF, custando US$ para associados e US$ 65 para não membros do conselho.

Versão eletrônica – Já a página web Grantmaking Basics Online é uma ferramenta interativa de aprendizagem, que permite aos usuários avançados atualizar seus conhecimentos e aos iniciantes conhecer detalhes do processo de doação.

Este hot site do Council on Foundations é composto de 11 capítulos desenvolvidos a partir de conhecimentos práticos, contendo documentos, dicas, estudos de caso e quizzes, além de um glossário de termos técnicos e links para outros sites de referência.

Membros do COF têm duas modalidades de acesso aos conteúdos: como autodidata, pagando US$ 80, ou se inscrevendo no Mentor Program ao custo de US$ 125. Nesta última, um grantmaker experiente estará disponível para orientação e troca de experiências.

Não membros do COF podem participar do programa online mediante o pagamento de taxa única de US$ 295.

Para mais informações, www.grantmakingbasicsonline.org.

 

 

Pesquisa Aponta que 1/4 de Brasileiros doa Dinheiro para Organizações Sociais

14/9/2010 – O World Giving Index, o estudo mais abrangente já realizado sobre doação no mundo, publicado hoje pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e Charities Aid Foundation (CAF), aponta que um quarto dos brasileiros doou dinheiro para as organizações sociais no último mês. (pesquisa disponível apenas em inglês)

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

O que pode o Filantropo Esperar do Governo?

O diretor-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Marcos Kisil, escreve sobre a relação entre o investidor social e os governos, especialmente no momento eleitoral pelo qual o Brasil passa. Ele questiona, por exemplo, o que os candidatos teriam a dizer sobre a articulação entre seus planos de governo e a participação da sociedade civil.

Em toda e qualquer sociedade democrática, o Estado em sua relação com a sociedade tem, de tempos em tempos, a mudança periódica de seus governantes. No momento pré-eleitoral que o Brasil está vivendo, seria justo perguntar aos candidatos e seus partidos de que maneira veem a filantropia ou o investimento social privado em seus planos de governo.

Seria uma indagação justa – e aparentemente singela – que permitira aos candidatos descrever como pretendem articular seus planos e metas sociais com a participação da sociedade civil, especialmente o seguimento que já assumiu sua responsabilidade individual e coletiva em favor do bem comum, por meio de doações de recursos. Infelizmente esta não é realidade que vivemos. O tema ainda não desperta o suficiente interesse de candidatos e de suas equipes que preparam seus programas de governo.

Esse descaso deve ser entendido sob diferentes perspectivas. A primeira – e mais importante – é a política. Desde a promulgação da Lei das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OCIPS), em 1999, durante o mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, no atual governo Lula, não se aprovou nenhuma legislação que fosse realmente importante para o setor filantrópico, ou mesmo para as organizações da sociedade civil (OSCs).

Essa postura revela uma posição ideológica clara sobre o papel hegemônico e protagonístico do Estado em relação às questões sociais. A isso se soma a conduta utilitária que algumas OSCs se prestam ao receber, sem licitação, recursos de órgãos federais, tornando-se instrumentos de corrupção e de escândalos que envolvem recursos públicos.

Os casos recentemente trazidos à tona pela imprensa envolvendo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) colocam todo o setor em suspeição e descrédito perante a população. Assim, progressivamente, ao contrário do que ocorre em outras democracias, corremos o perigo de assistir ao afastamento da sociedade civil do Estado. Especialmente entre os investidores sociais, que podem deixar de acreditar no Estado como parceiro de interesse estratégico para o desenvolvimento social.

Esse distanciamento pode ser evidenciado em um simples fato: no ultimo congresso do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), realizado em abril de 2010, nenhuma autoridade pública compareceu ou foi convidada a participar de qualquer debate. Embora eu não tenha acompanhado o planejamento do evento, desacredito que os organizadores desejaram deliberadamente afastar os representantes de governos. Avalio que os doadores simplesmente creem mais em seus papéis de agentes independentes do desenvolvimento do que na eventual participação em parcerias governamentais.

Numa feliz oportunidade, pude participar, em julho, do congresso promovido pelo European Foundation Centre, em Bruxelas (Bélgica). A organização é equivalente ao GIFE na Europa.  Das 28 sessões que compunham a agenda do evento, nada menos que 15 contaram com representantes de governos ou da própria Comissão Europeia, incluindo seu próprio presidente, Durão Barroso.

Por que há diferença no tratamento entre lá e cá? Ou seja, quais os motivos para a relação entre filantropos e governos serem valorizadas na Europa e desvalorizadas no Brasil? É possível que os europeus hoje reconheçam a sociedade civil como um espaço estratégico para o avanço social, o que ainda não acontece em terras brasileiras.

Filantropia como caridade 

Além da questão ideológica estatizante, convém exaltar aspectos culturais e  econômicos próprios do setor. Ainda vivemos uma cultura de doações de caráter estritamente paternalista, amadora em muitos aspectos. Ela busca satisfazer necessidades básicas do ser humano, como alimentação, vestimenta e acesso aos cuidados de saúde e à educação básica de qualidade.

Esse tipo de filantropia, com seguidores dentro da sociedade civil, tem sido promovido extensivamente por instituições ligadas a diferentes igrejas. Por representar 2/3 das doações realizadas no Brasil, a cultura da caridade é importante dentro do mundo da filantropia. É interessante reconhecer que essa prática impregna também a destinação de verbas governamentais a diferentes programas de distribuição de renda, que servem para alavancar ambições políticas e de poder de certos políticos. Essas iniciativas pouco contribuem para as transformações sociais ainda necessárias em nosso país.

É inegável que a filantropia é consequência do modelo de uma economia de mercado que visa a acumulação de riqueza. Sem ela, porém, não existe a distribuição voluntária de recursos. Com a disseminação do conceito de Responsabilidade Social Empresarial (RSE), difundiu-se também o papel das corporações em distribuir parte de seus ganhos por meio de programas sociais. A necessidade do investimento social privado resultou num grande número de novos institutos e fundações de caráter empresarial nos últimos 15 anos. Sua importância pode ser evidenciada pelo simples fato de que hoje representam a maioria dos associados do GIFE.

Durante a última crise econômica mundial, iniciada em setembro de 2008, vimos esse investidor social empresarial oscilou. As aplicações de recursos variaram com as circunstancias econômicas. Muitos reduziram drasticamente suas doações, sendo que alguns chegaram a interrompê-las totalmente. São nas fases de crise, porém, que mais há necessidade de recursos para garantir os direitos básicos da cidadania.

Convém lembrar que o número de fundações corporativas dotadas de fundos patrimoniais é uma raridade no contexto brasileiro. A existência de um fundo representa sempre um compromisso de longo prazo e de crença no papel do investimento privado social voluntário.

Acreditamos que todos aqueles que representam lideranças e forças vivas do setor filantrópico e do investimento social devem enxergar na atual fase de campanha eleitoral a oportunidade de participar ativamente, em mobilizar candidaturas que assumam um compromisso político com setor, exigindo tratamento compatível com a sua importância para a consolidação da democracia e dos direitos fundamentais de todo e qualquer cidadão.

 

 

Pesquisa Analisa Sustentabilidade de ONGs Associadas à ABONG

Intitulado Sustentabilidade das ONGs no Brasil: acesso a recursos privados, a pesquisa da Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais (Abong) aponta como as organizações da sociedade civil a ela filiadas estão mantendo a sua sustentabilidade. Apesar de o levantamento qualitativo ter sido feito com 19 ONGs, o estudo indica um cenário em que os recursos da cooperação internacional estão cada vez mais diminuindo. A consequência é a procura por novas fontes financeiras, como os investidores sociais corporativos, familiares e individuais. A íntegra do estudo também está disponível no endereço www.abong.org.br.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

 

Pesquisa Discute Situação das Fundações Comunitárias e seu Papel no Desenvolvimento Local

Com base em 50 solicitações de apoio financeiro, o Fundo Global para Fundações Comunitárias (GFCF) elaborou um relatório em que retrata a situação das fundações comunitárias no mundo. Denominado Mais do que um Primo Pobre? A Emergência de Fundações Comunitárias como um Paradigma de Desenvolvimento, a diretora-executiva do GFCF, Jenny Hodgson, e o conselheiro do Fundo, Barry Knight, refletem como o investimento social comunitário pode criar um novo paradigma de desenvolvimento local. Eles também refletem sobre a emergência de fundações comunitárias nos últimos 15 anos em países do Sul, como Brasil e África do Sul. A versão em português teve apoio do Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICom). A íntegra também está disponível no endereço http://globalfundcommunityfoundations.org/html/documents/more_than_poor_Portuguese.pdf.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

 

 

 

 

 

A Democracia e a Participação Como Resultado Da Mobilização Social

“A criação de uma cultura e uma ética democráticas requer a mobilização social, entendida como a convocação livre de vontades”. É com este pensamento que o filósofo colombiano José Bernardo Toro e a especialista em análise econômica, Nísia Werneck, introduzem o livro Mobilização Social – Um Modo de Construir a Democracia e a Participação.

A obra, publicada em 1996, discute o uso da mobilização social como estratégia para a construção do projeto ético já proposto na Constituição Federal do Brasil: a soberania, cidadania e a dignidade baseada nos valores pressupostos pelos direitos humanos.

O objetivo é sugerir e comentar, em pouco menos de 100 páginas, critérios e formas de conceber, planejar e executar esse tipo de convocação pública. O conteúdo, fundamentado na experiência da Fundación Social da Colômbia, divide-se em três partes:

Parte I: apresenta os conceitos básicos de mobilização social e debate o contexto ético de sua inserção e os princípios democráticos.

Parte II: ensina a estruturar e planejar uma mobilização, desde elencar os atores envolvidos à definição das estratégias e dos modelos de comunicação a serem utilizados.

Parte III: traz aspectos que o mobilizador precisa levar em conta de colocar o processo em prática, como preparação de materiais, momentos de convocação, resolução de dificuldades, sistematização e registro, entre outros.

O livro está disponível tanto para a venda quanto também pode ser baixado na íntegra no site da agência de mobilização social Aracati, de Fortaleza. A organização social procura contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de participação juvenil no Brasil.

 

 

Lester Salamon analisa o Engajamento Social na América Latina

No novo livro ‘Rethinking Corporate Social Engagement – Lessons from Latin America’ (Repensando o Engajamento Social Corporativo – Lições da América Latina, em tradução livre), o professor da Universidade Johns Hopkins (EUA), Lester Salamon, avalia criticamente o engajamento social na América Latina atualmente, na relação entre comunidades, empresas e sociedade civil.

O diretor do Centro de Estudos da Sociedade Civil do Instituto Johns Hopkins de Políticas Públicas examina as práticas de responsabilidade social de empresas em cinco países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México. Para ele, as comunidades locais e a sociedade civil são capazes de influenciar essa atuação.

Reprodução: Capa do novo livro de Lester Salamon

O livro divide-se em sete capítulos, nos quais o autor trata da profissionalização do setor, a participação, o desenvolvimento de parcerias e a penetração das companhias estrangeiras no engajamento local.

Logo na introdução, Salamon questiona se na região está surgindo a nova Aliança para o Progresso, em referência à política do governo de John Kennedy, de 1961, que visava promover o desenvolvimento econômico local por meio de apoio técnico e financeiro. A iniciativa durou 12 anos.

Disponível apenas em inglês, a obra pode ser encontrada em livrarias internacionais.

 

 

PNUD Analisa Desigualdade Social na América Latina

Novas estimativas do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ajustadas às dimensões da América Latina e Caribe, indicam que a desigualdade é ainda maior quando os países são comparados à realidade da região. O Relatório Regional sobre Desenvolvimento Humano para a América Latina e Caribe 2010 – Atuar sobre o futuro: romper com a transmissão intergeracional da desigualdade, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em julho, mostra que como as políticas públicas devem atuar para quebrar o círculo de perpetuação da pobreza que ocorre de geração para geração. A íntegra da pesquisa, com 209 páginas em espanhol, pode ser acessada no site do IDIS. O material também está disponível no site do Pnud, pelo link http://www.idhalc-actuarsobreelfuturo.org/site/informe.php.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

Fundos Patrimoniais e a Perenização da Ação Filantrópica

A diretora de Administração e Finanças da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), Paula Fabiani, escreve sobre a relação entre fundos patrimoniais e a perpetuação das organizações da sociedade civil. Ela destaca a necessidade do aumento desse tipo de fundo no Brasil. Paula é economista, formada pela Universidade de São Paulo, com MBA na New York University, especialização em Endowment Asset Management pela London Business School e pela Universidade de Yale. Ela integra o Comitê de Governança Corporativa do Terceiro Setor do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

Fundos patrimoniais (FPs) são estruturas criadas para dar sustentabilidade financeira a uma organização sem fins lucrativos. Em sua maioria, os FPs nascem com a obrigação de preservar perpetuamente o valor doado (chamado de principal), utilizando apenas para sua manutenção e atividades os rendimentos resultantes do investimento desse fundo, de acordo com regras pré-estabelecidas, que podem estar descritas no estatuto da instituição.

Os FPs mais conhecidos são os endowments (espécie de fundo patrimonial) de grandes universidades americanas. Veja os exemplos de duas universidades norte-americanas: Harvard, em Cambridge, Massachussetts, e Yale, em New Heaven, Connecticut. Em 2009, seus fundos patrimoniais eram de, respectivamente, US$ 25 bilhões e US$ 16 bilhões – aproximadamente R$ 45,3 bilhões e R$ 29 bilhões1.

As estratégias de investimento desses patrimônios são acompanhadas com grande interesse pelo mercado financeiro internacional. Uma característica da gestão é o foco no longo prazo e a diversificação dos investimentos (aplicação em vários ativos como bolsa de valores, títulos do tesouro, fundos multimercados, entre outros) e tem apresentado resultados expressivos. Nos últimos anos dez anos, Harvard teve retorno anual de 9% e Yale, de 12% – o investimento em títulos do governo americano de curto prazo, por exemplo, rende atualmente 0,25% ao ano.

Na América Latina, em contrapartida, a maioria dos países não possui uma legislação que promova o estabelecimento de FPs. No Brasil, alguns pontos merecem destaque:

  • A legislação referente a doações não prevê benefícios fiscais para o estabelecimento de fundos patrimoniais nas organizações da sociedade civil (OSCs). Na maioria dos países da Europa e nos Estados Unidos, as doações dessa natureza e os rendimentos dos fundos não sofrem tributação.
  • O sistema bancário brasileiro não prevê a figura do Trustee – figura que administra a propriedade, neste caso o FP, em nome do beneficiário. Na Europa e EUA, os bancos podem atuar como zeladores das regras estabelecidas para os fundos patrimoniais, o que dá segurança ao doador que destina os recursos para utilização perpétua.
  • A cultura do investidor social brasileiro é mais voltada ao curto prazo, sendo pouco comum a preocupação em deixar um legado social que transcenda a geração do doador.
  • A própria definição de fundo patrimonial na legislação brasileira prejudica a ampliação do conceito. Esses recursos são tratados apenas como uma reserva técnica2, um valor suficiente para cobertura das atividades por um período curto, como um ano fiscal. Não se pensa a perpetuidade

Aprimoramento 

O aumento do número de FPs é de grande importância para o fortalecimento do terceiro setor no país. No ano de 2009, uma série de instituições do terceiro setor reduziu suas atividades devido à escassez de recursos privados em virtude da crise financeira, emergida em setembro de 2008.

