Por Ilan Ryfer – co CEO da 1618 Investimentos
No Brasil e no mundo, vivemos uma fase de transição, que já dura algumas décadas. Uma transição geracional, onde trocamos uma preocupação somente com eficiência e lucro, para uma sociedade mais sintonizada com resiliência, qualidade de vida e sustentabilidade, onde retornos financeiros e lucro são somente dois de uma miríade de indicadores atualmente considerados essenciais.
E nada mais adequado do que aproveitar a COP30 em Belém e a recente publicação pelo IDIS do Anuário de Desempenho de Fundos Patrimoniais para tentar entender como essa transição tem se traduzido na gestão dos fundos patrimoniais, também conhecidos como endowments, em especial aqueles voltados para os temas de conservação ambiental.
Iniciando nossa jornada pelo anuário, notamos que somente 32 do total de 92 endowments adota algum tipo de prática de investimento responsável, sendo que desses 32, apenas 35% tem investimentos diretos ou indiretos em negócios de impacto.
Quando a pergunta muda para investimentos ligados especificamente à causa da instituição mantenedora do fundo patrimonial, somente 14% tem investimentos dessa natureza. Entretanto, isso não é indicativo de qual percentual dos portfólios são destinados para esses investimentos. Tendo a acreditar que, em média, é um percentual ínfimo, pelos motívos que apresento a seguir.
A razão mais citada pelos gestores de endowments brasileiros (67%) para não adotarem uma política de investimento responsável, e mais especificamente fazer investimentos ligados a causa, é que não é uma prioridade ou tema de atenção no momento. Depois desse motivo, os mais citados são os potenciais impactos negativos sobre o desempenho do fundo, a falta de possibilidade de acesso a produtos de investimento responsável, a falta de gestores de recursos com expertise e o risco muito elevado.
Depois de mais de 15 anos participando de comites de investimento de diversas ONGs, tenho a tendencia a reunir os 4 ultimos motivos num só: faltam produtos financeiros adequados para investimentos pelos endowments. E os motivos são vários.
Em algumas causas, dificilmente será possível montar um produto financeiro com retorno competitivo. Se a instituição se dedica a melhorar a educação no Brasil, provavelmente achará investimentos adequados nessa área, mas se o objetivo for erradicar a fome no interior do Nordeste, dificilmente existirá algo que atenda diretamente esse objetivo com retorno financeiro compatível.
Em outras áreas, o impacto socioambiental pode ser de difícil mensuração, seja porque não existem métricas confiáveis, seja porque o setor é afetado por múltiplos atores, sendo mais complexo definir o impacto individual de cada um deles.
E ainda existe o risco de greenwashing, em que o produto financeiro é ofertado como de impacto ssocioambiental positivo, quando na prática não tem nenhum impacto, sendo apenas uma estratégia de marketing.
Por esses e outros motivos, os gestores de fundos patrimoniais têm muita dificuldade em encontrar investimentos adequados ligados à causa da instituição mantenedora, e muitos podem simplesmente desistir de procurar. O que levaria de volta ao motivo mais citado: a falta de prioridade em buscar esses investimentos. Como são raros, de difícil compreensão e entendimento, muitos gestores podem decidir se focar naquilo que lhes é mais conhecido e confortável: gerar retornos positivos compatíveis com a perpetuação do endowment para financiar a instituição mantenedora utilizando instrumentos tradicionais de mercado financeiro.
Há mais de 10 anos participo do comitê de investimentos da SOS Mata Atlântica, e por diversas vezes discutimos o tema de investir em produtos financeiros ligados à causa de recuperação da mata brasileira. Depois de muito bater a cabeça, acabamos decidindo nos focar naquilo que o grupo sabe fazer bem: gerar retornos positivos. E deixar para a SOS fazer aquilo que faz bem: recuperar a Mata Atlântica.