A existência de um FP diminui a variabilidade das receitas de uma organização, promove o planejamento de longo prazo e fortalece a viabilidade da instituição do ponto de vista operacional3. É um veículo que garante a sustentabilidade, especialmente para as instituições cujos propósitos que requerem projetos de prazos extensos para apresentar resultados. A prática ainda pereniza a ação do investidor social privado que busca deixar um legado para a sociedade.

O Brasil precisa de novos mecanismos para resgatar a credibilidade e impulsionar seu terceiro setor. As discussões sobre o Marco Legal do Terceiro Setor devem abranger melhorias no sistema tributário e regras mais claras para o estabelecimento de FPs.

Investidores sociais e governantes que pensem estrategicamente no longo prazo devem assumir o papel de protagonistas na construção de novas estruturas que fortaleçam o papel do capital privado no processo de mudança social e ambiental do país. Cabe à sociedade civil, em especial aos investidores sociais privados e os receptores dos recursos, cobrarem do poder público um maior debate sobre o tema.

Fontes: 

1) Harvard Management Company Endowment Report 2009 e The Yale Endowment Report 2009
2) Paes, José Eduardo Sabo. Fundações, Associações e Entidades de Interesse Social. Forense, 2010
3) Swensen, David S.. Pioneering Portfolio Management – An unconventional Approach to Institutional Investment. Free Press, 2000

CO-FUNDING, UMA ESTRATÉGIA DE SINERGIA NO INVESTIMENTO SOCIAL

Em artigo, Marcos Kisil, presidente do IDIS, apresenta o co-funding, uma nova forma de contribuir para a transformação social, em que investidores sociais se unem para atuar de maneira estratégica e sinérgica.

Marcos KisilA realidade social brasileira é complexa, as demandas sociais são muitas e os recursos privados destinados a atendê-las são limitados. Diante desse cenário, a criação de parcerias sustentáveis para tornar os investimentos sociais mais eficientes é urgente. Um dos mecanismos para isso é o co-funding, uma forma de fazer de investimento social, que começa a ser adotada no Brasil, com o objetivo de aglutinar recursos e esforços, de forma inteligente, em prol de projetos comunitários.

Mecanismos

Existem três maneiras de realizar co-funding. No primeiro caso, duas ou mais organizações decidem alocar recursos em uma mesma comunidade, mas com objetivos distintos. Assim, por exemplo, uma instituição está preocupada em apoiar os idosos e a outra, as crianças. O fato de existirem dois projetos na comunidade permite uma sinergia local. Os programas podem incitar ações como valorizar a participação comunitária, o desenvolvimento da liderança local ou melhorar o relacionamento entre as organizações que estão recebendo dinheiro. Isso não quer dizer mais ou menos recursos para cada uma delas. É uma oportunidade de se travar um diálogo entre elas para desenvolver as ideias de forma complementar e gerar benefícios sociais decorrentes de oportunidades conjuntas de desenvolvimento, embora com objetivos diferentes.

O segundo tipo de co-funding acontece quando existem dois projetos com foco de atuação similar, mas com preocupações finais diferentes. Para exemplificar, podem-se imaginar duas entidades interessadas em crianças com idades entre 4 e 5 anos, sendo que uma deseja melhorar sua infraestrutura física e outra a qualidade da educação por meio da capacitação dos profissionais. Apesar de serem projetos financiados e gerenciados por grupos distintos, eles se somam no interesse da criança: um novo espaço para uma nova escola de qualidade.

O terceiro movimento ocorre quando duas organizações estão de acordo com o mesmo projeto e, portanto, juntam esforços para realizá-lo. Trata-se da mesma comunidade, do mesmo grupo etário e da mesma proposta de mudança. Nessa situação, existe uma boa simbiose entre os dois doadores. As organizações desde o início trabalham juntas para a fase de diagnóstico situacional, planejamento, desenvolvimento da proposta de trabalho, preparação de orçamento (que contempla claramente o papel de cada um no financiamento das ações), ou no todo do projeto, quando somam seus recursos.

Fruto do acaso

Em geral, quando uma dessas três situações ocorre no Brasil, ela é fruto de um processo casuístico, não planejado. Isso porque a maioria das organizações que atuam como investidores sociais tem o hábito de desenvolver seus próprios projetos – e, especialmente, se elas têm origem empresarial. É comum ver a entidade “A” financiar sua ação, conforme suas necessidades e para apoiar sua imagem institucional. O problema desse tipo de iniciativa é que é facilmente descontinuada. Quem vai querer continuar o financiamento de um programa ou projeto que está ligado à imagem de outra empresa que o apoiou financeiramente antes?

Quando duas organizações trabalham juntas, por outro lado, não existe a “propriedade” do projeto. Como decorrência, as chances de que a ideia seja sustentável e consiga obter novos financiamentos são ampliadas.

Bons exemplos

Algumas experiências de sucesso no co-funding começam a despontar no cenário nacional. O caso mais comum é quando entidades unem-se em torno de uma determinada causa. Aí, existe um conjunto de doadores que não aparecem individualmente, pois estão reunidos não para projetar seu nome ou bandeira de interesse, mas para fazer da causa objeto da sociedade.

Uma área que vem aglutinando múltiplos atores é a educação. O Movimento Todos pela Educação, por exemplo, tem o apoio do Banco Real, da Dpaschoal, da Odebrecht, da Fundação Itaú Social, da Gerdau, do Instituto Camargo Corrêa, da Fundação Bradesco e da Suzano, entre outros. O Fundo Juntos pela Educação, por sua vez, foi criado em 2004, pelo Vitae, Instituto C&A e Instituto Arcor Brasil. Nesse caso, o interessante é que o Vitae saiu da iniciativa, mas os outros dois continuaram, comprovando a sustentabilidade do projeto.

3 passos para o co-funding

Para pensar em co-funding é necessário identificar investidores sociais que estão atuando com o mesmo foco, com especificidades comuns (seja a causa, a área geográfica ou a forma de intervenção) e com o interesse genuíno em ações colaborativas e em parceria. São 3 os passos para uma ação efetiva:

1) Acordar o objectivo: é fundamental definir os propósitos do investimento. Eles devem ser amplos o suficiente para angariar apoiadores, mas específicos o suficiente para ter ações concretas. É importante que as ações estejam alinhadas e claras para o parceiros para que os resultados esperados sejam alcançados.

2) Buscar escala para cumprir os objetivos: é preciso considerar que impacto se está buscando e os fatores críticos de sucesso, avaliar a capacidade de financiamento dos parceiros e, se não for suficiente, avaliar o que pode ser feito.

3) Medir o successo: estabelecer mecanismos para mensurar o êxito da iniciativa em relação aos objetivos propostos, incluindo medidas intermediárias de processo que irão indicar se o projeto está ou não na rota correta. É importante também avaliar como se desenvolve a parceria por meio do co-funding. Os investidores devem apresentar uma posição comum em relação à entidade receptora dos recursos de ambas.
Alguns fatores críticos de sucesso são:

  • Objetivos, métodos e valores comuns e claros;
  • Honestidade em relação ao interesse dos diferentes doadores, da entidade receptora dos recursos, da comunidade a ser atendida em suas necessidades e em todo o processo decisório.
  • Tempo suficiente para acordar a logística e funcionamento da iniciativa;
  • Disponibilidade para comprometer recursos;
  • Persistência na implantação;
  • Relacionamento e fortalecimento das relações pessoais;
  • Comunicação constante e clara.

 
Tendo todos os esses processos e elementos em mente na hora de fazer co-funding, a probabilidade de provocar uma transformação social positiva nas comunidades é alta. Estão todos convidados a tentar!

 

 

Aliança por Recursos

O coordenador no Brasil da Aliança Estratégica The Resource Alliance/Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Rodrigo Alvarez, demonstra alguns dos caminhos a serem percorridos para se aumentar a disponibilidade de recursos para o investimento social no país. No artigo, ele explica como a aliança entre a The Resource Alliance e o IDIS chega para potencializar a mudança. O especialista possui 14 anos de carreira no setor.

Como aumentar o volume de doações no Brasil e atuar estrategicamente para gerar impacto profundo e contínuo no setor social? Para tentar atender a essa demanda iminente e responder à questão, o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e a The Resource Alliance estabeleceram uma aliança no país.

Há poucas estatísticas que indiquem a quantidade de recursos que os investidores sociais brasileiros aplicam em projetos socioambientais. De acordo com o cruzamento de dados de pesquisas da Universidade John Hopkins e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), empresas e indivíduos doaram ao chamado terceiro setor R$ 7 bilhões, o que representa meros 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, a quantidade de riqueza produzida.

Na América Latina, o nível de aplicação comparado à riqueza local chega a 0,4%. No mundo, é de 0,8%. Pela sua importância no cenário econômico latino-americano e mundial, o Brasil tem alto potencial.

Se analisarmos a evolução das doações, vemos o abismo entre a quantidade de recursos aplicados por empresas e por indivíduos. Ainda segundo as mesmas fontes de dados, as empresas, em 1995, investiram R$ 1 bilhão, enquanto em 2007 o valor saltou para R$ 6 bilhões – aumento de 16% ao ano. Entre os indivíduos, manteve-se sempre no mesmo patamar: R$ 1 bilhão anual.

Uma possível explicação seria o fato de a elite brasileira, detentora em sua maioria de grupos empresariais familiares, canalizarem seus investimentos sociais pelas suas corporações. O cenário legal do país também não é muito favorável à prática: nos Estados Unidos, as heranças direcionadas a fundações familiares ou individuais não pagam imposto sobre a transmissão – se o direcionamento for parental, a taxação é de 50%. Isso talvez ajude a explicar a existência de 75 mil fundações norte-americanas, sendo apenas 3,3% delas corporativas e 90% classificadas como independentes, segundo a organização norte-americana Foundation Center.

No Brasil, o cenário é diferente:

  • De 10% a 20% do total de doações utiliza incentivo fiscal.
  • 75% das doações deduzidas do imposto de renda direcionam-se à cultura, por meio de lei de incentivo.
  • Se os indivíduos usufruíssem plenamente dos incentivos, de acordo com informações da Rceita Federal, estima-se que os recursos vindos desse público passariam de R$ 1 bilhão para R$ 3,9 bilhões por ano.

Assim como o perfil do filantropo evoluiu nas últimas duas décadas – e tende a se aprimorar ainda mais enquanto investidor social –, as organizações da sociedade civil (OSCs) precisam mudar antigas práticas e paradigmas para se perpetuar na nova realidade mundial.

Segundo Mapeamento das Fundações Privadas e Associações Sem Fins Lucrativos (Fasfil), de 2002, das 276 mil OSCs existentes no Brasil, 62% nasceram durantes os anos 90, sendo financiadas prioritariamente pelo Estado, por empresas e pela cooperação internacional.

A partir de 2000, acontece a reviravolta: as grandes empresas passam a ser cada vez mais investidoras sociais privadas, ou seja, encaram a doação como elemento estratégico para o seu negócio e se preocupam cada vez mais em planejar, avaliar impacto e focar resultados. As organizações deixam de receber meras doações e patrocínios e ingressam como parceiras e prestadoras de serviço, executoras de um planejamento pré-determinado.

Os governos, por sua vez, passaram a ser cada vez mais seletivos, exigindo capacidades e habilidades complexas dessas instituições enquanto prestadoras de serviço. A cooperação internacional dá cada vez mais sinais de que diminuirá sua atuação no país, buscando nações mais prioritárias para investimento, como as da África.

Tudo isso leva a crer que uma nova onda de desenvolvimento do terceiro setor se inicia na segunda década do século XXI e, certamente as OSCs terão que reinventar – ou começar a inventar – a forma como mobilizam os recursos para suas causas.

De olho nos fatos, o IDIS e a Resource Alliance direcionam seus esforços para colaborar com a profissionalização da captação de recursos, aliando as necessidades do investidor social às capacidades de atendimento e execução das instituições. Três temas são prioritários: capacitação das OSCs, com oferecimento de cursos de curta e longa duração; fomento ao desenvolvimento de pesquisas sistemáticas; prestação de consultorias; e produção e disseminação de conteúdo sobre o tema.

Onde avançar

Das 276 mil organizações socioambientais brasileiras, apenas 2% possuem mais de 50 funcionários e 77% não remuneram seus profissionais. A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), por exemplo, conta com 500 associados – a maioria trabalha parcialmente na captação de recursos ou está iniciando na área.  AAssociation of Fundraising Professionals (AFP), similar norte-americana, possui cerca de 35 mil filiados.

Na questão da plataforma de intermediários, precisa-se avançar no desenvolvimento de um mercado de fornecedores de serviços para o setor social. Por exemplo, desenvolvimento de consultorias especializadas, formação de profissionais de comunicação e criação de inteligência em marketing direto para potencializar as doações são demandas urgentes e reais para se constituir um mercado ainda incipiente.

Outro ponto é atingir as pessoas em larga escala. Doadores individuais representam de 70% a 80% das doações para o terceiro setor em diversos países. No Brasil, esse montante não chega a 15%.  É possível contar pouco mais de 20 organizações brasileiras realizando campanhas de massa arrecadação de recursos. Mais uma vez, é a capacitação dos profissionais de captação que pode dar início ao fomento desse mercado.

Por esses motivos, nosso foco está em fortalecer a capacidade das instituições como estratégia prioritária e central da parceria. Acreditamos haver um tremendo potencial a ser aproveitado. E cremos que profissionais de mobilização de recursos são os agentes estratégicos capazes de fazer a diferença.

 

 

Pesquisa Analisa Grau de Avaliação dos Projetos Sociais de Empresas

Apenas 16% das empresas avaliam seus projetos sociais (de um universo de 95 mil estabelecimentos) e aquelas que o fazem, realizam com o objetivo de conhecer os resultados dos investimentos sociais, de aprimorar a gestão e de impulsionar os programas e projetos. Essas são algumas das conclusões da pesquisa Cultivando os Frutos Sociais – A Importância da Avaliação nas Ações das Empresas, conduzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), com apoio da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). A investigação integra a Pesquisa Ação Social das Empresas, uma série de análises sobre o comportamento do investimento social corporativo. A terceira edição aprofunda o conhecimento sobre as práticas de avaliação das empresas. A amostra baseou-se no levantamento de 2006, somada à pesquisa de campo realizada entre 2007 e 2008. A íntegra do estudo pode ser baixada do site do IDIS ou acessada no site http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/livros/2009/Livro_Cultivando_Frutos_Sociais.pdf.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

IPEA Divulga 4º Relatório de Acompanhamento dos ODMS

Em março, o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) publicou a 4ª edição do Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), em conjunto com a Presidência da República. O documento, de 182 páginas, mostra como o país tem evoluído no cumprimento das metas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas. A maior parte dos dados baseia-se levantamentos de 2007 e 2008. É possível constatar, por exemplo, que o Brasil atingiu a metas de combater a doenças como Aids e malária, e está prestes a reduzir a mortalidade infantil em dois terços, além de poder conseguir acabar com a extrema pobreza. A íntegra do estudo também está disponível no site www.ipea.gov.br/sites/000/2/ftp/RelatorioODM-final.pdf.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

A Importância das Pequenas Doações em um País Grande (Tradução Livre)

Em artigo (disponível apenas em inglês), a diretora de Educação do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Helena Monteiro, destaca o potencial das pequenas doações (individuais ou não) em um país tão grande como o Brasil. Nos últimos 20 anos, a nação tem crescido e desenvolvido mais o seu investimento social. O artigo foi originalmente publicado na revista Alliance, em março de 2010. A Alliance, em parceria com a Avina e o Instituto de Comunicación y Desarrollo (ICD), oferece assinaturas eletrônicas gratuitas para profissionais que atuam no setor na América Latina. Para mais informações e cadastro visite: http://www.alliancemagazine.org/en/content/free-electronic-subscriptions-latin-america-0.

Helena_Monteiro_Alliance3-2010

 

 

Marketing Social: um Caminho para o Investidor Social

A diretora de Desenvolvimento Institucional do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Marcia Kalvon Woods, explica por que o marketing social pode ser uma ferramenta para investidores sociais alavancarem uma causa, além de colaborar para a conscientização da sociedade.

Esclarecer. Convencer. Mudar o comportamento. O marketing social é uma gestão de processos de marketing e de comunicação capaz de levar um público à adoção de novas posturas, criando ou aprimorando a consciência social sobre uma determinada causa. Não se trata apenas de utilizar a ferramenta como forma de persuasão para a venda de um produto ou de um novo modismo. Vai muito além.

Stock.xchng: Não fumeO marketing social é uma tática bastante utilizada pelos governos para mobilizar pessoas. Um exemplo é imunização de 91 milhões de pessoas no Brasil contra a gripe A. Sem campanhas de esclarecimento sobre a vacinação, propaganda em diversos meios de comunicação e divulgação em postos de saúde e junto à imprensa, certamente o Ministério da Saúde seria pouco eficaz.

Empresas e organizações da sociedade civil também fazem uso da estratégia. A Avon lançou em 2009, por meio de seu instituto, a campanha Fale Sem Medo – Não à Violência Doméstica, para divulgar a Lei Maria da Penha, de combate à violência doméstica contra as mulheres. Um problema que atinge uma em cada três mulheres no mundo, de acordo com estimativa da Anistia Internacional e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Alto Impacto 

A ferramenta é de grande utilidade junto a desafios socioambientais, cujas soluções envolvem grandes transformações. No Brasil, causas não faltam: alto índice de gravidez na adolescência (uma em cada cinco mulheres grávidas possui entre 10 e 19 anos); tabagismo (responsável pela morte de 200 mil pessoas por ano – ou 23 por hora), preservação do restante da extensão original da Mata Atlântica (5%), entre outras.

Para o investidor social, a ferramenta pode ser uma aliada no ganho de escala da causa abraçada. Mas, para isso, sua aplicação precisa ser planejada, definida, implantada e avaliada, como ocorre com o investimento social. O resultado pode variar. Portanto, é necessário ter claro o efeito desejado: informação, ação, mudança de comportamento ou modificação de valores.

No planejamento, um dos primeiros passos é segmentar o público que se pretende atingir, utilizando características sociodemográficas, psicológicas e comportamentais. Em seguida, é importante determinar o problema ou a oportunidade para a mudança de foco, definindo os objetivos. Aqui é importante agir como um “advogado do diabo”, questionando a validade do que é proposto. A mensagem possui apelo junto à sociedade ou ao público-alvo? As pessoas estão dispostas a mudar o próprio comportamento?

Também é fundamental identificar os grupos capazes de apoiar a campanha. Se o público-alvo é criança, há de se considerar os pais, por exemplo. Com base em tudo isso, deve-se definir as estratégias e os canais.

Além da comunicação 

Quando se fala da adoção de um novo comportamento, dependendo da profundidade da mudança a ser provocada, a estratégia deve ir além da comunicação. Pode ser necessário envolver uma intervenção interpessoal ou até alterar leis e promover mudanças econômicas.

Stock.xchng: Proibido beberPara citar um exemplo, pode-se pensar na “Lei Seca”, medida nacional que pune severamente quem dirige após ingerir bebidas alcoólicas. Em São Paulo, um levantamento da Secretaria de Estado da Saúde apontou que o número de atendimentos a vítimas de acidentes de trânsito nos hospitais estaduais paulistas foi 49,2% menor nos dois primeiros meses após entrar em vigor (em junho de 2008), quando comparado ao período imediatamente anterior. A estatística não informa com exatidão se a redução refere-se a acidentes provocados por motoristas embriagados.

A aparente mudança do comportamento foi garantida pelo aprimoramento da legislação e das fiscalizações policiais e exames de bafômetro. Isso vai bem além de inserir a mensagem “se beber não dirija” nas campanhas de comunicação de produtos alcoólicos.

Na estratégia de marketing social, é essencial elencar todos os meios necessários e disponíveis para a veiculação da mensagem, de forma que todos os custos enquadrem-se ao orçamento. Em marketing social deve-se calcular também a economia que representa a mudança do comportamento, para analisar criticamente os investimentos necessários.

Depois de implementada, a ação deve ser monitorada e avaliada. A etapa é fundamental para analisar o quanto o apelo está sendo efetivo e, se necessário, corrigir desvios.

Na atual sociedade da informação, o bombardeio de mensagens é constante e vem de todos os lados. Direcionar corretamente e atuar com parcimônia podem ser caminhos para garantir a efetividade de uma ação de marketing social. E, assim, promover a transformação social.

 

 

Mais de 90% das Organizações Avaliam Projetos, Aponta Levantamento

Pesquisa do Instituto Fonte com a Fundação Itaú Social indica que, nos últimos 5 anos, 91% das organizações brasileiras da sociedade civil que atuam com projetos sociais utilizaram a avaliação como ferramentas de análise de suas iniciativas.

O estudo A Avaliação de Programas e Projetos Sociais de ONGs no Brasil foi realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e pelo Ibope Inteligência entre os meses de julho e setembro de 2009 junto a 363 instituições.

O objetivo foi de mapear quanto e como as organizações brasileiras avaliam seus projetos e conhecer motivações, desafios e tendências no setor. A amostra abrange todas as regiões do país e seu perfil foi selecionado com base nos critérios da pesquisa Fundações e Associações Privadas sem Fins Lucrativos no Brasil (Fasfil), de 2005, e na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do governo federal.

As instituições responderam a um questionário estruturado de autopreenchimento pela Internet, dividido em dois blocos: o primeiro com perguntas gerais e o segundo com questões para as instituições que afirmaram ter feito ao menos avaliação de um projeto – formando uma base de 574 projetos analisados.

A maioria das organizações (53%) do universo pesquisado concentra-se na região Sudeste, possui até 9 colaboradores (63%) e 76% se formaram a partir de 1991. Mais da metade (58%) são apenas executores de projetos.

O estudo mostra que 80% das instituições consideram a avaliação uma ferramenta muito importante e que 96% pretendem utilizá-la para realizar análises futuras de seus projetos. No questionário, a maioria (79%) considerou que um dos atributos da avaliação é ser parte essencial do processo de planejamento estratégico, além de ajudar a melhorar a qualidade dos serviços prestados pelo projeto (77%).

Contudo, a análise dos dados indica que 33% dos pesquisados ainda usufruem do modelo apenas como uma ferramenta de promoção dos projetos – para promovê-los positivamente ou empregar os resultados para atrair financiadores e recursos.

Porém, o número não é tão distante do total de instituições que a utilizam como ferramenta estratégica: 26% procuram usar os resultados da avaliação como meio para tomar decisões e melhorar a qualidade dos serviços.

A partir de todas as informações, os analistas concluem que mesmo não sendo mais necessário advogar sobre a importância de se avaliar projetos sociais, é significativo observar que sua finalidade vai além. Quando o foco é no processo, a avaliação potencializa o compartilhamento de saberes entre toda a equipe, que, posteriormente, poderá aplicar os aprendizados em potenciais mudanças. É uma mudança de postura.

A íntegra do relatório da pesquisa está disponível nos sites do Instituto Fonte e da Fundação Itaú Social.

Fundação DD Lança Guia das Melhores Practicas de Governança Voltado para o Terceiro Setor

Em seu terceiro texto institucional no Portal do Investimento Social, a Fundação Banco do Brasil (FBB) destaca nova publicação, Guia das Melhores Práticas de Governança para Fundações e Institutos Empresariais, feito em parceria com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Divulgação: Logomarca da Fundação Banco do BrasilA expansão do investimento social privado no Brasil ampliou o número de institutos e fundações empresariais dedicados à questão. Com a parceria da Fundação Odebrecht e Instituto Camargo Corrêa, a Fundação Banco do Brasil acaba de lançar o Guia das Melhores Práticas de Governança para Fundações e Institutos Empresariais, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE).

A publicação tem o objetivo de oferecer aos dirigentes de fundações e institutos empresariais uma referência para a adoção das melhores práticas de Governança em suas organizações, consolidando as orientações do IBGC e as práticas do GIFE sobre o tema.

O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC é uma referência para o mundo corporativo. No entanto, devido às peculiaridades do terceiro setor, tornou-se necessário um guia específico para as organizações do segmento e o guia veio para atender a essa demanda.

Reprodução: Capa do Guia de Melhores Práticas de GovernançaOs princípios básicos da Governança Corporativa, como transparência, equidade, responsabilidade corporativa e prestação de contas, podem ser aplicados no mundo corporativo e nas organizações do terceiro setor. Ainda assim, é necessário um olhar mais específico para que organizações não governamentais possam adotar as melhores práticas de Governança.

A obra destaca o crescimento da sociedade civil organizada, nas últimas décadas, o que engajou empresas no papel tanto de financiadoras como de realizadoras de investimento social  privado. Além disso, ressalta que as práticas de Governança assumiram um importante instrumento de autorregulação em todos os setores. O download do arquivo em PDF da publicação pode ser feito no portal da Fundação.

 

 

Retorno Econômico de Projetos Sociais Corporativos: Limites de Avaliação

A consultora e professora de avaliação de projetos sociais corporativos Maria Cecília Prates Rodrigues analisa o quanto pode ser frágil a metodologia de avaliar os projetos sociais corporativos sob a perspectiva do retorno financeiro, uma vez que os impactos nem sempre podem ser traduzidos em dados monetários confiáveis. Maria Cecília é autora dos livros Ação social das empresas: como avaliar resultados? (FGV, 2005) e Projetos sociais corporativos: como avaliar e tornar essa estratégia eficaz (Atlas, 2010).

Frequentemente vejo as empresas argumentarem que deveriam adotar para os seus projetos sociais a mesma lógica de avaliação utilizada em seus projetos econômicos. Essa lógica baseia-se no fluxo de caixa entre receitas e despesas.

A justificativa para o argumento estaria na objetividade do critério custo-benefício (retorno econômico) que, ao monetizar os impactos sociais, ou benefícios, do projeto e compará-los a seus custos, possibilitaria uma análise sem subjetivismos e “sem paixões”. Uma razão bem ao gosto do setor privado e dos potenciais investidores sociais.

Particularmente, não defendo essa abordagem por um motivo essencial: em projetos sociais, o uso do critério de eficiência, baseado na análise do custo-benefício, só é viável mediante a adoção de uma série de hipóteses. Evidentemente que se deve levar em consideração as experiências e o bom senso do avaliador. Mas há de se reconhecer que, por mais competente que ele seja, existem pressupostos estatisticamente “fortes” e com razoável margem de erro.

Arquivo pessoal: Maria Cecília Prates RodriguesAssim, questiono o grau de confiabilidade da estimativa do retorno econômico, devido à sequência de hipóteses que são necessárias para o seu cálculo e a possibilidade de potencialização de erros em cadeia.

Isso pode ser ilustrado com um exemplo bastante simples. Imagine um projeto de reforço escolar para adolescentes que estão no Ensino Médio de uma escola pública, com dificuldade de aprendizagem. Numa avaliação do impacto social entre o público alvo, constatou-se que, em média, os jovens participantes tinham 12% a mais de chance de ingressar na universidade em relação àqueles que não participavam.

É sempre bom lembrar que estimativas como essas já estão sujeitas a alguns erros quase impossíveis de serem tratados estatisticamente. O principal é o fato de que as características dos adolescentes que compõem o “universo do experimento” são, de antemão, distintas daquelas do “universo do controle”. E, nesse caso, não há como julgar com margem de precisão razoável até que ponto foram as características individuais e/ou familiares do conjunto dos adolescentes participantes do projeto que, na realidade, explicaram a sua entrada  na universidade – e não propriamente o projeto de reforço escolar, ao qual foi imputado efeito positivo de 12%.

Como se vê, as avaliações sociais de impacto já convivem com uma (primeira) hipótese metodologicamente “forte”: a de que se consegue controlar as diferenças do pré-projeto entre os grupos do experimento e de controle. Mas outros pressupostos ainda devem ser acrescidos para viabilizar a estimativa do retorno financeiro. Voltemos ao exemplo.

Custo-benefício

Baseado em pesquisas de âmbito nacional, a segunda hipótese trata da elevação da renda desses adolescentes que tiveram 12% a mais de chance de ingressar na universidade depois de passar pelo curso de reforço escolar. No Brasil de hoje, quem completa o Ensino Superior recebe, em média, rendimentos três vezes maior do que a pessoa que completa apenas o Ensino Médio.

Considerando que a região em que o projeto foi desenvolvido era relativamente pouco dinâmica, essa hipótese foi adaptada, supondo que o rendimento médio dos jovens com grau universitário seria duas vezes superior ao daqueles com o Ensino Médio. De antemão, não se pode esquecer também dos fatores limitadores desse pressuposto, pois o nível de escolaridade é apenas um dos aspectos que explicam os diferenciais de renda. Outros devem ser considerados, como as conjunturas local e setorial, a formação profissionalizante, as características individuais e as redes de contatos.

Para poder estimar o fluxo de caixa desse projeto social, outras duas suposições devem ser incluídas. A terceira diz respeito à trajetória do benefício: como se daria o recebimento da renda mais elevada por aqueles beneficiários do projeto que completaram a universidade? Para fins de estimativa, foi necessário admitir que isso ocorreria ao longo de toda a vida produtiva do participante, em torno de 35 anos.

Também aqui entram em cena os fatores limitadores de antes. Como garantir que aquele diferencial inicial de renda é capaz de se sustentar ao longo dos 35 anos? Sem falar que o poder de influência da ação social tende a perder força ao longo do tempo, frente a tantos outros fatores circunstanciais na vida das pessoas.

Se, por um lado, os ganhos de rendimento propiciados pelo projeto social estariam distribuídos em 35 anos, por outro, os seus custos de implantação e operacionalização ficaram concentrados na fase inicial, possivelmente nos seus primeiros dois anos. Portanto, para viabilizar a comparação entre as rendas e as despesas geradas, todos os valores foram deslocados para uma única data, de modo a estimar o Valor Presente Líquido (VLP) do projeto. Decorre daí a quarta hipótese, referente ao valor da taxa de desconto adotada (de 6% ao ano) para estimar o fluxo de caixa da ação social.

No exemplo em questão, a expectativa seria de que, ao final da análise, o VPL (ou o retorno econômico) do projeto social ficasse positivo, indicando que os benefícios gerados foram maiores do que os custos incorridos.