Mas o Brasil é muito pequeno quando comparamos com o mundo, e nada melhor do que olhar a experiencia internacional nessa área. Para isso, selecionei algumas instituições ligadas à conservação do meio ambiente, de diversos tamanhos, e tentei entender como funciona essa gestão.
| Organização | Missão / Foco | Tamanho / Estrutura do Endowment | Governança | Política de Investimentos |
| Synchronicity Earth (UK) | Conservação da biodiversidade global (espécies, oceanos, florestas). | Múltiplos endowments temáticos. Formato expendable, endowments duram 14 anos. | Comitê de investimento próprio, governança leve e mandatos temáticos. | Busca retornos entre 4%-8% ao ano. Sem abertura de seus investimentos, feitos pela Aurum Fund Management. Sem política de investimentos na causa. |
| Crop Trust | Preservação da diversidade agrícola global e bancos de sementes. | US$ 400 milhões (2024), capital investido em portfólio de baixo risco; meta de dobrar valor para garantir operação global permanente. | Estrutura de endowment puro; spending de 3,5–4,5% ao ano, foco em preservação real do capital. Já distribuiu U$90MM desde 2005. | Pelo que se observa da política de investimentos e relatórios financeiros, não tem meta de investimentos financeiros na causa. |
| The Nature Conservancy (TNC) | Conservação global em mais de 70 países (terrestre e marinha). | ≈ US$ 4 bilhões em endowment e reservas de longo prazo, patrimônio total ≈ US$ 10 bilhões. | Office of Investments profissional; diversificação global e uso de alternativos; foco em poder de compra real. | Estrutura de investimento profissionalizada e foco de longo prazo, mas praticamente nada investido diretamente na causa. |
| Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund | Conservação de espécies ameaçadas globalmente. | Endowment inicial €25 milhões; aporte adicional US$40 milhões (2024). Rendimento sustenta pequenos grants. | Governança enxuta; grants globais com seleção técnica independente. | Externa via mandatos discricionários na Goldman Sachs (ações e renda fixa), Banco Pictet (private equity e hedge funds), e outras 3 gestoras especificas. Sem política de investimentos na causa. |
| McKnight Foundation | Organização americana voltada ao financiamento de diversos programas de sustentabilidade do planeta. | Endowment com mais de U$2,6 bilhões. Desembolsou mais de U$145 milhões no financiamento dos programas em 2024. | Estrutura de endowment perpétuo com políticas de investimentos muito específicas e gestão interna. | Parte significativa, ao menos U$200 milhões, tem de ser alocado para investimentos de impacto, com objetivo de retorno financeiro positivo Também estabelece o objetivo de ter 50% dos seus investimentos alinhados com a missão da organização. |
Obviamente o quadro acima é uma amostragem muito pequena do universo de instituições globais com causas ligadas ao meio ambiente, mas entendo que, de forma geral, fornece um panorama adequado da realidade: pouquíssimas usam os recursos de seus fundos patrimoniais para fazer investimentos financeiros na própria causa com objetivo de retornos positivos. Talvez porque os problemas que encontramos no Brasil sejam os mesmos a nível global.
A conclusão do observado no Brasil e no mundo pode ser, como sempre, vista pelo ângulo “copo meio vazio” ou “copo meio cheio”. Por um lado, a experiência internacional indica que pode não valer a pena gastar tempo tentando alinhar investimentos financeiros dos fundos patrimoniais com as causas abraçadas pelas organizações mantenedoras, priorizando uma gestão puramente voltada para retornos e perpetuação dos recursos financeiros. Por outro, pode indicar uma enorme oportunidade de desenvolvimento de produtos financeiros criativos para atender essa demanda potencial por produtos de impacto socioambiental com retornos monetários positivos e compatíveis com as metas dos fundos patrimoniais. Fica a dica!