Se na análise o VPL ficasse negativo, a primeira medida cautelar dos especialistas seria a de rever os pressupostos adotados para a estimativa do retorno financeiro. Seria possível questionar:

  • Os impactos sociais do projeto não foram devidamente quantificados (hipótese 1)?
  • Os critérios adotados para a monetização dos impactos subestimaram os benefícios gerados (hipóteses 2 e 3)?
  • A taxa de desconto utilizada foi mais elevada do que deveria, penalizando o balanço do projeto (hipótese 4)?

Já no caso de VPL positivo, não seria também o caso de questionar se as hipóteses adotadas não foram por demais generosas, “maquiando” o fluxo final de caixa do projeto?

Diante de todo esse quadro duvidoso, pergunta-se qual a alternativa de avaliação mais adequada. Defendo que, na avaliação de projetos sociais corporativos, o critério da eficácia – baseado na avaliação de impacto ou de outros métodos de aferição dos resultados – consegue propiciar uma visão bastante abrangente sobre as mudanças provocadas junto ao público alvo.

Vale lembrar que a análise de impacto, por si só, já pressupõe procedimentos estatísticos complexos e a adoção de hipóteses “fortes” para contornar os aspectos que podem causar confusão na identificação do impacto.

No exemplo, procurei mostrar que, quando se parte para avaliar o retorno financeiro do projeto com base no critério do custo-benefício, é preciso adotar tantas outras hipóteses para viabilizar a estimativa que, ao final, a margem de erro é muito grande. A confiabilidade na estimativa torna-se tão baixa que o avaliador chega a ganhar “carta branca” para revisar a cadeia dos pressupostos. O alegado argumento da objetividade do critério, então, cai por terra.

Por isso, na avaliação da eficiência dos projetos sociais corporativos – demanda bastante legítima das empresas e dos agentes financiadores –, sugiro a adoção do critério do custo-efetividade, por ser bem mais compatível com a lógica da avaliação social. Pois, nesse caso, não há a necessidade de monetizar os resultados sociais atingidos. O que é feito é comparar os custos unitários incorridos em projetos com objetivos finais e níveis de eficácia semelhantes. A possibilidade de erro torna-se  muito menor.
Texto de exclusiva responsabilidade da autora. O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) abre espaço para a pluralidade de ideias, mas as opiniões expostas não refletem, obrigatoriamente, o pensamento da instituição e de sua equipe.

 

 

As Tecnologias Sociais e o Cenário Internacional

O presidente da Fundação Banco do Brasil, Jacques Pena, conta como as tecnologias sociais aplicadas no Brasil são capazes de ganhar capilaridade junto a outros países, inclusive em situações extremas, como o Haiti. O artigo faz parte da parceria entre a fundação e o Portal do Investimento Social, do IDIS.

Nos últimos 10 anos o Brasil vem se apresentando como um país que se envolve em questões globais, demonstrando interesse em oferecer apoio aos às nações que enfrentam problemas socioambientais. Essa aparição geralmente surge com a oferta de soluções que foram aplicadas aqui e que obtiveram resultados positivos no enfrentamento de entraves para o desenvolvimento, como a desigualdade social, o acesso à educação de qualidade e oportunidades de trabalho.

Divulgação: Logomarca da Fundação Banco do BrasilOs avanços no Brasil se devem a um fenômeno interessante e importante de ser observado – uma série de iniciativas feitas pelas próprias comunidades e, às vezes, com o conhecimento técnico de universidades ou outros centros de pesquisa, para beneficiar pequenos grupos de famílias, mas que se expandiram e melhoraram as condições de vida de centenas de pessoas e reforçaram as políticas públicas.

Esses projetos se tornaram cada vez mais completos e complexos, tendo em vista a necessidade de se organizarem para abarcar o grande número de mazelas sociais. Os projetos evoluíram para uma dinâmica diferente chamada Tecnologia Social, que considera que produtos, técnicas ou metodologias sejam desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social e possam ser reaplicadas em escala.

Exemplo dessa evolução de tecnologias sociais, destacamos o Banco de Tecnologias Sociais (BTS), disponível na Internet. O BTS, idealizado e mantido pela Fundação Banco do Brasil (FBB), reúne mais de 500 tecnologias sociais de diversas fontes e categorias e serve como um pólo disseminador de soluções práticas e de reaplicação fácil para toda a sociedade.

Essas tecnologias são de fácil aplicação e baixo custo, o que as tornam eficazes em cenários de extrema pobreza ou aqueles afetados por desequilíbrios ambientais. O recente episódio do Haiti reacendeu o debate sobre a forma como o Brasil pode ajudar a reconstruir aquele país e as tecnologias sociais se mostraram a forma mais adequada. Tecnologias Sociais como a Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) – reaplicada em mais de 6 mil unidades, em 19 estados, pela Fundação Banco do Brasil em conjunto com diversos parceiros como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Petrobras, Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e governos –  surgem nesse mesmo contexto, apresentando alternativas de segurança alimentar em um país que sofre com a falta de alimentos.

O Pais promove um sistema de produção orgânica de hortaliças, frutas e pequenos animais, tendo como pressupostos a racionalização de recursos e o manejo ecológico da terra. Toda a produção acontece sem o uso de agrotóxicos, propiciando alimentos saudáveis e livres de quaisquer interferências químicas. Já a irrigação é feita por meio de um sistema de gotejamento, o que evita o desperdício de água e possibilita a implantação do modelo inclusive em regiões com poucas reservas hídricas, como é o caso do Haiti.

Moçambicanos e salvadorenhos também já demonstraram interesse em conhecer as tecnologias sociais brasileiras. Eles querem saber o que as suas comunidades vêm fazendo para mudar suas realidades. A Fundação Banco do Brasil faz do incentivo à estas tecnologias sua contribuição para o desenvolvimento do nosso país e acredita que elas podem, sim, fazer a transformação social de milhares de pessoas.

 

 

Pesquisa Revela Situação da Educação Corporativa no Brasil

Os sistemas de educação corporativa (SEC), em geral, são recentes no Brasil, suas ações interagem com as estratégias de negócio das empresas e seu resultado desvincula-se de avaliações de desempenho e da remuneração do funcionário. Porém, ainda há potencial de crescimento na área para as práticas de educação a distância e necessidade de aumentar a conscientização e participação dos líderes locais. Esses são apenas alguns dos resultados preliminares que aponta a Pesquisa Nacional sobre Práticas e Resultados da Educação Corporativa. O estudo, de 2009, foi coordenado pela professora Marisa Éboli, do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Na sondagem, 54 empresas responderam a um questionário estruturado. O objetivo foi de avaliar o panorama geral da educação corporativa no Brasil e identificar as práticas mais recorrentes nas organizações. A maioria das respondentes foram grandes companhias, com mais de hum mil colaboradores (70%) e faturamento acima de R$ 1 bilhão (57%). O estudo aponta que 70% dos SECs estão sob o comando de mulheres e que 40% das corporações investem entre 1% e 3% da folha de pagamento na prática. Os resultados preliminares foram apresentados durante um simpósio internacional sobre o tema, realizado na capital paulista no dia 27 de novembro de 2009. A pesquisa foi apoiada pela Eletrobrás, Grupo Santander Brasil, Itaú-Unibanco, Nestlé e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A íntegra da apresentação pode ser baixada aqui no Portal do Investimento Social.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

Depois do Impacto, a Reflexão

A partir de uma sondagem qualitativa realizada pelo IDIS durante o segundo semestre de 2009, o artigo discute o impacto da crise econômica sobre o investimento social privado.

O que uma crise econômica tem a ver com o investimento social privado? Simples: uma economia pujante proporciona mais recursos para as empresas e os indivíduos de alto poder aquisitivo investirem em ações socioambientais. Ainda não há uma projeção de quanto a instabilidade financeira mundial de 2008 e 2009 influenciou no corte desses investimentos. Uma análise, porém, é certa. A falta de solidez na economia serviu como um gatilho para as empresas refletirem sobre sua atuação.

Durante o segundo semestre de 2009, o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) realizou uma sondagem qualitativa junto às empresas e institutos. Por questão de sigilo, os nomes não são divulgados.

O objetivo do estudo foi coletar informações sobre o impacto da crise no investimento socioambiental privado. Os setores pesquisados foram varejo, agronegócio, energia, farmacêutico, indústria de papel e de celulose, além de famílias e indivíduos de alto poder aquisitivo.

As entrevistas tiveram perguntas estruturadas, que buscaram respostas em três dimensões dos investimentos socioambientais: o impacto da crise, o valor do tema para a empresa e os planos e as tendências.

As companhias, de forma geral, alegaram perda de recursos financeiros no negócio durante o período de baixa na atividade financeira. Em relação aos investimentos socioambientais, houve manutenção de seus compromissos, não ocorrendo cortes desenfreados, mas a readequação dos orçamentos frente ao cenário econômico. Uma parcela das empresas manteve os mesmos valores destinados a projetos de interesse social e ambiental, sem qualquer aumento em comparação a 2008. Os orçamentos para área em 2010 também não devem ser maiores.

Postura corporativa 

O traço mais importante detectado na pesquisa é a percepção de uma mudança de postura. As empresas investidoras decidiram fazer uma profunda avaliação de suas práticas e do foco do investimento. As análises estão previstas para 2010.

Os principais questionamentos do investidor social são os seguintes:

  • O quanto os projetos e programas apoiados estão sendo eficientes?
  • A empresa é reconhecida por suas ações?
  • Quais os reais impactos que estão sendo gerados?

O momento de crise provocou uma reflexão e estimulou o olhar mais cuidadoso.  Isso reflete tanto a maturidade do setor sobre os seus programas de investimento socioambiental quanto a sua contribuição positiva para a sociedade brasileira e as comunidades onde estão presentes.

A relação entre a cultura de sustentabilidade e a de investimento social privado é direta e a sondagem qualitativa reforça ainda mais esse entendimento. Quanto mais a primeira fizer parte dos valores corporativos, mais forte será a segunda. Além disso, propiciará melhor integração das estratégias de investimento social com as de negócio da empresa, envolvendo toda cadeia de valor e trazendo mais perenidade às iniciativas. Assim, o investimento não é visto apenas como um custo.

Os processos de gestão, muitas vezes aplicados apenas aos negócios, mais que antes passaram a integrar o universo do investimento social privado. Para o futuro, serão as ferramentas que as empresas utilizarão para realinhar o foco e medir o real impacto socioambiental do seu apoio.

Investimento de famílias  e indivíduos

Na sondagem qualitativa, o IDIS verificou que a as doações de famílias e de indivíduos de alto poder aquisitivo (mesmo com a ausência de tradição do país na área), não tiveram seus compromissos e volumes necessariamente afetados pelo humor do mercado.

Com motivações e gestão distintas do universo corporativo, os programas de investimento social de famílias e de indivíduos tendem a ter uma visão de longo prazo, se comparado o ambiente corporativo de planejamento e de orçamentos anuais com revisões trimestrais. Isso traz mais estabilidade para os programas de investimento social nesses momentos de crise.

Na outra ponto do fio

As organizações da sociedade civil, em contrapartida, sentiram o reflexo tanto da redução de recursos financeiros, quanto do aumento do rigor no planejamento, na avaliação e na sustentabilidade dos projetos.

A adoção de uma gestão qualificada e eficiente, com a diversificação das fontes de renda e de financiamento, foi o grande desafio para o setor em 2009 e é o que se espera ocorrer em 2010.

O balanço é de que empresas, investidores sociais e as organizações da sociedade civil foram afetados com a redução dos recursos – e, em alguns casos, até resultou na extinção de programas e de instituições. Apesar de tudo, o setor sai mais fortalecido, buscando mais eficiência e estratégias que tragam mais sustentabilidade para programas e projetos.

 

 

Quinze anos de Investimento Social Privado no Brasil: Conceito e Práticas em Construção

Fernando Nogueira, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Escola de Administração e Empresas de São Paulo (EAESP), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e a professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Paula Schommer escrevem, em artigo acadêmico, sobre o surgimento e a construção do conceito de investimento social (ISP) privado no Brasil. Com base em pesquisa documental e bibliográfica, o ex-gerente de Relacionamento do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas discorre sobre os tipos de ISPs presentes e discute os desafios e tendências da construção do termo e das práticas na área. Os autores vêem tendência na diversificação dos modelos e a criação de redes de aprendizagem sobre o assuntos, com o envolvimento de representantes de diversos setores.

ISP_15_anos

 

 

Dez Dicas da Charities Aid Foundation para que o Investimento Social Corporativo se Perpetue

11/8/2009 – Na atual conjuntura econômica, com demissões acontecendo em todo o Reino Unido e ao redor do mundo, seria ingênuo simplesmente dizer aos investidores sociais “doe mais”. O relatório Helping Companies Helping Charities, publicado pela CAF em julho, destacou a necessidade de as instituições praticarem o investimento social sem restrições.

Reprodução: Logomarca da Charities Aid Foundation Doar eficazmente está relacionado a investir bem e, não necessariamente, mais. Existem maneiras simples que as empresas podem fazer para que o orçamento destinado para a comunidade alcance melhores resultados. Neste artigo, a CAF aponta dez dicas principais para isso ser alcançado:

 

1. Garanta que o foco do investimento social faça sentido para o negócio
Alinhar o programa comunitário com o negócio da empresa irá ajudar a garantir a promoção do impacto positivo na comunidade e também beneficiar a companhia.

2. Engaje os colaboradores por meio do programa de doação
O investimento social da empresa pode ser significativamente alavancado se for estimulada a cultura de doação dentro da corporação, ou seja, incentivar os colaboradores a se comprometerem pessoalmente com a causa por meio do voluntariado ou mesmo doações via folha de pagamento. Um exemplo de baixo custo de incentivo é fazer com que os funcionários se envolvam na escolha das organizações sociais parceiras. Isso pode ser uma iniciativa para que eles participem do programa comunitário da empresa e ajudem-na a contribuir mais para o mundo.

Veja como a Friends Provident, empresa de produtos financeiros e serviços, e a Guardian Media Group, companhia do setor da mídia, engajaram seus colaboradores no Give As You Earn, programa de doação dos funcionários que desconta o valor diretamente na folha de pagamento. Os textos estão em inglês.

3. Divulgue as organizações sociais para a cadeia de fornecedores e stakeholders
Ao compartilhar com os principais stakeholders (cadeia de abastecimento e sua rede de contato) a iniciativa de apoio da empresa, o impacto será maior e a promoção da filantropia poderá angariar o apoio de novas empresas doadoras.

“A British Telecom está empenhada em compartilhar as melhores práticas bem como trabalhar com os seus stakeholders. Realizamos eventos corporativos para ChildLine com o objetivo de compartilhar aprendizados, incluindo os benefícios para a empresa de se trabalhar com organizações sociais. Embora reconheçamos que a ChildLine é a melhor opção para falar sobre o seu serviço, quem melhor para falar com as empresas sobre as vantagens empresariais do que um parceiro de negócios? Temos apresentado a ChildLine aos novos adeptos e trabalhado de maneira participativa com os fornecedores e clientes para apoiar a ChildLine. Vemos isto como vencer, vencer, vencer, beneficiando a ChildLine, outras organizações e BT.”
Beth Courtier, presidente do Programa de Filantropia da empresa de telecomunicações do Reino Unido Bristish Telecom (BT)

4. Garanta os benefícios fiscais
Tanto nas doações corporativas (no Reino Unido ou internacionais), como na captação de recursos dos colaboradores via empresa, a empresa pode utilizar-se de leis de incentivo fiscal para criar um programa social ou destinar os valores. Isso representará mais recursos disponíveis para as organizações sociais que precisam do seu apoio e, consequentemente, mais benefícios fiscais para o doador. Veja como a empresa farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) utiliza os benefícios fiscais em suas doações internacionais. O texto está em inglês.

5. Reduza as restrições que envolvem o dinheiro doado para as organizações sociais
Investimento social sem restrições é raro e precioso. Experimente e estabeleça acordos com as organizações sociais sobre os resultados a serem alcançados, sem restringir o uso da doação. Ou, ainda, certifique-se de que o investimento social está de acordo com o verdadeiro custo do projeto, incluindo um limite para as despesas de gestão do projeto que será apoiado, como custos operacionais e salários. Isso irá demonstrar que, trabalhando com a organização parceira, a empresa poderá ajudá-los a produzir de maneira eficaz a sua missão, utilizando os recursos de forma mais flexível, mesmo em momentos de recessão. Tudo contribuirá para aumentar o impacto global do investimento.

6. Reconheça as competências dos colaboradores de sua organização

“Nós vemos que as nossas melhores parcerias são aquelas realizadas com organizações sociais sólidas e estáveis. Naturalmente, a nossa prioridade é sobre a realização dos resultados acordados, mas nós respeitamos as habilidades de nossos parceiros para gerir essa responsabilidade como entenderem. Então nós incentivamos àqueles que apoiamos a utilizar os nossos recursos da maneira mais eficaz que eles puderem, tanto para a entrega dos resultados, quanto para manutenção e crescimento das próprias organizações.”
Matthew Sparkes, gerente de Investimento Global, Linklaters, escritório internacional de advocacia

A pesquisa da CAF mostra que as organizações sociais percebem os setores industriais de forma diferenciada em relação àquilo que têm a oferecer. Sua percepção é construída com base nos pontos fortes e eventuais correções sobre possíveis preconceitos existentes. Ao alavancar os recursos da empresa, a organização social se beneficiará da combinação de competências da companhia que vai além da contribuição em dinheiro. Alguns exemplos: experiência e know-how dos colaboradores, equipamentos de escritório, instalações para reuniões e disponibilidade das empresas para colocarem caixas de coleta de doações.

Um forte programa integrado a objetivos claros significará benefícios para o negócio e para a comunidade, tornando o impacto global do investimento significativamente maior. Veja como os colaboradores da consultoria de finanças UBS ajudaram líderes de ONGs na Índia. O texto está em inglês.

7. Considere a colaboração de outros parceiros
Contribua com instituições que possuem objetivos comunitários similares que ao da empresa – outras companhias, organizações sociais ou grupos comunitários. O esforço conjunto pode promover um impacto social ainda maior e desenvolver competências sem comprometer o resultado. A parceria entre o Banco Macquarie e a Fundação Cripplegate é um excelente exemplo de colaboração de sucesso. O texto está em inglês.

8. Invista tempo em acordos com as organizações sociais
Elaborar acordos que estabelecem a forma como o relacionamento irá funcionar. Incluir as contribuições da sua empresa, de seus colaboradores bem como da organização social. Tudo isso irá permitir que a empresa estabeleça compromissos (fixos e flexíveis) com a organização social, ajudando a administrar as expectativas de todos. O acordo ajudará a direcionar os envolvidos para objetivos comuns e garantir que os recursos da sua empresa estão sendo utilizados da melhor maneira.

9. Meça o impacto da sua doação, em seguida, reveja e ajuste o que for necessário
Medir o que foi alcançado e o que isso significa para a comunidade, para as organizações que trabalham com a companhia e para o próprio negócio é a chave para o sucesso do programa. Utilize essa informação para rever a atividade, comunicar valores, aprender com a experiência e reforçar o foco do investimento social. Veja como a empresa de tecnologia de materiais Johnson Matthey aumentou o impacto de seus programas de doação. O texto está em inglês.

10. Comunique os seus aprendizados e desafios
Incentive outras empresas a aprender com os sucessos e os desafios experimentados pela sua companhia, utilizando uma comunicação pelo site e por meio de eventos.

A CAF tem uma equipe dedicada a ajudar a empresa a tirar o máximo proveito dos seus recursos disponíveis. Podemos ajudá-lo a avaliar sua atividade atual e obter melhores resultados, permitindo-lhe desenhar e executar o programa comunitário com facilidade.
Fonte: Site da CAF

Tradução: IDIS

Desenvolvimento Local no Nordeste

Em coletânea de artigos, consultores de diversas especialidades analisam as práticas construídas pelos dez anos de experiência dos Conjuntos Integrados de Projetos (CIPs), programa da Fundação W. K. Kellogg que reúne seis projetos em seis Estados do Nordeste (Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba e Pernambuco) que visam o desenvolvimento comunitário. O livro Apoio internacional ao desenvolvimento local – Experiências sociais com juventudes no Nordeste traz as análises e é organizado pela antropóloga Leilah Landim e pela jornalista Maria Carolina Trevisan.

Reprodução: Capa do livro Apoio internacional ao desenvolvimento local - Experiências Sociais com juventudes no Nordeste

A obra, de 248 páginas, tem a finalidade registrar as experiências vividas pelos consultores e especialistas junto às comunidades locais na formação de redes e no processo de implantação coletiva das ações planejadas. Os CIPs mobilizaram diferentes atores sociais, como representantes do poder público e instituições públicas e privadas. Os oito artigos trazem reflexões sobre erros e acertos, dilemas e responsabilidades, além dos resultados dos trabalhos realizados.

O papel dos financiadores no desenvolvimento local é um dos temas apresentados, assim como o papel da juventude, a experiência do acompanhamento dos projetos, a importância das alianças intersetoriais, entre outros. O livro é editado pela Editora Peirópolis e está à venda em algumas livrarias e pela Internet.

Documentos em Ordem São Imprescindíveis para Pleitear Financiamento

No artigo, a gerente de projetos do IDIS, Carla Cabrera Duarte, e a diretora Administrativa da instituição, Silvia Benedini Bertoncini, apontam quais os documentos que, geralmente, os investidores sociais solicitam na hora de fechar uma doação. As profissionais também tratam sobre o método que o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social utiliza na avaliação qualitativa da instituição pleiteante.

Uma organização da sociedade civil, além de cumprir com sua missão, deve manter atualizada uma série de documentos administrativos, para demonstrar sua regularidade junto aos órgãos públicos e pleitear financiamento para seus projetos sociais e, assim, legitimar suas ações junto aos apoiadores.

Atualmente, os investidores sociais procuram verificar se a instituição está em dia com as obrigações legais. Eles querem que o investimento social seja revertido em impactos positivos para a sociedade. O fato de manter a documentação atualizada, de dar publicidade à aplicação de seus recursos e de possuir título ou qualificação conferida pelo Estado oferece credibilidade à organização e traz confiança ao doador, sendo um fator decisivo na hora da doação.

Muitos doadores possuem alianças com instituições sem fins lucrativos, que estipulam requisitos básicos para concretizá-los. O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) denomina essa etapa de processo de Validação e a divide em duas análises: uma documental e outra qualitativa.

Análise Documental

A organização social deve sempre manter os documentos administrativos que comprovam a legalidade perante aos órgãos públicos e fiscalizadores competentes, facilitando a condução de futuras oportunidades.
Abaixo, listamos alguns documentos que podem ser exigidos tanto em um edital de seleção de empresa ou de licitação do governo quanto por investidores sociais:

  • Cópia autenticada do estatuto da organização com a última alteração.
  • Cópia autenticada da ata  que contenha  a aprovação da diretoria em exercício,  dos membros dos conselhos Administrativo e Fiscal.
  • Cópia do cartão atualizado do registro de CNPJ.
  • Cópia da certificação (se for o caso): Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), Utilidade Pública (Federal, Estadual ou Municipal) , Entidade Beneficente de Assistência Social e OS – Organização Social. Para Oscip’s, instituições de Utilidade Pública Federal e Organizações Estrangeiras, o prazo de validade da certidão é de um ano. Essas organizações devem estar obrigatoriamente cadastradas e em situação legal junto ao Cadastro Nacional de Entidades do Ministério da Justiça (CNE/MJ). A prestação de contas junto ao MJ é anual e ocorre até 30 de junho para as OSCIPs e até 30 de abril para as UPFs . No site do Ministério da Justiça  encontram-se todas as informações sobre como ela deve ser realizada. A expedição da certidão de renovação de título ou de qualificação federal ocorre apenas por meio do Ministério da Justiça.
  • Balanço patrimonial e demonstrativo do último exercício financeiro. O documento é fornecido pelo contador/escritório de contabilidade contratado pela instituição.
  • Parecer da auditoria sobre os balanços da organização. Para aquelas organizações que possuem título ou qualificação federal, deverá ser observado o valor mínimo exigido.
  • Certidões negativas da Previdência Social (INSS) e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Mesmo que a organização social não tenha funcionários, o documento é necessário para provar que não há necessidade de contribuição ou ainda a inexistência de débitos. A certidão negativa da Previdência Social é válida por seis meses e pode ser solicitada pelo sitewww.previdencia.gov.br. A certidão do FGTS vale por um mês e também pode ser solicitada via Internet, no site da Caixa Econômica Federal.
  • Certidão Negativa de Falência e Concordata. Válida por três meses. Deve ser solicitada junto ao fórum judicial competente da região.
  • Prova de quitação com as fazendas Federal, Estadual e Municipal. Essa certidão refere-se a tributos como o Imposto de Renda, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS (estadual) e o Imposto Sobre Serviços – ISS (municipal). No caso do IR, a Receita Federal oferece o serviço pela Internet. É necessário verificar junto a cada governo estadual e municipal como requerer a quitação. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a prefeitura disponibiliza a emissão dessas notas através de seu site.
  • Dados da conta bancária da organização. Para facilitar a gestão dos recursos financeiros doados a um determinado projeto,  o IDIS aconselha a instituição abrir uma conta corrente específica para a doação. No âmbito governamental, esse é um procedimento obrigatório. Isso facilita a prestação de contas a o investidor que tem maior transparência e visualização dos gastos incorridos.
  • Cópia da inscrição em conselhos municipais, estaduais e federal, caso a organização esteja vinculada a algum. Vale lembrar que aquelas que atuam com crianças e adolescentes são consideradas regulares quando inscritas no respectivo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.
  • Cópia do relatório de atividades. Esse documento, em geral, não é obrigatório, mas ajuda o investidor a compreender o histórico da organização. Recomenda-se o fornecimento do relatório de atividades dos dois últimos anos.

Análise Qualitativa

Além da análise documental o IDIS faz uma análise qualitativa da organização. Para essa análise são considerados Instituição, Indivíduos e Idéia (3Is).

Da instituição, são consideradas questões relacionadas à estrutura organizacional. A história da organização, a forma como surgiu, a sua capacidade de mudança decorrente da mudança de contexto, da participação comunitária e da mudança de liderança são reveladores da forma como a organização se posiciona diante de seus desafios.  São observadas também a gestão e a governança da instituição, a sua capacidade de incluir a comunidade na sua gestão, de trocar lideranças e gestores, de organizar seus recursos humanos, de se articular e de se relacionar com parceiros internos e externos à comunidade e de realizar uma boa captação de recursos por meio de uma gestão eficiente.

A ideia da organização, a sua missão, a profundidade da concepção de seu trabalho e dos projetos que realiza, a sua capacidade de inovar e de aprender com a sua prática são outros itens que compõem a análise qualitativa. Aqui, inclui-se também sua capacidade de fazer com que o conhecimento gerado na organização seja um patrimônio imaterial, passível de ser compartilhado.

Uma relação horizontal com a comunidade é pressuposto para que um projeto social gere impacto e o investimento realizado seja eficaz. Na análise, leva-se em conta se os envolvidos com a organização são receptores passivos de um benefício ou atuam como protagonistas participantes da mudança da própria realidade.

Por fim, as lideranças da organização são também observadas. São analisados o nível de motivação e comprometimento dos indivíduos para o trabalho na instituição. A flexibilidade, a permeabilidade e a competência na articulação dos indivíduos na relação com colaboradores, com a comunidade e com parceiros, bem como o profissionalismo e transparência nas relações.

Carla Cabrera Duarte é gerente de projetos do IDIS nas áreas de investimento social na comunidade e de investimento social corporativo. Silvia Benedini Bertoncini é diretora Administrativa do IDIS, com ampla experiência em gestão administrativa e financeira de organizações sociais.

O Que Consta em um Projeto Social?

Confira neste roteiro básico elaborado por Carla Cabrera, gerente de projetos do IDIS, que rubricas e informações devem estar presentes em um projeto desenvolvido por uma organização da sociedade civil. Um projeto é composto de diversos itens que, encadeados, dão sentido, corpo e forma à ideia da organização.

São eles:
1. Identificação e descrição da organização proponente

Apresenta os dados gerais da instituição, como CNPJ, endereço, telefones, site e também um breve histórico da organização, sua missão e principais iniciativas.

2. Identificação dos responsáveis pelo projeto 

Traz nomes, cargos e contatos das pessoas responsáveis pelo projeto.

3. Título

Inclui o nome curto do projeto, que expressa sua finalidade e forma de atuação.

4. Justificativa

Discute o contexto social em que se inserem a organização da sociedade civil e o projeto proposto. Serve para mostrar por que é necessário e prioritário fazer a intervenção proposta pelo projeto.

5. Público-alvo 

Descreve quantos e quem são os beneficiados diretos e indiretos do projeto.

6. Objetivo Geral 

É a razão de ser do projeto. Responde de forma clara e objetiva à questão: “para quem se destina esse projeto e o que ele pretende transformar?”. Este objetivo está diretamente relacionado à justificativa e é genérico. Ele não pode ser assegurado somente pelo sucesso do projeto; depende de outras ações e variáveis. Portanto, expressa o que se quer alcançar em longo prazo, ultrapassando inclusive o tempo de duração do projeto.

7. Objetivos Específicos 

Explica como estarão o público-alvo e o contexto social depois de suas necessidades serem atendidas. Cada objetivo específico retrata uma única mudança na vida do público-alvo. Um objetivo específico é mensurável, atingível num tempo limitado, relacionado às necessidades do público-alvo.

8. Plano de ações 

Mostra o que será feito para que os objetivos específicos se transformem em realidade.

9. Parcerias

Relata se o projeto conta com alianças com o setor público, com a iniciativa privada e/ou com organizações da sociedade civil organizada. Também apresenta o tipo de parceria estabelecida e o papel de cada ator.

10. Avaliação

Apresenta os procedimentos e métodos que serão usados para saber se as atividades estão sendo executadas, consumindo os recursos previstos, e se os objetivos propostos estão sendo atingidos.

11. Cronograma

É a representação gráfica do tempo das ações e das atividades planejadas. Responde quando ocorrerão as atividade previstas no plano de ação durante o período estabelecido para o projeto.