ANEXO INFORMATIVO
Synchronicity Earth busca 4%-8% de retorno nos seus endowments, utilizando estratégias de retorno absoluto. Os endowments tem uma média de saque de 10% do capital por ano e são feitos para durarem 14 anos. Os resgates são flexíveis dependendo do retorno obtido num ano. Não abrem seus investimentos e não falam se os investimentos feitos para dar retorno também buscam apoiar causas de conservação ambiental. Também faltam dados sobre os tamanhos dos endowments temáticos. Os investimentos do endowment são feitos pela Aurum Fund Management.
O endowment Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund’s foi criado em 2009 com uma dotação inicial de U$27.5 milhões e é gerido de forma a gerar pequenas programas de patrocínio de conservação ambiental de forma perpétua. A política de investimentos especifica que serão feitas distribuições anuais para a conservação de espécies específicas e que o capital em dólares americanos deve ser preservado com uma perspectiva de 10 anos de horizonte. Uma política adicional é tentar aumentar o capital do endowment através de investimentos de rendam mais que as distribuições feitas, desde que observadas a política de distribuição anual e de preservação do capital original. O capital original cresceu para U$30 milhões com mais de U$20 milhões tendo sido feitas desde sua origem. Os retornos do endowment foram de aproximadamente 5% ao ano. Os fundos são administrados externamente em mandatos discricionários pela Goldman Sachs (ações e renda fixa), Banco Pictet (private equity e hedge funds), mais duas carteiras de ativos imobiliários na PGIM e Blackstone e uma num hedge fund, Aurum Millenium.

A The Nature Conservancy, uma das maiores ONGs de conservação do mundo, tem quase U$10 bilhões em ativos, sendo U$3,5 bilhões em investimentos através de seu endowment ou fundos de conservação específicos. No seu relatório anual de 2024, eles descrevem sua política de investimentos como sendo diversificada em diversas classes de ativos, com o objetivo de gerar elevados retornos de longo prazo, ajustados ao risco, e ao mesmo tempo alinhar esses investimentos, quando possível, a sua missão. Na prática, ao analisar a carteira do endowment, apenas U$115.000 dos U$3,5 bilhões em investimentos parecem estar diretamente ligados a causa. Em sua grande maioria, os investimentos são feitos em ações, renda fixa, hedge funds e private equity.

O The Crop Trust mantém um endowment com o objetivo de financiar a diversidade de culturas agrícolas na perpetuidade. O objetivo financeiro indicado pelo endowment é de investir em um portfólio diversificado de instrumentos financeiros de baixo risco, de forma a gerar retornos suficientes para manter a finalidade de instituição. O endowment tem, de acordo com seu último relatório, pouco mais de U$400 milhões em ativos e desde 2005 já teve mais de U$90 milhões de distribuição para uso da instituição. Em sua política de investimentos e pelo que se pode observar dos demonstrativos financeiros do endowment, não existe uma preocupação específica com o uso do capital em investimentos diretamente ligados com a finalidade da instituição.

A McKnight Foundation é uma organização americana que se dedica ao financiamento de diversos programas voltados para a sustentabilidade do planeta. Seu endowment tem mais de U$2,6 bilhões e em 2024 a fundação desembolsou mais de U$145 milhões no financiamento dos programas. A McKnight Foundations é uma das poucas instituições que estabelece que parte significativa de seu endowment, ao menos U$200 milhões, será alocado para investimentos de impacto, em sua maioria com objetivo de retorno positivo em linha com o objetivo geral de retorno financeiro. Alguns poucos investimentos podem ser feitos a fundo perdido. Além disso, estabelecem o objetivo de ter 50% dos seus investimentos alinhados com a missão da organização.
















“Por aqui, a construção dessa cultura é o grande desafio. Ainda há desconhecimento sobre os mecanismos de funcionamento dos fundos patrimoniais, resistência à doação por parte do setor privado e poucos incentivos fiscais. Avançar exige vontade política, articulação entre governo, iniciativa privada e 
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