12. Orçamento

Detalha todos os recursos materiais, financeiros e humanos envolvidos no projeto. Pode ser feito mostrando as despesas por tipo ou rubricas tais como, recursos humanos, equipamentos etc. Também podem ser apresentadas por meio de um cronograma físico financeiro que mostra quando as despesas serão efetivadas ao longo do projeto.

13. Equipe

Descreve o grupo de pessoas envolvido no projeto e qual será o papel de cada um.

14. Sustentabilidade (continuidade do projeto)

Pontua as estratégias e os desdobramentos que viabilizarão a continuidade do projeto e de seus resultados.

 

 

Cenário Brasileiro do Marketing Relacionado a Causas – Atitudes e comportamentos das OSCs e Empresas

A pesquisa Cenário Brasileiro do Marketing Relacionado a Causas – Atitudes e Comportamentos das OSCs e Empresas mostra a incidência de ações de Marketing Relacionado a Causas (MRC) no mercado brasileiro, além de apontar o comportamento e as atitudes de instituições com e sem fins lucrativos em relação à temática. O levantamento foi realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e pela Enfoque, empresa de pesquisa em marketing. Os resultados foram apresentados durante o 3º Seminário de Marketing Relacionado a Causas, promovido pelo IDIS no último trimestre de 2007.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

Edital de Seleção Torna-se Ferramenta no Investimento Social

O artigo trata sobre a importância do uso do edital de seleção como ferramenta transparente e pública para escolha de projetos socioambientais que atendam ao interesse do investidor social. O texto é assinado pela equipe de colaboradores do IDIS: Carla Cabrera, Mirza Laranja e Tatiana Akabane van Eyll, gerentes de Projeto.

Já faz algum tempo que as empresas que realizam investimento social corporativo estão mudando de postura em relação à sua prática. Trata-se de um novo paradigma: a troca do modelo de filantropia tradicional para o modelo de investimento social. Nesse novo contexto, a companhia passa a atuar como um financiador que visa a formar parcerias eficientes para atender a uma causa social. Uma das ferramentas para atingir essa meta é o uso do edital de seleção para financiamento de projetos.

No modelo tradicional, ao fazer doação de recursos, uma empresa reage pontualmente a demandas externas. Atua de forma assistencialista e paternalista, atendendo ao interesse de uma só parte, o que pode gerar uma relação de dependência. Embora tenha boas intenções, seu investimento não garante transformação social. Para isso realmente acontecer, o investimento social privado depende de pesquisa focada, planejamento criativo, estratégias predefinidas, execução cuidadosa e monitoramento dos seus resultados. A alocação não se resume apenas a dinheiro, inclui recursos humanos, técnicos e gerenciais para o bem público.

A escolha de atuação da empresa é definida segundo seu objetivo, recursos disponíveis e contexto:

  • Doadora: coloca recursos segundo a demanda de instituições sociais responsáveis pelo planejamento e execução de projetos próprios
  • Empreendedora: doa ativamente a organizações que executam projetos e ideias propostas pela empresa
  • Operadora: elabora e executa iniciativas por ela desenvolvidas
  • Financiadora: investe recursos tanto de forma ativa quanto reativa a instituições sociais responsáveis pelo planejamento e execução de projetos que sigam a sua linha de interesse.

Em sua estratégia, a empresa pode combinar diferentes modelos de atuação, criando soluções que se mostrem viáveis e eficazes, na busca dos objetivos propostos. Para atuar como financiador, são necessárias algumas competências técnicas, como:

  • identificação de oportunidades estratégicas de investimento social
  • escolha de parceiros competentes para o desenvolvimento e implementação de propostas
  • análise e seleção de propostas
  • monitoramento e mensuração de resultados

Uma ferramenta muito eficiente para financiar propostas que atendam ao interesse do investidor social é utilizar o edital público. O edital exige um planejamento cuidadoso de todas as etapas do financiamento que, por sua vez, ajudará na elaboração e na implementação de um processo que minimiza riscos e potencializa os recursos.

No planejamento, a empresa:

  • define seu foco de investimento
  • cria critérios de seleção das propostas
  • propõe diretrizes para as propostas
  • aponta os pré-requisitos necessários para a organização executora
  • demonstra suas expectativas de resultado e impacto com base em indicadores pré-selecionados
  • torna explícitos quais serão os processos de monitoramento e avaliação

No documento do edital, a companhia também define modelos, roteiros, questionários e formulários, explicando como deve ser apresentado o planejamento, o orçamento e a prestação de contas. Ao torná-lo público, as organizações interessadas enviam as propostas para o financiador, que as analisará e selecionará conforme a maior proximidade das diretrizes e critérios estabelecidos no edital.

Para as corporações, o uso do edital de seleção traz os seguintes benefícios:

  • Compartilhamento e publicidade da estratégia de investimento social
  • Transparência na atuação
  • Criação de banco de dados de organizações sociais que atuam em sua área de interesse
  • Acesso a iniciativas e ideias inovadoras
  • Facilidade na análise dos projetos, uma vez que a estrutura geral para a apresentação das propostas é definida pela empresa no edital
  • Conhecimento mais profundo dos projetos e das organizações sociais com quem estabelece parceria, favorecendo alianças de qualidade e sustentáveis
  • Mais exatidão no monitoramento dos projetos e mensuração dos resultados do investimento
  • Contribuição para o desenvolvimento das instituições sociais envolvidas na seleção

Como se pode perceber, a seleção por meio de edital é um processo que deve ser cuidadosamente planejado, requer disciplina para cumprir adequadamente todas as etapas, além de comunicação clara e eficiente. O esforço traz bons resultados. Foi o que aconteceu com a Nestlé Brasil. Utilizar o edital permitiu à multinacional suíça selecionar de forma pública projetos que estão de acordo com a sua estratégia de atuação social, baseada na nutrição, na saúde e no bem-estar. Desde 1999, a Fundação Nestlé Brasil, braço social da empresa, desenvolve o Programa Nutrir, que leva educação alimentar e incentiva a prática esportiva entre crianças e adolescentes de 4 a 18 anos, moradores de comunidades de baixa renda em todo o país, contribuindo no combate à desnutrição e à obesidade.

Em dez anos, o Programa Nutrir estabeleceu parcerias com organizações sociais, escolas públicas e prefeituras, no intuito de fazer a educação alimentar tornar-se parte da vida dessas crianças. Com a promoção“Nestlé Torce Por Você”, pela primeira vez, selecionou dez propostas de forma pública, com critérios claros, transparentes e num processo que organizações sociais de todo Brasil puderam participar. Cada um dos dez projetos escolhidos recebeu 70 mil reais para a execução. A seleção aconteceu em 2008.

O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) apoiou a Fundação na elaboração do texto do edital, na concepção e desenvolvimento dos modelos do processo de monitoramento dos projetos e realizou a oficina para ajustes nas propostas selecionadas. O Instituto ainda foi responsável por alinhar o contrato, os procedimentos de repasses de recursos e o processo de monitoramento entre a Fundação e as organizações sociais.

Para a Fundação Nestlé Brasil, o grande salto foi conseguir comparar propostas, mobilizar as instituições sociais a apresentar projetos que estivessem alinhados com a sua missão e poder incentivar a troca de experiências entre proposições tão similares que buscam atingir, de certa forma em conjunto, um bem maior.

Livro Aborda Capitalismo Filantrópico

Livro aborda capitalismo filantrópico

O perfil dos investidores sociais mudou. Antes, os filantropos apenas doavam aleatoriamente a organizações sociais ou projetos, sem procurar saber sobre resultados. Hoje, os novos bilionários doadores estão redefinindo a forma de como o investimento social é feito bom base em métodos de negócios, com métricas de análise de impacto, planejamento de metas, entre outros.

Essa é a discussão que traz o livro Philanthropicalism: How the Rich can Save the World (Capitalismo filantrópico: como os ricos podem salvar o mundo, em tradução livre), de Matthew Bishop e Michael Green. A obra, de 298 páginas, foi editada em 2008 pela Bloomsbury Press. Está disponível apenas em inglês.

Os autores apresentam entrevistas com outros grandes filantropos (além de Bill Gates), como George Soros, Bill Clinton, Angelina Jolie e Bono Vox. O editor Matthew Bishop e o economista Michael Green analisam esse novo movimento de filantropia e seus impactos. São doadores que investem em causas que vão desde a situação do clima à cura de doenças. Mias informações e vídeos com entrevistas podem ser encontradas no site Philanthrocapitalism.

 

 

O Papel das Empresas nos Determinantes Sociais Da Saúde

Como as corporações podem atuar junto aos Determinantes Sociais da Saúde (DSS) foi o tema do estudo realizado pelo The Conference Board of Canada, organização da sociedade civil de pesquisa aplicada daquele país. O Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) traduziu o sumário executivo, cujo original se encontra em inglês. O relatório Pessoas Saudáveis, Desempenho Saudável, Lucro Saudável aponta como as ações de empregadores e empregados podem influenciar diretamente na qualidade da saúde. Essa nova visão da DSS é interdisciplinar e considera que o bem-estar resulta da influência social, econômica, cultural e política de uma sociedade e não apenas da condição individual de saúde. No sumário-executivo, observa-se que a empresa é um dos atores responsáveis pelo alcance da qualidade da saúde, ao lado do governo e da sociedade. O documento apresenta exemplos de iniciativas de corporações do Canadá e de outras nações que indicam, na prática, como pode ser essa atuação. A íntegra do relatório, em inglês, pode ser acessada no site www.conferenceboard.ca. É necessário cadastrar-se gratuitamente. Aqui no portal do Investimento Social é possível fazer o download da versão em português.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

 

 

Processo e Resultado

Publicado originalmente na Rede GIFE online, o artigo de Célia Schlithler fala sobre resultados em projetos de investimento social privado. Para a assistente social especialista em formação de grupos e redes sociais, o processo de desenvolvimento desses projetos já é resultado. Leia o artigo completo.

Nem tudo o que conta é contável. Nem tudo o que é contável conta.
(Albert Einstein)

Célia Schlithler*

A preocupação com a demonstração de resultados é assunto recorrente em encontros de profissionais de empresas, institutos e fundações que fazem investimento social. O mesmo acontece quando Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que têm projetos financiados por meio desses investimentos, estão reunidas.

É natural que todo investidor decida onde aplicar seus investimentos baseado nos resultados projetados. Do mesmo modo, a manutenção do investimento está diretamente relacionada aos resultados obtidos. Quando o objetivo de um investimento é o lucro, é fácil aferir os resultados, porque não há dúvida quanto ao que é esperado. Mas, e no caso do investimento social? Como expressar claramente quais são os resultados esperados?

Embora continuem bastante interessados em números, os investidores sociais já sabem que os resultados de projetos sociais nunca são apenas quantitativos. Por este motivo, a definição de indicadores também leva em conta os resultados qualitativos, com a ciência de que a verificação deste tipo de indicador sempre terá um componente subjetivo. O que, aliás, é bastante positivo, pois não se está mensurando a produtividade de robôs ou máquinas (e até eles são operados por seres humanos, o que interfere em seu desempenho).

É fato, também, que os projetos sociais prevêem avaliação ou monitoramento de processo. Entretanto, penso que o que todos nós precisamos entender é que o processo já é resultado.

Há dez anos trabalho com a formação de redes sociais, principalmente as redes de desenvolvimento comunitário, e constato freqüentemente que essa visão sobre o processo ainda não é compartilhada por inúmeras pessoas. As perguntas que me fazem sobre os resultados das redes sempre se referem ao que elas estão realizando e em benefício de quantas pessoas. Sem dúvida estas questões são importantes, pois é essencial que as redes sociais realizem ações colaborativas e projetos coletivos, definidas a partir da contribuição que trarão para o cumprimento dos objetivos da rede os quais, necessariamente, se referem a mudanças sociais.

No entanto, é preciso perceber que o processo de formação de uma rede já é um importantíssimo resultado! Conseguir reunir, e manter unidas, pessoas de diferentes organizações e setores em uma configuração horizontal, multiliderada, participativa e cooperativa é um resultado e tanto. A existência da rede em si provoca, por exemplo, mudanças na qualidade do diálogo entre moradores de uma comunidade e as empresas que dela fazem parte e, também, entre as OSCs e o setor público.

Em vez de reivindicações e, por que não dizer, exigências, decide-se coletivamente o que fazer diante de situações que afetam a todos. As forças existentes na comunidade são potencializadas por meio da união e articulação promovida pela rede. Por conseqüência, ações coletivas e mudanças em políticas públicas são efetivadas, o que poderia demorar anos pelos caminhos “tradicionais”.

Creio que esta mesma visão pode ser compatível com qualquer (bom) projeto social. Em projetos de geração de renda, por exemplo, o resultado no aumento da renda e o impacto na melhoria de qualidade de vida são, obviamente, sempre esperados. No entanto, quem já teve a oportunidade de conversar com moradores de uma comunidade, participantes deste tipo de iniciativa, sabe que raramente é disso que eles falam quando opinam sobre o projeto.

Seus depoimentos falam dos conhecimentos adquiridos, da união da comunidade, da auto-estima resgatada, mesmo quando ainda não houve aumento na renda. Esses resultados fazem parte do processo e são mudanças que permanecerão, pois ninguém poderá tirar o conhecimento adquirido por uma comunidade.

Os projetos de formação para o trabalho de jovens, que incluem a educação integral, também são um ótimo exemplo. Ao longo da formação, os jovens mudam de atitude, passam a ser mais participativos, repensam seus valores, amadurecem. A inserção no mercado de trabalho é apenas um dos resultados que virá depois.

Se considerarmos que o processo é resultado, a própria elaboração dos projetos pode ser mais criteriosa nas escolhas das estratégias e atividades que serão adotadas, de modo a contribuir para um processo muito mais rico para todos os envolvidos.

O Glossário Social do GIFE define impacto social como ”a transformação da realidade de uma comunidade ou região a partir de uma ação planejada, monitorada e avaliada”. E afirma que “só é possível dimensionar o impacto social se a avaliação de resultados detectar que o projeto efetivamente produziu os resultados que pretendia alcançar e afetou a característica da realidade que queria transformar”. Portanto, se o processo for levado em conta com mais atenção, os indicadores de resultados, definidos antes de o projeto ser implantado, serão ampliados.

Quando os financiadores de projetos sociais se apropriarem da visão de que o processo é resultado, certamente haverá muito mais percepção de retorno durante a execução dos projetos. Será possível, também, detectar precocemente que seu investimento não está dando resultados, a tempo de mudar o processo para se obter o impacto esperado em prol do desenvolvimento social.

*Célia R. Belizia Schlithler é assistente social formada pela PUC-SP, com formação e aperfeiçoamento em Coordenação de Grupos Operativos pelo Instituto Pichon-Rivière de São Paulo. De 1998 a 2003, atuou em projetos de formação e desenvolvimento de grupos e redes sociais como consultora de organizações tais como Instituto C&A, GIFE (PTG), Unicef e IDIS.

Desenvolveu também projetos específicos para entidades sociais, como cursos e seminários de capacitação para trabalho em grupo, e assessoria para coordenadores de equipes.

Em 2004, assumiu a coordenação da área de Investimento Social Comunitário do IDIS, organização que empreende projetos de desenvolvimento comunitário e presta consultoria a empresas, onde permaneceu até setembro de 2008, na função de Diretora de Desenvolvimento Comunitário.

Desde outubro de 2008, voltou a atuar como consultora em desenvolvimento de grupos, redes e comunidades para OSCs, institutos, fundações e empresas. É autora do livro Redes de Desenvolvimento Comunitário – Iniciativas para Transformação Social, da Coleção IDIS de Investimento Social.

Pesquisa Revela Características da Atuação Social Corporativa Norte-America no Brasil

Levantamento em cinqüenta e nove organizações, entre empresas, fundações e institutos, ajuda a traçar panorama sobre o investimento social corporativo realizado por organizações norte-americanas no Brasil.

Empresas como a Coca-Cola, a IBM, e a Microsoft, ou instituições como o Instituto Avon (apoiado pelo IDIS no seu investimento social corporativo e no monitoramento de ações como a Campanha Um Beijo pela Vida), a Fundação Ford, o Instituto Ronald McDonald e o Instituto Wal-Mart realizaram e apoiaram, juntos, mais de 765 ações sociais 2006.

Dessas, 564 foram programas e projetos de filantropia estratégica divididos nas áreas de educação, saúde, meio ambiente e formação para o trabalho e 201 foram ações de voluntariado promovidas pelas corporações.

Realizado pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) por encomenda do Grupo +Unidos – parceria que reúne a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a Câmara de Comércio Americana (AmCham) e 104 companhias norte-americanas que atuam no país –, o relatório Investimento Social Privado dos EUA no Brasil foi lançado em dezembro de 2008. “Uma pesquisa dessa natureza mostra como a responsabilidade social empresarial e o investimento social privado são valorizados pelas empresas norte-americanas”, afirma Fernando Rossetti, secretário-geral do GIFE. “A estratégia conjunta em um país deve servir como inspiração para as empresas brasileiras que estão se globalizando.”

O primeiro mapeamento das ações sociais realizadas pelo grupo revelou a alocação de cerca de 204 milhões de reais  para fins públicos em todos os estados brasileiros.  A maior concentração, porém, ficou na região Sudeste.

O objetivo da pesquisa é dar subsídios para a análise conjunta de tendências e facilitar o planejamento de ações integradas a partir de 2009. Segundo os representantes do Grupo, a agenda comum deve conter iniciativas e tarefas concretas de curto, médio e longo prazos. “Este estudo permitirá uma reflexão profunda sobre os investimentos, identificando pontos fortes e fracos,  e oportunidades de sinergias entre as ações sociais. Como resultado prático, esperamos aumentar o impacto de cada centavo investido pelas empresas americanas no Brasil”, afirma Rodolfo Fücher, diretor de Investimentos Sociais para a América Latina da Microsoft e membro do Comitê +Unidos.

A diversidade do grupo, que reúne companhias de variados portes e diversas áreas, bem como programas de investimento social corporativo em diferentes estágios, deve permitir trocas de experiências entre os participantes e maior abrangência no enfrentamento dos problemas sociais. Entre as principais tendências de ação social do grupo, estão:

  • Investimentos prioritários na área educacional
  • Projetos para prevenção, tratamento de doenças, ações educacionais de nutrição e de higiene, e de combate ao câncer
  • Projetos de preservação de recursos ambientais, com ênfase em conscientização, reflorestamento e reciclagem
  • Ações de apoio à juventude, com projetos de formação para o trabalho
  • Promoção do acesso a novas tecnologias, em especial às de informação e de comunicações
  • Mobilização de grande contingente de mão-de-obra voluntária
  • Utilização de mecanismos de incentivo/renúncia fiscal por menos da metade das empresas
  • Envio de recursos pelas matrizes norte-americanas a 65% das companhias brasileiras destinados a investimento social
  • Dupla estratégia de investimento por mais de 60% das empresas: aplicação simultânea em projetos próprios e projetos de terceiros
  • Utilização de equipes internas para conceber, monitorar e avaliar ações

As ações serão alinhadas aos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, metas criadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) que prevêem desde o combate a doenças como a AIDS e a malária, até a garantia de sustentabilidade ambiental e o ensino básico universal.

Desenvolvimento por meio da educação

As estratégias de investimento das companhias norte-americanas no Brasil passam, necessariamente, pela educação. Entre as 564 ações realizadas, 44% foram focadas em projetos para a educação que vão desde os cuidados da primeira infância até a educação continuada para adultos. São iniciativas como a capacitação de professores, o financiamento de entidades do setor, a adoção de escolas próximas às unidades de negócio e a promoção da participação comunitária. As ações para a saúde, com 153 iniciativas (27%), as de meio ambiente, com 109 programas (19%), e as de formação para o trabalho, compondo 89 ações (16%), foram os segundo, terceiro e quarto maiores grupos, respectivamente.

O relatório também identificou iniciativas que combinam duas ou mais áreas em sua atuação. São projetos de educação em saúde, iniciativas de aprendizagem voltadas para formar jovens para o mercado de trabalho ou de meio ambiente que também colaboram para a geração de trabalho e renda.

Tradição em voluntariado

A 59 organizações estudadas promoveram mais de 200 ações de voluntariado em 2006. “Essa foi uma das características mais marcantes do grupo revelada pela análise”, afirma Rossetti. Pelo menos 80% das companhias afirmaram ter investido em voluntariado em 2006 e 85% em 2007.  Os esforços mobilizaram cerca de 87 mil pessoas, representando 27% do total dos funcionários do +Unidos.

Os modelos de mobilização de voluntários possuíam algumas estratégias comuns:

  • one-to-one match – significa que, a cada valor em dinheiro arrecadado e doado pelos voluntários, a empresa doa igual quantia, fazendo um match ou par de igualdade
  • dollars for doners – empresas destinam quantias em dinheiro a entidades cujos funcionários realizam trabalhos voluntários por um determinado número de horas
  • maratonas de arrecadação e de prestação de serviços – eventos de voluntariado, realizados em períodos definidos, nos quais os funcionários se mobilizam para a arrecadação de itens ou promovem uma série de atividades em prol da comunidade.

Leia o estudo na íntegra.

 

 

Avaliação Permite Medir Efetividade das Ações da Fundação Banco do Brasil

No primeiro artigo que integra a parceria com o Portal do Investimento Social, do IDIS, a Fundação Banco do Brasil (FBB) explica como adotou a metodologia de avaliação de programas e projetos sociais.

Pelo interior do Brasil, serão estabelecidas metas de capacitação presencial para educadores de Estações Digitais. O objetivo é melhorar e ampliar os resultados do Programa de Inclusão Digital da Fundação Banco do Brasil.

Essa iniciativa de melhoria, assim como muitas outras já implementadas em nossos programas, é resultante do empenho da Fundação em mensurar os impactos de suas ações e, com isso, realinhar as que necessitam de ajustes e aprimorar a gestão e a utilização dos recursos aplicados em benefício das comunidades envolvidas.

Repdrodução: Logomarca da Fundação Banco do BrasilDesde 2006, a Fundação BB utiliza sua metodologia de Avaliação de Programas e Projetos Sociais, com o objetivo de medir o potencial transformador das ações empreendidas. O método utilizado conjuga dois tipos de avaliação que se complementam: a de processos e a de impacto.

A primeira promove o levantamento de dados para a tomada de decisões no processo, dos pontos de vista técnico e estrutural, permitindo ajustes necessários para o alcance dos objetivos. Já a avaliação de impacto permite a medição das mudanças produzidas pela intervenção da Fundação nas comunidades. Com isso, tem-se subsídios para a decisão da continuidade da ação, bem como para a prestação de contas das atividades realizadas.

Conceitos como eficácia (ligado às metas), eficiência (relacionado à aplicação dos recursos) e efetividade (referente aos benefícios e mudanças alcançadas) norteiam a metodologia, que se constitui como um pré-requisito de boa gestão.

Avaliar é uma condição indispensável para o gerenciamento de programas e projetos sociais, já que gera conhecimento sobre a ação realizada, fornece dados para verificação da efetividade do caminho escolhido e permite aprimoramento e correção de rumos, quando necessário. A prática possibilita verificar a pertinência, consistência, coerência e viabilidade das ações empreendidas.

Recentemente foi concluído mais processo de avaliação pela  Fundação Getúlio Vargas (FGV). A ação estudada foi o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), nos estados da Bahia, Pernambuco e Paraíba. Desenvolvido pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), em parceria com a Fundação BB e a Petrobras, o programa incentiva técnicas de convivência com o semiárido por meio da implantação de tecnologias sociais que garantem a existência de água para consumo humano, irrigação e uso animal, nos períodos de estiagem.

O “1” significa terra para produção. O “2” corresponde a dois tipos de água – água potável para consumo humano e água para produção de alimentos. Assim, apesar da pouca chuva, as famílias produtoras podem utilizar água de qualidade durante todo ano, tendo segurança alimentar e nutricional e podendo gerar renda.

Segundo levantamentos da FGV, o programa tem como pontos positivos o fato de os agricultores demonstrarem conhecimento sobre o processo de construção e funcionamento das tecnologias empregadas na produção e a observação de que o P1+2 introduziu o cultivo de hortas, fazendo com que as famílias passassem a consumir mais verduras e legumes.

Por outro lado, outras duas constatações sugerem a necessidade de redirecionamento de esforços: no que se refere às tecnologias empregadas, estas se mostraram eficientes na promoção da segurança alimentar, porém não muito eficazes a geração de renda; e quanto à chamada “segunda água”, percebeu-se que tem ocorrido seu direcionamento para o atendimento das demandas domésticas (que deveriam ser supridas pela “primeira água”). Ao final de todo processo de avaliação, a partir das recomendações do relatório final, tem-se a discussão e a implementação de ações corretivas.

Ao todo, já foram produzidos mais de dez relatórios de avaliações, todas realizadas por empresas contratadas pela Fundação Banco do Brasil, culminando em recomendações de melhorias das ações implementadas pela Fundação e parceiros. A realização do trabalho por instituições especializadas e autônomas garante a isenção, a imparcialidade e a transparência da análise.

Além do processo avaliativo, a Fundação mantém núcleos de monitoramento, responsáveis pelo acompanhamento permanente e sistemático das ações implementadas pelas gerências de Educação e Geração de Trabalho e Renda, utilizando-se de indicadores previamente estabelecidos.

Alguns dos processos avaliativos realizados desde 2006:

 

 

Programa Avaliado 

 Consultoria

Ano

Saneamento Básico na Área Rural (Goiás)  Ecoidéia Serviços Ambientais e Tecnologias Sociais 2006/2007
Produção Agroecológica Integrada Sustentável (PAIS) Fundação Getúlio Vargas 2007
Cadeia do Mel (Piauí) Fundação Getúlio Vargas 2007
AABB Comunidade Hoje Hoje EMP Consulting 2007
Projeto P1 + 2 – Uma terra e duas águas Fundação Getúlio Vargas 2008/2009
Mandiocultura (Bahia) Fundação Getúlio Vargas 2008/2009
Inclusão Digital Hoje EMP Consulting  2008/2009

 

 

CAF Aposta em Estratégia Global

O gerente de Projetos do IDIS Osmar Araújo esteve em treinamento na Charities Aid Foundation (CAF) em Londres e conta, em artigo, a importância de escutar cada vez mais (e melhor) as necessidades dos investidores sociais.

A Charities Aid Foundation (CAF) estabeleceu metas ousadas para os próximos anos. Sem fins lucrativos e com sede em Londres, a organização pretende fortalecer sua rede mundial até 2011 para atender a crescente demanda por serviços que gerem soluções globais na atuação dos investidores socioambientais.

O plano é composto por duas linhas básicas. A primeira disponibilizará um sistema de informação e de transferência de recursos online para todos os 8 escritórios e representantes da Rede CAF. A intenção é proporcionar uma ferramenta ágil e confiável aos clientes que desejem investir em outros países, especialmente aqueles que operam a partir de estratégias globais.

A segunda prevê mais integração entre os escritórios por meio do aperfeiçoamento da metodologia de trabalho, da troca sistemática de experiência e do desenvolvimento do relacionamento com clientes de forma integrada. Com isto, será possível entender melhor as necessidades dos investidores e criar soluções dentro da estratégia global de investimento socioambiental, só que refinadas às realidades específicas dos diferentes países.

Stock.xchng: Representação de rede de pessoasIsso é parte do que pude observar durante o primeiro treinamento internacional para equipes gerenciais, realizado pela CAF em novembro de 2009. O pano de fundo do encontro na capital inglesa foi formado por três questões: o fortalecimento da rede internacional, o estímulo à troca de experiências entre os representantes locais e o estabelecimento de processos formais de colaboração entre as unidades. Durante cinco dias, aconteceram workshops para o aprimoramento das consultorias, visitas a clientes e apresentação de casos.

Cada escritório da Rede CAF enviou de um a dois representantes, apenas a unidade da Bulgária não compareceu por incompatibilidade de agenda. Estiveram presentes integrantes do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), que atua no Brasil e na América Latina, o The Centre for Asian Philanthropy, que atua em Cingapura e região, e os escritórios da CAF nos Estados Unidos, na Índia, na Austrália, na África do Sul e na Rússia.

O workshop teve a função de desconstruir as lógicas prontas de muitos consultores. Durante o debate sobre mobilização e desenvolvimento dos clientes, a conversa veio corroborar o que o IDIS já faz no Brasil e que será replicado em outros países: desenvolver soluções mais customizadas na área de investimento socioambiental.

A meta é elaborar propostas que atendam ao universo daquele investidor, sem oferecer modelos padronizados, como caixinhas prontas. O IDIS há anos atua dessa forma, num relacionamento próximo ao cliente, escutando suas necessidades e oferecendo um repertório de serviços, competências e rede de contatos para proporcionar soluções sinérgicas para os investidores socioambientais.

Ao ser espalhada por toda a rede, essa prática vai auxiliar no atendimento mais “artesanal” do cliente no alcance mundial do investimento social. Como? Junto a um sistema de informação integrado, com intercâmbios entre as unidades, será possível disseminar as expertises e até facilitar o fluxo das doações.

Não são raros, por exemplo, casos de investidores norte-americanos que aplicam em causas de países da América Latina ou da África. Com os escritórios da CAF integrados na estratégia internacional de consolidação da rede, o fluxo será agilizado.

Captação

O intercâmbio também serviu para conhecermos mais de perto outras práticas. Uma das mais interessantes é adotada pela CAF Austrália. Os australianos possuem vários modelos para realização de doação online, inclusive um que utiliza cartão de crédito.

Esse tipo de ferramenta não é uma novidade no Brasil, mas ainda é pouco utilizado pelos doadores brasileiros. Além de ser uma maneira fácil para o investidor efetivar suas doações, organizações como a CAF funcionam como um avalista das causas e organizações que receberão os recursos.

Para se ter uma ideia do alcance que pode ter no país, basta observar os dados do comércio eletrônico. Mesmo sob os efeitos da crise econômica, cresceu 27% no primeiro semestre de 2009 se comparado ao mesmo período de 2008, segundo dados da e-bit, empresa especializada no setor. O faturamento foi de R$ 4,8 bilhões. Os números indicam o imenso potencial de utilização de ferramentas online no Brasil.

 

 

A Aderência o Constructo da Sustentabilidade e a Prática das ONGs

Dissertação apresentada por Rosana Kisil à Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas propõe um conjunto de critérios para analisar a sintonia entre o constructo da sustentabilidade e a prática de ONGs. Entende-se por constructo um conjunto de conceitos que, juntos, oferecem uma imagem ou idéia que não pode ser diretamente observada, mas, apenas indiretamente, por meio de seus componentes.

Clique aqui para obter o arquivo

 

 

Novos Papéis para as Fundações Corporativas

Publicado originalmente no site do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (www.gife.org.br), o texto de Rodrigo Zavala trata dos novos desafios enfrentados pelas fundações corporativas. O artigo faz referência a discussões levantadas pela CAF sobre a difícil relação entre os interesses das empresas e as necessidades das fundações que estas mantém.

As fundações corporativas começaram a enfrentar novos desafios nos últimos anos, principalmente no que se refere à inter-relação entre Investimento Social Privado (ISP) e Responsabilidade Social Empresarial (RSE). E o assunto está longe de sair da agenda em 2008.

Consideradas a “inteligência social das empresas”, as fundações passaram a incorporar novas responsabilidades trazidas por suas mantenedoras, que vêem nelas a possibilidade impulsionar uma gestão corporativa comprometida com a ética, tal como serem facilitadoras de diálogos entre o setor privado e a sociedade.

A última discussão sobre o assunto veio do Reino Unido, ainda no ano passado, quando a Charities Aid Foundation (CAF) lançou um estudo que explora a difícil relação entre os interesses empresariais e as necessidades das fundações que mantém. Com pouca repercussão no Brasil, as matérias sobre o levantamento pouco se diferiam quanto ao seu teor.

Com o nome de The changing nature of corporate responsibility – what role for corporate foundations? ( algo como, a natureza mutante da responsabilidade corporativa – qual a função das fundações coporativa), o estudo foi desenvolvido a partir de um estudo prévio, feito em 2006, o Revealing the Foundations (revelando as fundações), também realizado pela CAF.

No entanto, ele foi ampliado por meio da realização de entrevistas com empresas e suas fundações européias, especialistas em ISP e 20 ONGs beneficiadas pelas doações de empresas ou fundações.

Com a nova pesquisa, priorizaram-se fundações que não têm fundos patrimoniais, considerando-se que: como elas não tem recursos próprios, são mais dependentes do orçamento aprovado pelo corporate business. Isto é, com pouca autonomia para decidir suas estratégias de atuação.

As conclusões apontaram para um resultado diverso (três, especificamente) quanto ao impacto do diálogo entre RSP e ISP:

Para uma parcela das organizações argüidas, que chamaremos de Grupo A, suas funções em relação ao financiamento de projetos sociais estavam bem-definidas e que, portanto, a responsabilidade da empresa mantenedora tinha pouco impacto em suas atividade.

Já para o Grupo B, a razão original da criação da fundação não existe mais, e a responsabilidade corporativa foi para a empresa uma oportunidade para rever o papel da fundação, procurando integrá-la mais ao negócio.

Enfim, o Grupo C apontou que a responsabilidade corporativa representou uma oportunidade para criar uma fundação com o propósito específico de aproximar a empresa da responsabilidade social.

Com essas considerações de contexto, a pesquisa propõe um novo caminho para a fundação empresarial, que aponta de forma genérica algumas práticas positivas que as empresas e as consideradas “inteligência social das empresas”. No entanto, não se chega a reais propósitos sistematizados que podem direcionar novas posturas.

Esse mesmo problema foi detectado aqui no Brasil em um encontro promovido pela Aliança Capoava – organização composta pela Fundação Avina, Ashoka Empreendedores Sociais, Instituto Ethos e o GIFE. O Evento reuniu, em São Paulo, representantes dos principais institutos e fundações empresariais que atuam no país.

Os convidados foram estimulados a listar as demandas emergentes nos institutos e fundações que representam. Entre as principais conclusões foram apresentadas:

Ser consultor interno para as mais diversas áreas da empresa, promovendo uma coerência entre discurso e prática;

  • facilitador de diálogos entre as empresas e a sociedade civil, conscientizando-a sobre temas como RES, ISP e sustentabilidade;
  • mobilização de recursos, otimizando-os a partir de parcerias intersetoriais com foco no desenvolvimento local;
  • estimular a definição de papéis do Estado, sociedade civil e setor privado;
  • tornar-se indutor/tradutor/mediador das demandas sociais;
  • e ser responsável pela melhoria no processo de gestão do investimento social.

Embora a lista concentre idéias genéricas, ela pode ser entendida por meio da relação histórica entre ISP e RSE no país. Segundo o secretário geral do GIFE, Fernando Rossetti, o boom do terceiro setor na década de 90 mobilizou empresas na criação de seus institutos e fundações no investimento maciço ao fomento de projetos comunitários.

No entanto, a hipercompetitividade global – que exige padrões de governança e sustentabilidade cada vez maiores dos negócios -, somada à profissionalização do terceiro setor, vem impondo novos desafios a essas instituições. “A busca por modelos de gestão coorporativas mais sustentáveis mostrou que responsabilidade social empresarial é muito maior do que um trabalho comunitário. Ao perceberem isso, as empresas acabaram pedindo ajuda às suas fundações e institutos, que antes respondiam apenas pelo investimento social”, explica o secretário.

O que mostra a pesquisa e o encontro é simples. Não apenas o Brasil, como todo o mundo está engatinhando na busca de soluções. Como não há bibliografia, pesquisas ou estudos consistentes para se apoiar, as respostas virão por meio de debates permanentes, que apontarão os rumos para consenso e entendimentos. Daí o tema ser pauta sine qua non na agenda de 2008.

Nesse contexto, o GIFE irá preparar uma mesa especial de debates sobre o tema durante o 5º Congresso GIFE sobre Investimento Social Privado, a ser realizado de 02 a 04 de abril de 2008, em Salvador.

Assumindo Responsabilidade

Publicado originalmente na revista Caritas, o artigo de Shanta Acharya apresenta uma macro visão sobre o papel do investimento socialmente responsável. Shanta é diretora da Initiative on Foundation and Endowment Asset Management da London Business School.

Fluxos de capital globais têm um impacto significativo no desenvolvimento sustentável, no meio-ambiente e, em última instância, no tipo de sociedade que criamos. É crítico examinarmos nossas prioridades quando investimos e compreender os impactos de longo prazo em todos os aspectos da vida na Terra. Se cada um de nós se tornar mais responsável, os efeitos incrementais poderiam, literalmente, mudar o mundo. É verdade que as corporações e os fundos de pensão possuem um enorme poder, mas estas instituições também devem ser responsáveis perante nós, seus acionistas. O ponto de virada pode ser alcançado se os indivíduos compartilharem a agenda sobre o Investimento em Responsabilidade Social (IRS).

Definições e implementação

Quando nos referimos a IRS, diversas questões surgem com relação às definições e avaliação. O problema das definições – o que nós acreditamos ser ético ou socialmente responsável – é importante porque tais decisões são assuntos para diversas vertentes. Quando um pequeno grupo de trustees de uma organização social ou um grupo de indivíduos (assim como Quakers) concordam sobre o que é ético, ou sabem “qual é a coisa certa a ser feita”, eles também são solicitados para servir o seu grupo de influência sem o compromisso de obter um retorno. Para um grande grupo de investidores, o conceito por si só é frágil com vertentes cognitivas que podem criar armadilhas éticas. Diversos acordos e tratados, alguns internacionais, têm sido estabelecidos, mas o nível de implementação varia. Países desenvolvidos ainda têm que investir adequadamente no monitoramento de questões sobre o IRS. Em países em desenvolvimento, a má gestão e a corrupção freqüentemente resultam no desperdício dos recursos financeiros. A população pobre ao redor do globo não tem participado da criação da riqueza. Ao contrário, a degradação ambiental, a decadência dos serviços públicos e bem-estar social – em muitos casos a inexistência destes serviços – somado à ausência de oportunidades tem afetado a confiança sobre a eficácia do mercado capital global. A história recente tem nos ensinado que a liberalização do mercado pode falhar dramaticamente se o governo responsável, a solidez do mercado financeiro e o papel da lei estão ausentes. Assim que examinamos nosso mundo no século 21, é uma triste realidade que um terço da população ainda viva abaixo da linha de pobreza.

Measurement e valor

Investidores reconhecem a urgente necessidade por uma nova arquitetura ética que se iguale ao novo sistema financeiro global, mas reconhecem a inexistência de um mecanismo eficaz para a implementação e monitoramento. E este é o segundo e mais prejudicial problema: o que não pode ser medido não pode ser gerenciado. A razão pela qual um banqueiro investidor recebe milhões é, simplesmente, devido a sua habilidade para gerar receita para a firma que parece ser mensurável, apesar de que o ponto cego de uma avaliação a curto-prazo tem resultado em erros maciços de julgamento, como a crise a crise sub-prime. Tanto a estrutura de compensação lucrativa relativa na indústria financeira quanto os profissionais exercem influência para agir de maneira não-ética e atrai pessoas com essas tendências de comportamento para auto selecioná-las para entrar nesta indústria. Enquanto uns não podem legislar contra a ganância ou estupidez, nós podemos coletivamente influenciar políticas públicas que não exigem tais comportamentos. Professores, doutores e enfermeiras, entre outros profissionais, têm trabalhado sem expectativa de obter um bônus; mas nós não temos problema em pagar por um gerente de hedg fund 2% a 3% de taxas anuais e 20% a 30% do resultado. Recompensar as pessoas pela sua capacidade de gerar riqueza é significativo; mas recompensar os diretores e presidentes por falhar ou por fazerem o melhor em seus trabalhos é, em minha opinião, um suicídio financeiro. Além de termos sido desapontados pos economistas, acadêmicos, especialistas em investimentos que têm dedicado tempo e dinheiro para desenvolver diferentes estratégias de comércio, nós também não sabemos a melhor maneira de mensurar a contribuição que os professores, enfermeiras, policiais ou bombeiros podem trazer para a sociedade. Nem mesmo sabemos como mensurar uma “boa” empresa. A ausência de informações relevantes representa uma significativa barreira para a nossa habilidade para valorar as coisas. O Produto Interno Bruto (PIB), a mais visível estatística econômica, é a soma das transações econômicas. Mas não é reflexo da saúde financeira, bem-estar social ou questões ambientais. Enquanto alguns países estão produzindo “contas satélites”, medindo o trabalho da casa, o trabalho social e o impacto das atividades no meio ambiente, as evidências são pequenas de que essas estatísticas estão exercendo alguma influência nas políticas públicas. No nível micro, a lista da maioria das folhas do balanço patrimonial  destes pontos cegos é impressionante: eles raramente incluem o valor da marca ou a contabilidade para os recursos intangíveis relacionados a pesquisa e desenvolvimento e ao capital intelectual e, certamente, nunca capitalizaram o valor para os recursos humanos ou para o valor do empreendimento. Relatórios anuais não são suficientes como justificativa para os stakeholders que apóiam a sustentabilidade das empresas a longo prazo como uma entidade econômica e, assim, deixa de revelar a verdadeira fonte do valor da corporação. Transpor a lacuna entre a avaliação das questões sociais e ambientais da análise financeira no processo de investimento é o desafio que os analistas e investidores encaram atualmente. Isto não é para sugerir que pode ser feito. Ao contrário, eu encorajaria investidores “responsáveis” para investir no que eles acreditam: um mercado eficiente depende do crescimento do ativo. Investidores “convictos”, como os gerentes de hedge funds altamente capacitados. E dessa maneira, além de provocar a transformação das atividades de investimento ético em um compromisso sério, também envolverá uma melhor compreensão sobre o que cada um está “engajado”. Como Warren Buffet apontou, nunca invista em algo em que você não tem compreensão. Os investidores reconhecem que há um dividendo da governança corporativa anexa às corporações; eles usualmente comandam um mercado superior de avaliação, têm acesso mais barato ao capital e benefícios de uma base forte de acionistas. O ativismo dos acionistas está se tornando um importante caminho para influenciar as empresas a abordar as questões sociais e de políticas públicas. Desde 2000, fundos de pensão ocupacionais no Reino Unido têm sido responsabilizados pelas suas políticas de ética e de votação assim como pela performance de seus fundos financeiros. A legislação não retira os requisitos para que os trustees tomem decisões para alcançar os melhores interesses para o plano dos beneficiários. A lei endossa a primazia para preservar os interesses financeiros dos beneficiários e as cortes consideram que os trustees das corporações estão sujeitos aos princípios da lei de investimento.

Investimento ético e IRS

Se os investidores optam por marginalizar as corporações indesejadas (como neste caso, por exemplo, com os Comissionários da Igreja que impedem o investimento em companhias cujas receitas são derivadas de negócios associados ao comércio de armas, álcool, tabaco ou jogos) ou engajar ativamente na gestão de companhias que possuem ações em (como é o caso de diversos fundos administrados pelo grupo Hermés, por exemplo), não há razão para não engajar-se ativamente no processo de investimento. Enquanto IRSou investimentos éticos precisam ser diferenciados do “investimento social”, que não é um investimento no sentido financeiro do termo. O Investimento Ético é um investimento no sentido financeiro, e os trustees são obrigados pela lei a atuar adequadamente. O documento de governança de uma organização social geralmente impõe restrições éticas no escopo do poder de investimento da organização. Tais restrições devem, certamente, ser observadas pelos trustees. Usualmente, serão os próprios trustees que decidirão adotar uma política de investimento ética. Ao adotar tal política, a Comissão de Caridade estipulará: “Eles (trustees) precisam ter consciência dos princípios reais que o seu poder de investimento deve ser utilizado para avançar as propostas do conselho e estas propostas serão melhor atendidas buscando o máximo retorno consistente com a prudência comercial. Como o juiz coloca … “A maioria das organizações sociais precisam de dinheiro; e o quanto mais estiver disponível, mais os trustees buscarão realizar”. Uma política de investimento ético é esperada a ser inteiramente consistente com o desejo do investimento de buscar os melhores retornos. Há um ponto de vista que tem crescido de que as companhias que atuam de uma maneira socialmente responsável tem mais chances de oferecer o melhor balanço a longo-prazo entre o risco e o retorno do investimento. Os trustees são livres para adotar qualquer política de investimento ético que eles acreditem que irá resultar em um melhor equilíbrio entre o risco e a recompensa pelo seu trabalho filantrópico. Assim como qualquer outra estratégia de investimento, eles devem ter cuidado ao desempenhar as suas funções; particularmente, eles devem considerar a necessidade em diversificar e devem pedir conselhos quando necessário. Os investidores do setor de filantropia desejam investir os seus recursos de uma maneira responsável refletindo os seus objetivos em um investimento a longo-prazo. Ainda que a insistência em “ser bom” com a garantia de um retorno financeiro pode desnecessariamente confundir a questão. Assim como os hedges funds oferecem riscos atrelados ao retorno, investidores éticos devem ter como objetivo alcançar os aspectos intangíveis e de longo-prazo de serem investidores responsáveis. O risco para um investidor responsável é não ter a coragem da sua convicção ética em desenvolver uma estratégia apropriada de investimento, e não se satisfazer com um baixo retorno se requisitado como o verdadeiro custo para conduzir um negócio de maneira ética.